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“Essa cruz não é minha!” — por Vanderli do Carmo Rodrigues

Texto convida à reflexão sobre empatia, responsabilidade e o peso das escolhas ao longo da vida

Por: Redação Fonte: Garça em Foco
01/04/2026 às 07h27
“Essa cruz não é minha!” — por Vanderli do Carmo Rodrigues

Quem nunca se deparou com uma situação em que pensou: “o que eu estou fazendo aqui?”. Aquela sensação de estar no lugar e na hora errada; na verdade – desculpem-me o fatalismo do que vou dizer – eu acredito que estamos sempre no lugar onde deveríamos estar e na hora em que deveríamos estar, e apesar da nossa prepotência em crermos donos do nosso destino, dificilmente o que vivemos deveria ser vivido por outra pessoa, mas isso não quer dizer que o fardo que nos pertence, não possa ser dividido...
O maior azarado neste sentido, aquele que ficou marcado como o expectador que pagou pela sua curiosidade, conta milênios...
“Por que eu não fui direto para casa?” - talvez ele tenha pensado, após enfiar sua cabeça na multidão e dar uma espiada na movimentação daquela rua. Antes que entendesse qual era o crime hediondo que aquele homem machucado e cambaleante cometera, já estava sendo escolhido e forçado pelos soldados romanos a carregar aquela cruz de ignomínia. 
Simão vinha do campo, talvez estivesse cansado também, talvez tivesse uma cruz tão pesada quanto aquela que agora jazia em seus ombros, dando um pouco de descanso ao homem que seguia sendo açoitado e humilhado.
Todos nós já ouvimos falar em Simão, o Cirineu, o homem que ficou marcado na história como um simples expectador azarado – ou abençoado, isso vai depender exclusivamente de quem interpreta; o homem que se viu participando de uma terrível encenação, uma encenação que mudou o rumo da nossa história.
Jesus disse que deveríamos tomar a nossa cruz e segui-lo... Mas não devemos ignorar a cruz do nosso irmão, e a participação de Simão talvez tenha perpetuado essa mensagem ao longo dos séculos. Se até Jesus precisou de um “refresco”, imagine nós, meros mortais...
Talvez Jesus não se referisse aos carmas da vida – suportar aquele parente chato, sogra ou o chefe insuportável – e sim em segui-lo no sentido literal, praticando amor e compaixão a tudo e todos. Então, suportar as “malas sem alça” entram nessa equação, afinal, abraçar a própria cruz e segui-lo é literalmente carregar os fardos da vida, ou as cruzes. Ser responsável, tolerante e resignado... Se você tem um carma, uma missão ou um ideal neste mundo, então você tem uma cruz...
A verdade é que aquilo que nos faz levantar da cama todos os dias pode ser a mesma coisa que nos faz querer voltar para ela – e cobrir a cabeça – esquecendo-se do mundo ou da cruz que somos forçados a suportar em ombros muitas vezes, pequenos demais para tanto peso.
Cada um com sua cruz... Carregue e cumpra seu dever, mas carregue-a sozinho... Ninguém se importa! Esse dar de ombros, já fez muita cruz ser abandonada ao longo do caminho... pois que nem sempre a cruz é apenas nossa, muitas vezes ela pertence a coletividade, mas o que vemos são pessoas carregando o peso do mundo nas costas enquanto a maioria segue alheia, apreciando a paisagem.
Você pode ignorar sua cruz, ou deixar para que outro a carregue, você pode até largar sua cruz à beira da estrada, sim, você pode! Você tem esse direito, a vida não é tão fatalista assim, mas não se esqueça de que você também tem deveres, e vai ter que se voltar para seu fardo em algum momento e então o fatalismo te acerta. Em cheio!
Ah, determinismo e fatalismo, que nada! Conversa fiada, eu sou dono do meu destino!
Vamos voltar para a encenação macabra onde Simão se deu mal, e passar novamente pelas ruas cheias de vozes, gritos e chibatadas no ar. Se não quiser, não precisa olhar o homem sendo castigado, olhe em outra direção, bem lá na frente, longe dos olhares... Talvez até vejamos, correndo sorrateiramente dali, fugindo dos soldados romanos, aquele pescador que renegou três vezes o pobre homem que Simão ajudou no seu martírio. 
Pedro fugiu e se livrou da sua cruz naquele momento, mas... Aquela cruz que ele renegou pesou tanto em seus ombros, que décadas depois lá estava ele implorando para ser crucificado de cabeça para baixo...
A Sexta feira santa é sempre um dia de reflexão para mim, é como se os dois mil anos que nos separam daquele dia, não existissem. Penso em Jesus, penso na sua mensagem distorcida pelos homens, já tão moldada à nossa vida mundana; uma vida que priorizamos o bem estar acima de tudo, que ignoramos a pesada cruz que muitos carregam, na ilusão se sermos superiores, de que o Sol nasce e se põe apenas por nós...
Sejamos como o Cirineu, que apesar de não ter ideia do que acontecia, aceitou carregar por algumas ruas, a pesada cruz que não lhe pertencia. Muitas vezes basta um elogio, um gesto de amizade, um olhar de compaixão; em alguns momentos é só isso que alguém precisa para levantar da cama e abraçar sua cruz para mais um dia de luta...


Vanderli do Carmo Rodrigues

 

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