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“Quaresma e Campanha da Fraternidade” — por Pe. Anderson Messina Perini

Tempo litúrgico prepara cristãos para a Páscoa e propõe reflexão sobre fraternidade e justiça social

Por: Redação Fonte: Garça em Foco
12/02/2026 às 08h28
“Quaresma e Campanha da Fraternidade” — por Pe. Anderson Messina Perini

A Quaresma é um tempo litúrgico pertencente ao Ciclo Pascal em que se prepara para festejar a Páscoa cristã. O termo Quaresma vem do latim Quadragésima que significa quarenta. De fato, a Quaresma são quarenta dias de preparação à festa da Páscoa, centro das celebrações cristãs. É um tempo que tem por finalidade uma renovação espiritual e prepara os cristãos a renovar a sua fé mediante a temática do batismo e da penitência. 
Na Quarta-feira de Cinzas, início da Quaresma, as cinzas são postas em nossas cabeças para recordar o diálogo de Deus com Adão após o pecado: “Pois tu és pó, e ao pó tornarás” (Gn 3,19). Três verdades fundamentais as cinzas nos colocam: que somos nada, que somos pecadores e a morte. O homem não é nada, é um ser contingente que não poderia nem ter existido, não tem consistência alguma e que precisa reconhecer seu orgulho que o aniquila. As cinzas nos recordam que somos como pó que o vento leva e dispersa e que sem Deus nada somos. A Igreja convida os seus fiéis em sinal de humildade a curvarem suas cabeças e receberem as cinzas como forma de implorar o perdão a Deus e reconhecer que como pena do pecado retornaremos ao pó que somos. O gesto de cobrir-se com cinza tem o sentido de reconhecer a própria fragilidade e mortalidade, que precisa ser redimida pela misericórdia de Deus.
As leituras da Quarta-feira de Cinzas nos ajudam aprofundar a temática quaresmal. Na Primeira Leitura, o profeta Joel (2,12-18) exorta um convite de conversão: “Voltai para mim com todo o vosso coração” (v.12). Mesmo diante das dificuldades de seu tempo, o profeta insiste: Rasgai o coração, e não as vestes; voltai para o Senhor, vosso Deus (de todo o coração); ele é benigno e compassivo, paciente e misericordioso” (v.13). Hoje o Senhor nos dirige o mesmo apelo. A Quaresma é esse tempo oportuno. Não obstante nossas infidelidades, nossas fraquezas, nossas indecisões, Deus guiará certamente nossos passos para o encontro com ele. O Salmista, confiante na misericórdia do Senhor, suplica um coração novo e um espírito renovado para trilhar o caminho da Aliança (Sl 50 [51]).
A Segunda Leitura (2Cor 5,20-6,2), Paulo convida à Reconciliação: “Deixai-vos reconciliar com Deus” (v.20). O Apóstolo convida a viver a reconciliação oferecida por Cristo que assumiu o nosso pecado, as nossas fragilidades. Por isso insiste que “é agora o momento favorável”, o tempo da graça, que o Senhor nos proporciona, para cooperarmos com a sua obra redentora. Que não recebemos “em vão a graça de Deus”.
No Evangelho (Mt 6,1-6.16-18), Jesus lembra três práticas da religiosidade judaica, cuja prática é recomendada na Quaresma como exercícios penitenciais: A Oração para com Deus; a Esmola para com o Próximo; e o Jejum para consigo mesmo. São os três caminhos apontados por Cristo e pela Igreja que nos ajudam a viver a Quaresma.
1) A Esmola é um dever para com o próximo, sobretudo, os pobres e necessitados. Recordamos que a Sagrada Escritura ensina que a esmola “expia os pecados” (Eclo 3,33), mas quando realizada somente para agradar a Deus e para ajudar a quem necessita, e não para atrair vanglória. “Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita” (Mt 6,3). Hoje, mais do que esmola falamos de solidariedade, de partilha, de atenção aos necessitados, da prática da caridade. 
2) A Oração nos une a Deus e alcança a graça, mas deve brotar do íntimo de nosso coração. Não deve ser uma repetição monótona de fórmulas, nem mesmo uma lista de petições. Deve ser um Diálogo com Deus para entender e aceitar o seu projeto. Essa Oração é escuta e abertura do coração para nos dispor a acolher os planos de Deus em nós. Requer tempo e ambientes adequados.
3) O Jejum é um empenho de conversão pessoal, sacrifício agradável a Deus, que alcança indulgências, desde que a mortificação seja acompanhada da exclusão do orgulho. Só, assim, conclui Jesus, “o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa” (v.18), ou seja, receberá o perdão dos pecados e a graça sempre mais abundante. O jejum pregado por Jesus afasta-se do jejum externo dos fariseus e alinha-se mais com o jejum dos profetas. Não é expressão de luto e de dor, mas sim expressão de alegria pela presença do Reino de Deus no mundo. É interessante notar, que o Novo Testamento fala pouco do jejum. Paulo nem o menciona. Jesus fala disso em apenas duas ocasiões: uma para justificar seus discípulos que não jejuam; a outra no episódio de hoje, quando diz o espírito do verdadeiro jejum.
A Quaresma é o tempo favorável de conversão. Um momento preciso de deixarmos nos tomar pelo amor do crucificado para sermos transformados pelo poder de sua Ressurreição. O processo de conversão não é subjetivo, nem superficial, nem um simples ato público de fé. Ele se traduz em atitudes que mudam a nossa postura diante do outro e se transformam em gestos de misericórdia. 
No caminho de conversão quaresmal, a Igreja no Brasil nos apresenta a Campanha Da Fraternidade como itinerário de libertação. O tema do ano de 2026 é: “Fraternidade e moradia”, e o lema “Ele veio morar entre nós” (João 1,14). Inspirados pelo mistério da Encarnação, que revela a proximidade amorosa de Deus com a humanidade, voltamos nosso olhar para a realidade dramática da moradia no Brasil. A falta de um teto digno não é apenas uma carência material, mas expressão concreta da exclusão social que nega a dignidade de filhos e filhas de Deus. Como afirmou São João Paulo II, a crise da habitação representa “uma das questões sociais mais graves da atualidade” pois condensa deficiências econômicas, culturais e humanas profundas. O Objetivo Geral é promover, a partir da Boa-Nova do Reino de Deus e em espírito de conversão quaresmal, a moradia digna como prioridade e direito, junto aos demais bens e serviços essenciais a toda a população. Que as cinzas, que recebemos no início da Quaresma com devoção na fronte, sejam um sinal externo de nossa adesão sincera e ardorosa dessa campanha.


Pe. Anderson Messina Perini
Administrador Paroquial da Paróquia Jesus Bom Pastor de Santo André

 

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