A Liturgia da Palavra deste 2º Domingo do Advento nos convida a nos despir dos valores efêmeros e egoístas que muitas vezes nos fascinam, para dar lugar em nós aos valores do Reino de Deus. É necessário para entrarmos no Reino a Conversão. As Leituras bíblicas apresentam duas figuras típicas do Advento: Isaías e João Batista.
Na Primeira Leitura (Is 11,1-10), Isaías apresenta um Enviado de Deus, o descendente de Davi, com a missão de construir um Reino de Justiça e Paz. É uma das maiores profecias do Antigo Testamento referentes ao Messias, com que o profeta reaviva a esperança do seu povo, diante das ameaças do imperialismo dos assírios.
O Poema dá as características do Messias. Primeiro, será descendente de Davi, pois Jessé é pai de Davi: “Naqueles dias, nascerá uma haste do tronco de Jessé e, a partir da raiz, surgirá o rebento de uma flor” (v.1). A seguir, diz que ele será animado pelo Espírito de Deus, como na Criação: “Sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e discernimento, espírito de conselho e fortaleza, espírito de ciência e temor de Deus” (de piedade) (v.2). É esta a origem da nossa lista dos sete dons do Espírito Santo. Por fim, será portador da justiça e da paz: “Trará justiça para os humildes” (v.4). Haverá a reconciliação da Criação: voltará a harmonia perdida entre o ser humano e a natureza, entre os animais selvagens e domésticos. A Criação retornará à comunhão entre as criaturas e Criador. Assim, pacificada, retornará como em um paraíso.
Para os cristãos, esperando o Natal, confessem e creem que Jesus é o “Messias” que veio tornar realidade o sonho do profeta. Ele iniciou esse “Reino” novo de justiça, de harmonia, de paz sem fim. Cheio do Espírito de Deus, ele passou pelo mundo convidando a todos a se tornarem “filhos de Deus” e a viverem no amor e na partilha. Mas a profecia está longe de sua completa realização. O Reino novo trazido por Jesus só poderá se estabelecer a partir de nossa conversão pessoal, familiar e comunitária.
Na Segunda Leitura (Rm 15,4-9), Paulo retoma o quadro da salvação universal proposto por Isaías. Diz o Apóstolo que Jesus veio para salvar a toda humanidade. Em primeiro lugar, ele desenvolveu a sua obra ao povo hebreu, de quem se fez servo (v.8), para demonstrar fidelidade de Deus às promessas feitas aos Patriarcas. Porém, não rejeitou os que eram de outros povos, mas acolheu-os, a fim de que neles se manifestasse a sua imensa misericórdia (v.9). Ele o reforça no mandamento do amor mútuo: “acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo vos acolheu, para a glória de Deus” (v.7). O fundamento das relações boas que as pessoas devem ter entre si é o exemplo de Cristo, que acolhe e salva a todos. Amor, concórdia, paz anunciados pelos profetas, como prerrogativas da era messiânica, são, realmente, o centro da mensagem de Jesus. No entanto, depois de tantos séculos de cristianismo, a humanidade ainda está atormentada por ódios, discórdias, guerras e rivalidades entre irmãos. É necessário conversão!
No Evangelho (Mt 3,1-12), João Batista anuncia que esse Reino está próximo, mas para que se torne realidade precisa converter-se. A personalidade do profeta é uma figura impressionante, que fascina o povo. Tem um estilo de vida austera: no vestir, no comer, no falar, no morar. Vive no Deserto, lugar das privações, do despojamento, mas também lugar tradicional dos encontros entre Deus e Israel. O Deserto, lugar de purificação do povo de Deus durante a entrada a Terra Prometida, é o lugar oportuno neste advento irmos ao deserto para purificarmos do pecado e sermos dignos do Reino dos Céus. Ele é a Voz que clama, pois a Palavra proclamada é Cristo! Assim, sejamos também a Voz para anunciar Cristo. Sua Mensagem é um Apelo à Conversão: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (v.2). “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas”. (v.3).
A Reação ao Anúncio se diverge em dois grupos. O Povo simples reconhece seus erros e pede o Batismo. Os Fariseus e Saduceus vão ao encontro de João por curiosidade apenas, e são desmascarados: “Raça de cobras venenosas... Produzi frutos que provem a vossa conversão. Não penseis que basta dizer: ‘Abraão é nosso pai’” (v.7-9).
O Batismo de João consistia na imersão na água do rio Jordão para as pessoas que aderiam a esse apelo. Significava o arrependimento, o perdão dos pecados e a agregação ao povo fiel. Mas ele avisa, que aquele que vem depois dele: “Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (v.11). Portanto, o Batismo de Jesus vai muito além do batismo de João. Confere, a quem o recebe, a vida de Deus e torna-o filho de Deus; incorpora-o à Igreja e torna-o participante da sua missão no mundo. É um quadro de vida completamente novo, uma relação de filiação com Deus e de fraternidade com Jesus e com todos os outros batizados. É um Sacramento.
A Voz de João Batista continua convidando à conversão. Não é possível acolher “aquele que vem” se o nosso coração estiver cheio de egoísmo, de orgulho, de autossuficiência, de preocupação com os bens materiais. Se quisermos celebrar a vinda do Senhor e participar do seu Reino, devemos preparar o caminho, mudar o nosso coração. Nesse itinerário, não há espaço para a hipocrisia. Não bastam as aparências, apenas dizer que somos cristãos porque recebemos o Batismo. A Conversão deve ser comprovada pela ação.
Os Frutos de conversão comprovam a autenticidade da nossa conversão. Não bastam alguns sentimentos religiosos, ou algumas práticas piedosas. Precisamos apresentar frutos de conversão, que é paz, fraternidade, justiça, misericórdia e caridade. Quais os caminhos tortos, que devemos endireitar? Quais os frutos de conversão que Deus está esperando de nós, neste Advento, em preparação ao Natal? Estamos convencidos de que, se não dermos esse passo, nunca será Natal em nós, nem mesmo no dia 25 de dezembro? Deus espera que tenhamos a coragem de dar esse passo. João Batista ainda anuncia: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”.
Pe. Anderson Messina Perini
Administrador Paroquial da Paróquia Jesus Bom Pastor de Santo André