
A Liturgia deste 4º Domingo da Quaresma, Domingo da Alegria, continua a catequese batismal da Quaresma. O tema central é “Jesus Luz do Mundo” e, por consequência, o cristão deve ser “filho da luz”. No Batismo, somos iluminados pela Luz de Cristo, acendendo nossas velas da fé na chama do Círio Pascal, símbolo de Cristo Ressuscitado, para que seguindo o Senhor, Luz do Mundo, não andarmos mais nas trevas do pecado, mas na Luz da Vida. As Leituras nos lembram a Luz da fé recebida no Batismo com a vela acesa na mão, e também nos exortam a “viver na Luz”.
Na Primeira Leitura (1Sm 16,1b.6-7.10-13a), Davi é escolhido entre os últimos para ser ungido como rei de Israel. A Unção de Davi, escolha e eleição pessoal de Deus, é figura profética da nossa Unção Batismal. Não fomos escolhidos por Deus para fazer parte da Igreja pelos nossos méritos. Observa-se que Deus não vê as aparências, mas o coração. Outrora, Samuel havia ungido Saul como Rei. Este era o primogênito e tinha beleza e força, mas Israel sucumbiu por sua infidelidade. Deus agora escolhe o último de oito irmãos, o menor, aquele que era empregado e servidor. Assim, com a unção de Davi aprendemos que somos ungidos no Batismo para o serviço, para a prática da justiça e da caridade, sendo pequenos e servindo os últimos.
Na Segunda Leitura (Ef 5,8-14), Paulo salienta a necessidade de viver como filhos da “Luz”. No Batismo, recebemos a Luz de Cristo e fomos convidados a ser Luz e caminhar sempre no caminho da Luz. “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor” (v.8). Por meio do Sacramento, passa o ser humano das trevas do pecado à luz da vida em Cristo, da cegueira espiritual ao conhecimento de Deus, mediante a fé, que ilumina toda a sua vida, orientando a novos caminhos. Disso, como consequência: “Vivei como filhos da luz. E o fruto da luz chama-se: bondade, justiça, verdade” (v.8-9). A conduta cristã deve levar ao testemunho. Por isso: “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá” (v.14). Essa exortação que fazia parte de um hino batismal para convidar os batizados a se levantarem do sono do pecado e ser iluminados pela Luz de Cristo, continua atual para nós hoje. Ser cristão é uma incessante e progressiva purificação de toda sombra do pecado, a fim de abrir-se mais à Luz de Cristo. E ser iluminados por Cristo consiste em ser “Luz do Mundo”, somos chamados a resplandecer com nosso testemunho a Luz que ilumina a nossa vida.
No Evangelho (Jo 9,1-41), Jesus unge um cego com “barro”, revelando-se como a “Luz do Mundo”, que veio libertar os homens das trevas. João costuma tomar um fato da vida de Jesus como ponto de partida para desenvolver um tema básico da mensagem cristã. A cura do cego de nascença descreve o processo de fé de uma pessoa, que vai passando das trevas da cegueira, para a luz da visão, e desta para a Luz da fé em Cristo. Esse texto é uma Catequese sobre a fé, num contexto batismal.
O “Cego” é símbolo de toda humanidade que renascem pela fé, acolhendo a Jesus no Batismo e deixando-se conduzir pela sua palavra. É interessante perceber que a iniciativa é de Jesus, com a finalidade bem precisa: “É necessário que nós realizemos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia. Vem a noite, em que ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo” (vv.4-5). O dia luminoso, a luz que dissipa as trevas do mundo é Jesus, e para provar a humanidade, eis o milagre!
Tudo começa com uma pergunta dos discípulos a Jesus: “Por que esse homem nasceu cego?” Seria castigo de Deus? Quem pecou? Jesus responde: “Nem ele, nem seus Pais pecaram”. E continua a sua resposta, passando das palavras aos atos. Na cura, para dar a “Luz” ao cego, Jesus usa um método estranho: com saliva faz “barro” na terra, unge com esse barro os olhos do cego e manda lavar-se na piscina de Siloé. A cura não é imediata: requer a cooperação do enfermo. A disponibilidade do cego sublinha a sua adesão à proposta de Jesus. O banho na piscina de Siloé, que significa “enviado”, é uma alusão à “Água de Jesus”. Lembra também a água do Batismo para quem quiser sair das trevas para viver na Luz, como Filhos de Deus.
Depois, o Evangelho coloca em cena vários personagens. Primeiro, os vizinhos percebem o dom da vida que vem de Jesus, mas não dão o passo definitivo para ter acesso à Luz. Representam os que percebem a proposta libertadora de Jesus, mas não estão dispostos a sair da sua vidinha, para ir ao encontro da “Luz”. Depois, os fariseus conhecem a “Luz", mas se recusam em aceitá-la. Acusam-no de transgredir a lei do sábado e expulsam o cego da sinagoga. Representam aqueles que conhecem a novidade de Jesus, mas não estão dispostos a acolhê-lo e até hostilizam os seus seguidores. A seguir, os pais constatam o fato, mas evitam comprometer-se. É a atitude de medo dos que não tem coragem de passar das trevas para a Luz. Preferem a segurança da ordem estabelecida, do que correr riscos. Por fim, o próprio cego é questionado pelas autoridades sobre a origem de Jesus. E ele, como “pessoa iluminada”, mostra-se livre, diz o que pensa; é corajoso, não se intimida; é sincero, não renuncia à verdade; e suporta a violência, pois é expulso da sinagoga. Jesus reaparece no fim: vai ao seu encontro, inicia um diálogo, que culmina com um belo ato de fé do cego: “Eu creio, Senhor”.
A Transformação do cego é progressiva. Antes de se encontrar com Jesus, é uma pessoa prisioneira das “trevas”, dependente e limitado. “Não sabe quem o curou”. Depois, a “Luz” vai brilhando aos poucos na sua vida. Forçado pelos dirigentes a renegar a “Luz” e a liberdade recebida, recusa-se a regressar à escravidão. Finalmente, encontrando-se com Jesus, que lhe pergunta: “Acreditas no Filho do Homem?”, manifesta sua adesão total: “Eu creio, Senhor”. Prostra-se diante de Jesus e o adora.
O Caminho de fé do cego é um itinerário para todo cristão. O Encontro com Jesus, a Adesão à “Luz” e um progressivo amadurecimento no Conhecimento de Cristo. Esse caminho desemboca na adesão total a Jesus, ao ser lavado pelas águas batismais.
O Prefácio sintetiza a mensagem desse domingo: “Pelo mistério da encarnação, Jesus conduziu à luz da fé a humanidade que caminhava nas trevas, e elevou à dignidade de filhos e filhas os nascidos na escravidão do pecado, fazendo-os renascer das águas do Batismo”.
Nesta Quaresma, somos convidados a viver a experiência catecumenal, renovando o nosso Batismo, mediante o Sacramento da Penitência. No Batismo, os nossos olhos se abriram a Cristo, se dissiparam as trevas e fomos ungidos pelo Espírito para servir a Deus e aos irmãos. Quanto mais buscamos Jesus como “Luz” mais nossa vida terá sentido. Como o cego, renovemos a nossa fé, cantando: Deixa a luz do céu entrar!
Pe. Anderson Messina Perini
Administrador Paroquial da Paróquia Jesus Bom Pastor de Santo André