
No 5º Domingo de Páscoa, começamos a refletir o Sermão de Jesus na Última Ceia. No Evangelho dos domingos passados, vimos a preocupação de Jesus em formar uma comunidade que continuasse a sua obra. Hoje, essa comunidade de Cristo é a Igreja. Mas o que é mesmo a Igreja, a comunidade cristã? As leituras bíblicas de hoje nos dão uma resposta a uma grande questão: qual o sentido da nossa vida e da vida de Igreja? Para os cristãos, o sentido da vida e da Igreja encontra-se em Jesus de Nazaré. Nossa reflexão tem três pontos principais sobre o que é a Igreja. Primeiro, povo organizado: comunidade se organiza para continuar o projeto de Deus. Depois, a Igreja é a morada de Deus: a comunidade é o sinal e sacramento da presença de Deus. E, por fim, a Igreja, povo peregrino, tendo como guia Jesus, o caminho, a verdade e a vida.
A Primeira Leitura (At 6,1-7) mostra o primeiro conflito na comunidade de Jerusalém e como resolveram o problema. Historicamente, há problemas no serviço da caridade aos pobres: as viúvas gregas não eram atendidas; a comunidade está crescendo enormemente; e há diversidade cultural entre gregos e judeus. O atendimento aos pobres era algo essencial à Igreja – cumprimento das profecias – “Deus, Pai dos órfãos, protetor das viúvas, assim é Deus em sua morada santa” (Sl 88, 6-7). Os apóstolos tomam consciência da questão e percebem que não podem fazer tudo. Nem mesmo hoje o padre na comunidade. Eles são líderes e têm o dever de levar adiante o projeto de Deus. A proposta foi o surgimento do diaconato: pessoas de boa fama, repletas do Espírito de Deus e de sabedoria.
O episódio nos mostra que a Igreja é, primeiro, uma comunidade que sempre teve, tem e terá conflitos, mas deve enfrentar as situações novas e difíceis com sentido eclesial de unidade na pluralidade. Outro ponto: a Igreja é uma comunidade hierárquica. Ela recorre aos apóstolos, reza invocando o Espírito Santo e busca uma solução para o problema. Partilham as responsabilidades. A comunidade escolhe e os apóstolos confirmam impondo as mãos. E, por fim, uma comunidade de servidores. Escolhe sete homens “cheios do Espírito Santo” para o serviço das mesas. Assim, a Igreja Apostólica, guiada pelo Espírito de Cristo Ressuscitado, vai desenvolvendo os ministérios para realizar a sua tríplice missão: o serviço da Palavra, do culto e da caridade.
Na Segunda Leitura (1Pd 2,4-9), Pedro compara a Igreja a um edifício espiritual, no qual Cristo é a “pedra angular” e os cristãos, “pedras vivas”. O antigo templo de Jerusalém, construído com pedras materiais, será substituído por esse novo templo formado de pedras vivas. Jesus Ressuscitado é o fundamento da evangelização, pedra fundamental da Igreja. A Igreja é uma comunidade de pedras vivas, templo onde habita Deus, colaboradores para continuar o projeto de Deus. Uma comunidade de sacerdotes santos, tendo como único sacrifício a comunhão com Jesus. A raça escolhida, pois foram escolhidos por Cristo. Uma nação santa, santificada por Cristo e impulsionada pelo Espírito. O povo que Jesus conquistou pelo seu sacrifício na cruz, seu mistério pascal.
No Evangelho (Jo 14,1-12), a Igreja aparece como um povo peregrino que caminha para Deus, guiado por Cristo, que é o caminho, a verdade e a vida. Inicia-se o discurso da última ceia. Esse discurso está envolto no desânimo dos apóstolos, na traição de Judas e na negação de Pedro. Conseguirá a Igreja manter-se fiel? A resposta de Jesus é manter a fé, acreditar e confiar nele. E teremos a intimidade e comunhão com Deus, pois Jesus é o caminho, a verdade e a vida.
Ele é o caminho porque é o único “mediador” da salvação. Outrora, o caminho era a observância da Lei; agora é a pessoa de Cristo. É um caminho de mão dupla, pois Jesus veio do Pai e retorna ao Pai: veio para manifestar seu projeto de amor e retorna abrindo as portas do céu.
É a verdade porque é o “revelador” do projeto de Deus. A verdade não é algo intelectual, nem filosofia. A verdade é a fidelidade plena à revelação do projeto de Deus, manifestada pela vida de Cristo. “Se vocês guardam minhas palavras, conhecerão a verdade e ela lhes libertará” (Jo 8,31s). Pois Cristo era a Palavra, e ela se fez carne e morada entre nós. A verdade não é mais o cumprimento da Lei, mas fidelidade a Cristo e ao seu projeto.
É a vida porque é o “salvador”, que nos dá a vida de Deus que ele possui. E a Palavra de Deus era a vida e era luz para os homens (Jo 1,4). A vida em plenitude recebemos de Jesus, que nos deu sua vida para termos em abundância. Não é a Lei e seu cumprimento que nos darão a vida. Jesus garante que quem crê nele tem a vida eterna. Por isso: “Ninguém vai ao Pai senão por mim” (v.6).
Resumindo, a Igreja é um povo organizado, em que os membros têm diferentes tarefas, tais como o serviço da caridade, da Palavra e do culto. Um edifício espiritual, em que Cristo é a pedra fundamental e nós, pedras vivas. Um povo peregrino que caminha para Deus sob a guia de Cristo, que é o caminho, a verdade e a vida.
Que casa é esta, onde Jesus preparou muitas moradas? O Paraíso, onde teremos antecipadamente uma cadeira numerada? Não. A casa do Pai é a comunidade dos seguidores de Jesus, a Igreja, onde Cristo é a “pedra angular” e nós devemos ser “pedras vivas”. É a comunidade cristã, onde há muitos lugares, muitos serviços, muitas funções a serem desempenhadas. Ainda hoje há muitas moradas nessa casa do Pai. E muitos lugares de trabalho preparados por Jesus continuam desocupados. E “nessa casa” há vagas! Por que será? Desinteresse? Falta de oportunidade?
Cristo continua presente ainda hoje através da sua Igreja. Nela, somos, de fato, “pedras vivas”, atuantes, desempenhando nossa função? Somos uma comunidade organizada, que partilha responsabilidades, que procura ser uma resposta atual ao ser humano de hoje: com um conselho que planeja, revê, anima e dá oportunidade a todos, com pastorais atuantes, com movimentos que vivem uma espiritualidade própria, mas em comunhão com a comunidade; e com ministérios que animam os diversos setores.
Cristo garante: “Estou convosco, sou o caminho, a verdade e a vida”. Caminho que devemos percorrer com os irmãos. Verdade que devemos proclamar ao mundo carente da luz divina. E vida que devemos defender e cuidar. Que tipo de Igreja estou ajudando a construir na minha comunidade? Ou fico apenas olhando de longe, criticando e não assumindo o meu lugar? Sejamos pedras vivas e atuantes neste edifício espiritual que é a Igreja.
Pe. Anderson Messina Perini
Administrador Paroquial da Paróquia Jesus Bom Pastor de Santo André