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“Essência” — por Vanderli do Carmo Rodrigues

Entre a maternidade e o amor pelos animais, uma jornada de identidade e verdade.

Por: Redação Fonte: Garça em Foco
27/11/2025 às 10h36 Atualizada em 27/11/2025 às 14h15
“Essência” — por Vanderli do Carmo Rodrigues

Aqui vai um desabafo...
A maternidade chegou tarde para mim... Vinte anos entre o sonho de ser mãe, a negativa da vida e a minha aceitação. Nesses vintes anos fui lapidando em mim, o respeito e amor pelos animais; aprendi a entende-los só de olhar, aprendi a aceitá-los e acima de tudo aprendi a me colocar no lugar de cada um deles, e nesse momento parei de “comê-los”.
Claro que não foi tão simples assim, toda renúncia vem cheia de provações, tristeza e muita, muita incompreensão. É sobre isso que venho falar.
Em algum momento da sua vida, já parou para pensar no que é de fato? Como você se vê, como as pessoas te veem, ou como você tenta ser aquilo que esperam de você? Não é incomum pessoas nos dizendo o que devemos fazer, ou mesmo o que sentir, tentando nos enquadrar naquilo que elas têm como certo ou normal, e o mais estranho é que muitas vezes aceitamos... Viramos aquilo que outros querem, assumimos uma imagem pronta...
Talvez nem nós mesmos saibamos ao certo o que somos, vivemos adquirindo costumes, tentando ser aceitos, sem vasculhar nossa própria essência e viver a partir disso. No fundo, temos medo... Medo de soar estranho e afastar aqueles que fazem parte de nossas vidas, medo dos julgamentos e dos estereótipos que nascerão disso, e com isso usamos máscaras, dezenas delas... Agradamos esse, sorrimos para aquele, ignoramos os comentários daquele outro, relevamos muitas coisas para seguir vivendo e com isso não vivemos o nosso EU. Na verdade, assumir nossa essência exige muita coragem, ser nós mesmos exige um grande e decisivo passo...
E voltando ao meu desabafo: Certa vez, alguém me disse que quando eu tivesse filhos eu veria que o meu amor pelos animais mudaria, e eu deixaria de sentir o que sinto. Argumentei que eu era assim, e a pessoa alegou que eu estava carente, que amar animais era apenas um meio de preencher essa lacuna que a falta de filhos deixara em mim... quando eu engravidei, muita coisa aconteceu, dentro e fora de mim; tive um aborto espontâneo, culparam meus gatos, aconselharam a me livrar deles caso eu quisesse filhos... Sofri e meditei calada...
Quando engravidei novamente, o medo me tomou; e se as pessoas estivessem certas? E se eu tivesse que escolher entre animais e filhos? Eu tinha pavor de novo aborto, mas parece que Deus tinha planos para mim e foi nesse momento que os animais de rua começaram a chegar; gatos e cães que apareciam no meu portão, como se uma mão invisível, os direcionassem para lá, como se Deus me dissesse: ¬–Ei! Não tenha medo! Eles precisam de você...
Como escolher? Eu nunca pude... Pedi a Jesus que me protegesse e fiz o que os animais esperavam de mim, abri o portão e meu coração para os que chegavam...
Mas nos últimos dias da gestação o medo voltou, mas dessa vez era um medo diferente... medo de não enxergar mais nos animais toda a beleza e grandiosidade que me eram comuns, medo de ficar como muitas mães, que abandonam os seus bichinhos por conta da maternidade... não! Eu não podia ser igual, eu não queria... 
Porém, no hospital, após o nascimento do Miguel, percebi que nada tinha mudado, que meu pensamento e preocupação ainda eram meus bichinhos, em casa, sem minha presença... 
E adivinha? Descobri que meu amor por eles é inabalável, e que o amor de mãe existe sim, mas eu já conhecia... Amar um filho é a coisa mais fácil que existe, chega ser uma obrigação biológica. Difícil é amar um ser que não saiu de você, que não se parece com você, que você não vai poder exibir para as amigas, que não cursará uma faculdade ou terá uma carreira brilhante, garantindo o futuro dele e quem sabe o seu também...  Apesar de ser esse amor de mãe que constrói o mundo, não há mérito, pois, esse amor não é característica obrigatória nas mães, pois se fosse, não veríamos tantas mães jogando seus bebês em cestos de lixo, ou fazendo coisas piores com eles; esse sentimento dito “amor de mãe” existe sim, mas qualquer um pode senti-lo: pai, irmãos, tios, amigos... 
Agora já estão dizendo que preciso ser avó, que somente quando segurar um neto nos braços, entenderei o que é amar...
Talvez eu não saiba realmente o que é amor, talvez eu precise de netos e bisnetos, mas eu não penso que o amor pelos animais possa ser comparado com qualquer coisa que eu já tenha sentido, ele é único e imensurável, posso doar minha vida por eles, doar tudo o que sou para que os animais deixem de sofrer, isso eu tenho certeza... 
Eu ainda medito muito naquilo que sou, em alguns momentos não creio ser a pessoa boa que batalho para ser; quero mandar alguns às favas, bloquear outros, apagar da memória outros tantos, e isso me confunde... Conviver com pessoas nos coloca a prova, algumas não são fáceis, pensam ter as respostas para tudo, gostam de aconselhar, gostam de agir feito “gente”...
Dias atrás, meditando nisso, sofrendo, pois que tenho me decepcionado muito com as pessoas com quem convivo, vi um passarinho pousar próximo da minha janela, ele ficou me olhando e tirou um sorriso sincero do meu rosto, então pensei: é essa minha essência, é isso que sou... conquistei esse direito, paguei caro por ele... Amar os animais é leve e sem imposições, não preciso medir o que falo e não preciso engolir o que ouço, eu apenas me deslumbro com a beleza e inocência de criaturas incríveis... 
Viva sua essência, aquilo que não consegue passar um único dia sem pensar e se deslumbrar, seja bom para o mundo e sincero consigo mesmo. Onde reside o amor, reside também a essência do Criador!

Vanderli do Carmo Rodrigues

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