
Ela podia senti-lo mexendo em sua barriga...
Sentia as dores e os desconfortos normais de toda grávida, mas também sentia algo que transcendia o seu físico. Uma calma incomum se apoderara dela, um amor por tudo e todos...
Não que ela fosse uma pessoa ruim, claro que não; aliás, era considerada um anjo de bondade por todos que a conheciam, uma pessoa que irradiava amor e compreensão.
Mas algo acontecera com ela enquanto gerava aquela vida.
Havia noites em que sonhava com seres angelicais a lhe falar. Falavam do futuro daquela criança, diziam coisas que mudariam o rumo da humanidade. Quando acordava, lembrava-se apenas da paz sentida, e as palavras dos anjos ela esquecia nos afazeres da casa.
Aquele era seu primeiro filho; sendo assim, não entendia se tudo aquilo era normal ou não, mas já não era dona do seu corpo ou mesmo do seu paladar. Repudiava tudo o que fosse carne e derivados, fixando sua preferência nas frutas, geleias e pães de mel. Como eram saborosos aqueles sucos concentrados que as vizinhas amigas, sabendo da sua preferência, preparavam...
E ele nasceu...
A Terra desconhecia aquele conceito de perfeição... Acomodado em seu berço de palha e algodão, a criança surpreendia até os animais que o espreitavam entre as frestas que dividiam os aposentos simples. E os boatos correram pelas cidades vizinhas: nunca havia nascido uma criança tão bela. Pessoas curiosas vinham de longe e traziam presentes.
Não havia nele a expressão enrugada e inchada que todos os recém-nascidos apresentam, mas sim um rosto perfeito, pele aveludada e olhos claros que pareciam ver e entender tudo. Dizem que era difícil olhar para ele sem chorar...
Enquanto crescia, transcendia em inteligência e beleza qualquer criança das redondezas, despertando inveja em algumas mães, que não entendiam como um casal tão simples pudera gerar um ser tão perfeito.
A postura era de um príncipe, o rosto de um anjo, e seus olhos claros despertavam amor e respeito. Parecia ser conhecedor de todos os segredos do Universo; parecia ter o poder de curar qualquer ferida física ou espiritual. Ajudava os idosos, encantava os adultos e curava os animais...
Sua alimentação causava temor na família, pois como alguém podia viver de frutas e pães de mel? E certa vez, movidos pela preocupação, forçaram-no a comer um pedaço de peixe, causando nele, como reação, uma terrível crise alérgica!
Seu corpo era amor; não podia se nutrir da dor de inocentes...
Tamanha sensibilidade lhe causava sofrimento. Afinal, as brincadeiras preferidas das crianças da sua idade envolviam crueldade com animais, e ele chorava por cada um deles... Quando o peso do mundo era um fardo maior do que seus doces ombros podiam suportar, ele corria pelas colinas e, embaixo das árvores, deixava-se cair e permanecia assim, em oração, até que seu coração se acalmasse e seu corpo se equilibrasse com as energias da natureza.
Era impossível olhar para ele sem ver um animal por perto ou um filhote em seus braços. Quantas vezes seu velho pai, homem endurecido pela vida e pela lida na carpintaria, ficava a observá-lo enquanto ele conversava animadamente com os animais da casa. E o pior para seu velho pai era sentir que os animais o entendiam...
Das casas simples da rua, a sua se destacava das demais, pois era a única que tinha um jardim florido. Era comum vê-lo debruçado sobre as plantas, conversando com carinho. As flores pareciam se encantar pelo toque suave de suas mãos, pois cresciam viçosas. Flores de todas as cores e de todos os perfumes...
Um dia, seus pais ganharam um pássaro de bela plumagem, que afirmavam possuir um suave canto. Mas, antes que tivessem a chance de ouvi-lo cantar, eis que o menino abre a gaiola e, eufórico, sai a pular pelo quintal, acenando para o pássaro que, feliz, ganhava os céus.
Com as chuvas não era diferente. Era difícil mantê-lo em casa; parecia que a água da chuva era um bálsamo para seu corpo, pois ele permanecia com os braços abertos enquanto o líquido sagrado encharcava suas vestes.
Ele cresceu...
Tornou-se o homem mais belo já visto por qualquer um: cabelos cor de amêndoa até os ombros, repartidos como era costume da época, barba rente e olhos claros. Despertou a paixão das donzelas sonhadoras, que se arriscavam a lançar-lhe olhares lânguidos, mas arrependiam-se no mesmo instante, pois o olhar que recebiam de volta era amor puro e lhes tirava qualquer pensamento impuro que pudessem ter. Era como se ele dissesse:
“Não pertenço a ninguém... Eu nasci para toda a humanidade...”
Era visto constantemente pela cidade, acompanhado por um grupo de pescadores, pregando uma doutrina estranha, na qual dizia que deveriam perdoar, dar a outra face e amar a todos, sem distinção...
Pregava nos templos, implorava pela vida dos animais presos para o sacrifício, e sua doce súplica era ouvida. Os animais soltos saíam em disparada pelas ruas e enchiam os céus com os sons das asas em liberdade.
Alguns o achavam um louco, outros um santo. Despertou tanto amor que foi visto como ameaça por uma minoria, que o perseguiu e o capturou...
Quando aquela cruz foi levantada do chão, todo o planeta chorou... Os céus escureceram e a força da natureza ecoou em cada canto.
Havia um ranger nas rochas, um uivo no vento, um farfalhar nas árvores e um lamento dos animais, que pareciam dizer em uma só voz:
“Socorro! Estão matando nosso anjo!”
Ele se foi...
Os dias sagrados em que ele pisou esta terra e respirou nosso ar ficaram retratados apenas na história. Mas ele ainda pode viver em cada um de nós... Sempre que nos apiedamos de um animal ferido e mudamos nossas vidas por eles, estamos despertando em nós o espírito desse anjo. E, se pararmos por alguns minutos, talvez consigamos escutar o riso doce daquele menino que gostava de ficar entre as árvores amigas, conversando com os animais...
Ele foi, sem dúvida, um menino incomparável!
Feliz Natal!
Informações sobre a infância de Jesus, extraídas do livro “Sublime Peregrino”, de Ramatis.
Vanderli do Carmo Rodrigues