
O que aconteceria a uma criança humana se ela fosse criada por um animal selvagem? Você acha que ela ensinaria o animal a ter comportamentos humanos ou seria o contrário? Apesar do romantismo que Mogli ou Tarzan inspira, a verdade nesses casos, talvez esteja bem longe de ser como o cinema mostra.
Em 1920, duas meninas foram encontradas em uma caverna na Índia, e elas supostamente estavam vivendo entre lobos; Amala com menos de 2 anos e Kamala com cerca de 8 anos ficaram conhecidas como as "meninas-lobo"; levadas para um orfanato, Amala teria morrido logo após o resgate, e Kamala viveu mais nove anos, aprendendo lentamente a andar ereta, comer alimentos cozidos, já que ela preferia carne crua; desenvolveu um vocabulário limitado, não conseguia demonstrar afeto e era arredia com estranhos. Apesar de haver debates sobre a veracidade dessa história, ela está longe de ser a única...
Na Ucrânia, uma menina teria sido criada por cães, desenvolveu hábitos caninos, latindo e agindo como um animal, sendo difícil para ela aprender a falar. No Peru, um menino foi descoberto nas montanhas, andava de quatro com cabras, bebia leite e comia raízes, vivendo de forma quase selvagem por anos. Em Fiji, um menino foi encontrado cacarejando e bicando comida como galinha, após ser mantido com elas.
Crianças sendo criadas por primatas, canídeos, felinos... As histórias chegam de todas as partes do mundo e se verdade ou não, abre uma assustadora reflexão: O que nos torna humanos? Nossa evolução ou o meio em que vivemos? Ser ou estar humano? E o mais assustador, o que é realmente “ser” humano?
Apesar da nossa certeza de superioridade como espécie dominante, há uma linha quase que imperceptível em termos de evolução, que nos separa dos animais. Enchemos a boca para enumerar nossa humanidade e nos colocar acima dos demais seres do planeta, mas já parou para pensar no peso dessa posição? Ser humano não é apenas andar em duas pernas, usar talheres, dizer palavras ensaiadas de boa convivência e ostentar o título de espécie cuidadora do planeta, mas também carregar a responsabilidade de ser humano! A palavra humanidade tornou-se sinônimo de benevolência, altruísmo, e quando queremos nos referir aos padrões que fogem do bem, dizemos que essa ou aquela atitude é desumana, muitas vezes dizemos inclusive que é coisa de animal...
A palavra “desumano” não condiz com a realidade terrena, pois o único ser que consegue praticar a desumanidade é aquele que criou a expressão, ou seja, o próprio ser humano. Eu nunca vi um animal praticar a tão falada desumanidade, mas já vi sim, o ser humano praticar, repetir e continuar praticando.
Matar por prazer, estuprar, espancar crianças e idosos são atitudes animalescas? Mas quem as encenam são os humanos... Então por que dizer que essas atitudes são desumanas? Já viu algum animal fazendo algo parecido? Quem pratica essas barbáries está sendo totalmente humano, agindo como só agem os seres humanos; e para os contrários ao meu ponto de vista, nem tente argumentar! Sem margens para a defesa da raça humana!
Os animais, quando matam, o fazem apenas para sobreviver, e a maioria dos carnívoros ou carniceiros, alimenta-se de outros animais que já morreram naturalmente, ou do que sobra da caça dos grandes felinos. Já imaginou se um leão espertalhão, resolvesse abrir um açougue de carne humana e servir àqueles leões preguiçosos que não são chegados a uma caça? Coitados de muitos de nós...
Os animais são mais “humanos” que muitos dos pertencentes a essa espécie; histórias incríveis como a da tigresa que adotou os filhotes de porquinhos órfãos, amamentando-os e cuidando como se fossem seus; ou a cadela que adotou uma ninhada de gatinhos, abandonados em uma lata de lixo, na mesma praça em que ela também fora deixada um dia, e que para salvar os filhotes abandonados, ela começou a produzir leite.
Os animais são desumanos sim, graças a Deus, afinal não praticam a humanidade, não matam por prazer, não estupram, não comem sem ter fome, não destroem o planeta onde vivem, não falam pelos cotovelos, não traem e não ambicionam mais que o necessário para sobreviver.
Muitas vezes precisamos esquecer os milênios de evolução que nos separam dos animais, precisamos esquecer os costumes aprendidos e adquiridos, precisamos esquecer toda a ladainha de que somos superiores e nos voltarmos para a simplicidade. A simplicidade de andar descalço, de contemplar o céu, de não julgar, de não cobiçar, de viver apenas para o básico...
Os animais não possuem sentimento? Talvez a ciência afirme isso, e muitos podem acreditar. Para mim eles não possuem os “nossos sentimentos”, o que é bem diferente, não possuem o ódio, a inveja, a maldade, a cobiça, e tantos atributos que fazem da nossa espécie, a espécie dominante, ou devo dizer dominadora?
Apesar de serem primitivos e guiados pelos instintos, os animais possuem o maior de todos os sentimentos, ainda no estágio puro, o sentimento que constrói e salva... O amor...
Então faço um convite, sejamos ao menos uma vez por dia, menos humanos e mais animais...
Vanderli do Carmo Rodrigues