
Quando fechamos a velha agenda e retiramos a nova da gaveta, muitas vezes ainda no plástico, com aquele cheirinho de tinta, sem nenhuma ranhura ou anotação, há uma infinidade de possibilidades em nossa mente. Há uma sensação de leveza e esperança...
E mesmo sem agenda, como no meu caso que utilizo apenas um caderninho onde anoto tudo, desde as contas do mês, troca do gás e até aniversário de amigos, começar algo novo é revigorante.
Mas a verdade é que todo ano é a mesma coisa, começa com muita esperança, mas sem nenhuma leveza, pois que o pobre e novo ano se inicia literalmente sobrecarregado. Tudo que postergamos no velho, jogamos nas costas do recém-nascido, com direito a novas e velhas tralhas.
A agenda velha se foi e junto com ela as promessas não cumpridas, contatos indesejados, sonhos empacados, fracassos perpetuados em anotações... Melhor fechar logo, pra não perder a esperança, pois esse ano será melhor com certeza...
As promessas de mudanças que acompanham a virada de ano enchem um abismo de ilusões... Queremos tanta coisa, sonhamos com tanta coisa e prometemos mais do que estamos dispostos a cumprir. Mas como seria sem as adoráveis e necessárias ilusões de virada de ano?
Como eu disse, é revigorante... Ilusão de mudança de emprego, novo relacionamento afetivo, carro novo, dietas miraculosas que passam batidas no decorrer do ano todo, mas que ganham um potencial assustador na contagem regressiva. Dessa vez vai! Neste ano que inicia, eu acabo com o minha antipatia pela balança! Ah, maledetta...
Uma contagem regressiva para a realização dos sonhos, um momento mágico onde acreditamos que podemos reverter o quadro de um ano todo. Emagrecer por pensamento... Enriquecer sem esforço... Quem sabe eu ganho na mega sena... Se ao menos eu jogasse...
A magia deste dia está em completar nosso passeio espacial ao redor do astro rei, pois cada ciclo em torno do Sol é literalmente receber uma agenda nova, onde podemos escrever uma nova história, acrescentar novos personagens, investir em novos caminhos. Mas, Arghn, passa tão rápido. Logo estamos em abril – eu ficando mais velha – e nos resignamos a esperar o próximo ano... Mas a magia está ai... Temos sempre condições de melhorar, sempre uma nova oportunidade, novos sonhos... E mais uns bolos, quitutes, sonecas e novas promessas...
E para mim, esqueça os simbolismos das cores e os desejos secretos. Passagens de anos significam barulho e animais desesperados, e sendo assim, prefiro apenas trocar de agenda – ou caderno.
E se você pensou que todo ano eu começo com essa ladainha, está certo, é um assunto maçante, concordo. Mas fica difícil ignorar, pois o resultado desse hábito agressivo, barulhento e irresponsável, nós podemos ver no dia seguinte nas redes sociais: inúmeros casos de animais feridos e mortos. Mortes por parada cardíaca, enforcamentos, cães que se mutilam tentando escapar, cães que literalmente quebram paredes no desespero para fugir do barulho.
Muitos defensores de animais engajam campanhas contra a queima de fogos: mostram imagens, contam histórias... Uma iniciativa bonita, se no dia seguinte, o mesmo suposto defensor não postasse sua comemoração “silenciosa” de ano novo com a churrasqueira cheia.
Peraí... Não entendi...
O cão se assusta com o barulho e pode morrer... A vaca não se assusta com a faca? E ela não pode morrer? E o porco, tão assustado quanto um cão, ele não morre para que o defensor possa celebrar um ano novo sem rojões? Aliás, ele morre, a vaca morre, o cabrito morre, as aves e todos os seres lindos de Deus que viram prato principal nas comemorações... Não torça o nariz! Eu fico confusa... E o motivo dessa confusão está em espetos exalando cheiros, crepitando no objeto medieval de tortura!
Mas deixando as confusões de lado, é inegável que a cada ano, uma agenda em branco nos é presenteada, temos a oportunidade de mudar, mas temos a necessidade, para não dizer obrigação, de melhorar, se não por nós, mas por aqueles que nos são caros. E não estou falando em dietas e novos relacionamentos. Estou falando de responsabilidade perante a vida, nossa vida e a vida de todos os que conosco dividem este planeta.
Já traçou sua meta para esse ano?
Menos carboidratos, menos glúten, menos cigarros, bebidas, mais vegetais, menos morte no prato...
Escreva apenas o que valer a pena na sua agenda nova, pois logo ela perde a validade.
Bom ano para todos!
Vanderli do Carmo Rodrigues