
O que precisa acontecer para te tirar da zona de conforto?
Aquele cantinho que nos inspira confiança e familiaridade, nem sempre é bom, quase sempre é motivo de choros, mágoas e muita revolta, mas é algo certo, e com a velha filosofia de que “poderia ser pior” vamos ficando... Vemos o tempo passar na mesma casa, no mesmo emprego, com as mesmas pessoas, absorvendo a toxidade do ambiente, fingindo sorrisos e matando sonhos...
Quem nunca viveu anos sem tomar decisões, preso a uma falsa ideia de vida, sem entender que basta quebrar as algemas velhas e rotas e a mudança pode estar em um fechar de portas? Mudar é evoluir. Sem as decisões que nos obriguem a crescer espiritualmente, deixamos a inércia espiritual nos absorver de tal forma, que perdemos a vontade de existir...
E antes que possa parecer uma crítica, saiba que está longe de ser, é apenas uma constatação, pois que qualquer um de nós neste mundo, em algum momento, já decidiu por ignorar e seguir vivendo em paz; só mudamos quando chegamos ao limite, quando a terra chacoalha e nos força a levantar, quando literalmente rompe a barragem da nossa zona de conforto...
E se a sociedade é a extensão de nós mesmos, o que precisa acontecer para a sociedade evoluir, para que o absurdo seja percebido e deixe de ser normal e aceitável? Tragédias naturais, guerras, pandemias?
Somos tão imaturos como seres humanos, que ainda precisamos de mártires para que uma situação nos cause tamanho asco que levantemos do sofá para gritar na calçada; a evolução da nossa sociedade só acontece porque eventualmente alguém serve de sacrifício; seja alguém que foi morto por racismo, seja uma criança que sofreu abuso, uma esposa que foi morta, ou um cão assassinado por pura diversão...
Sim, o assunto do momento, o cão Orelha que foi brutalmente assassinado por adolescentes em Santa Catarina, está chegando em outros países, fechando fronteiras para os criminosos, unindo pessoas em uma única voz; o grito de justiça pelo ato de tamanha covardia. Mas por que alguns crimes são tão falados e outros passam batido? Esse crime não é o único, se procurar em sites dedicados a crueldade animal, vai ver que diariamente há notícias que reviram o estômago.
Tem que haver um tempero especial para que algo caia nas graças da sociedade e torne um caso de crueldade contra animais, em um acontecimento que une a todos; o que as pessoas comuns, classe média, odeiam? Os “filhinhos de papai e mamãe” que sem esforço algum já nascem com todas as facilidades que a maioria nem em uma vida inteira de trabalho terá; que esnobam as leis sociais, crentes que o dinheiro pode tudo... e pode! Nós sabemos que pode! Mas não é isso que queremos ver, e daí nasce a revolta; e a vontade de esfregar na cara desses fedelhos um corretivo a altura do crime, chega a ser irresistível.
A maioria de nós quer realmente justiça pelo Orelha, mas há uma parcela imensa de pessoas querendo ver cair o império, ver os príncipes sem trono, que a justiça seja feita, para que possamos dormir em paz, mas não pelo cãozinho, e sim em saber que o dinheiro não salvou ninguém, que ao menos nesse caso, ricos e pobres somos todos iguais.
Para mim, há muito mais que ricos passando a mão na cabeça de filhos bandidos, há Leis que protegem bandidos, isso mesmo! Quando as Leis brasileiras, enquadram crianças e marmanjos no mesmo estatuto, alguma coisa “dará ruim”; são tratados feitos criancinhas, cheios de direitos... Talvez falte os deveres, o de trabalhar por exemplo...
Mas, independentemente dos motivos que unem a todos em busca de justiça, a verdade é que esses casos são como despertadores, nos acordam para realidades ocultas; mais um mártir inocente para nossa coleção, para que a sociedade crie novas Leis, para que sigamos evoluindo e saindo da zona de conforto...
Quem sabe em algum momento esse despertar se estenda aos matadouros, que cause tamanha inquietação aos olhares despertos que este mudará a forma de ver a normalidade do consumo de carnes; que a sociedade perceba que as vacas, mortas aos milhares para servir de alimento, não possuem diferença alguma com o cãozinho Orelha; enganadas por seus carrascos, seguindo obedientes até o fim, mesmo que seu coração inocente lhe alerte do perigo, ela segue... E se fosse um cão, se fosse o Orelha, ela talvez até abanasse o rabo, crente que estava de frente para amigos...
Vanderli do Carmo Rodrigues
Para mais informações sobre animais, acesse os sites:
olharanimal.org
anda.jor.br
Institutoninarosa.org.br