
Não é segredo que amamos uma tragédia, que se quiser viralizar em redes sociais é preciso ter uma dose de mistério, horror e alguns litros de sangue; e se isso causa estranheza, saiba que até as boas pessoas tem essa tendência a apreciar uma carnificina. Talvez seja apenas pela excitação da adrenalina que essas notícias nos provocam, ou mesmo para reafirmar o bem que há em nós, pois que nos comparando com a monstruosidade, sentimo-nos menos monstros, podemos julgar e nos horrorizar...
Saber sobre crimes, conhecer a vida de quem os pratica e entender como se originou o mal, chega a ser irresistível, e pode ser explicado sabiamente pela ciência da mente; analisando que precisamos sobreviver, o fascínio que sentimos pelas tragédias é justificável. É como se estudássemos uma forma de escapar ou lidar com a situação caso ela se apresente para nós. Mas, simplificando, eu penso que gostamos mesmo é de saber que “antes ele do que eu”, e só sabe do morto quem ainda vive... então... Isso fala muito do nosso ego como seres humanos.
Mas, cada pessoa é única e fica impossível entender os motivos que direcionam cada um de nós para essas tragédias... Eu gosto de filmes de terror alienígena e pós apocalíptico, talvez seja pelo controle, já que estou segura no meu sofá e posso me safar do pavor apenas apertando um botão...
A verdade simples e direta é que amamos uma desgraça e temos uma quedinha pelos anti-heróis, queremos conhecer suas histórias cheias de brigas e fatos incríveis, afinal os vilões são cheios de histórias interessantes para contar, fazem aquilo que nossa moral não permite, pois que não é muito legal encarnar um “Darth Vader” na vida real... apesar da empatia de eventualmente desejarmos torcer pescoços apenas usando o poder mental... Não se culpe por desejar isso, faz parte de nossa condição humana também...
A diferença entre ser monstro ou não, está nessa linha tênue entre desejar e fazer; pode ser um toque extra de coragem de quem faz ou o bom e velho senso moral gritando no ouvido de quem se controla, e é apenas isso que define o que somos, esse controle que quase sempre estamos a um fio de perder... e quando nos deparamos com o ícone da maldade nas telinhas, ficamos aliviados por perceber que não somos iguais, amamos o personagem, mas não temos a predisposição para o mesmo mal, ufa! Bom, ao menos a maioria de nós...
Mas e na vida real? Como explicar pessoas que fazem desses monstros celebridades?
Quando se ouve a frase: Ela mandou matar os pais a pauladas, o que lhe vem à mente? Horror total, não é? É inimaginável cogitar algo assim, mas e quando acontece, a assassina é presa, sai depois de cumprir parte da pena e vira celebridade? Não precisamos ir longe para presenciar algo assim... A assassina dos pais, aquela que o Brasil todo conhece, virou celebridade, tem milhares de seguidores em redes sociais, já ganhou documentário, filmes e turbinou seus negócios, atraindo pessoas que querem ver de perto a bela jovem que encomendou a morte dos pais... Virou ídolo, circula sem medo dentro da sociedade que chocou com suas escolhas...
E o “Maníaco do Parque”? Quem pode se esquecer dele? Também ganhou filme; e o sujeito, que foi preso por matar mulheres, recebe milhares de cartas na prisão de pretendentes... Sim, aparentemente existe algo de sedutor em assassinos de mulheres, e quem se importa com a aparência do dito cujo? A ausência de atrativos físicos parece passar despercebida quando o fulano é capaz de protagonizar histórias inimagináveis...
Mas esse assunto é só para abordar o quanto o bem não vende manchetes, o quanto somos condicionados ao que é ruim e ignoramos o que é bom; o bem é sem graça, afinal quem vai querer ouvir a história da senhorinha que alimenta gatos de rua com o mirrado dinheiro da sua pensão, ou do menino que arrecada ração para alimentar os cães de sua rua? São histórias reais de bondade que não viralizam, ou que não importam, afinal a senhorinha é suja, e o moleque é apenas mais um menino de pele escura e pés descalços...
Uma pessoa pode ser boa sua vida toda, ter um histórico de vida exemplar, e algum momento ter um gatilho acionado e BUM! Olha a caca feita! E depois desse mísero erro que ela cometer, ninguém nunca vai falar dos seus acertos, eles serão esquecidos, pois que somos assim, somos adoradores de tudo o que é ruim.
No fundo, o verdadeiro monstro somos nós, a sociedade; são aqueles que aplaudem essas pessoas, que fazem delas ícones de alguma coisa, que estão sedentos para saber de suas vidas, de seus feitos, de como foi matar, ou desmembrar, qual a emoção que sentiu...
E sem querer ser inocente e ver a vida toda em preto ou branco, sei que existem pais que encenam papéis de monstros, sei e já veio a público, caso de pais que aprisionam filhos, que os prostituem, estupram e que mereceriam os piores dos castigos, mas é exatamente nessas situações que descobrimos quem já pertence ao bem e quem se encontra na oposição, pois que alegar legítima defesa, ao meu ver, é apenar libertar o mal que as leis sociais nos abrigam a manter preso...
Sem nunca, nunca esquecer que Jesus poderia facilmente ter se libertado naquela sexta feira de calvário, ele poderia ter derrubado a cidade toda se quisesse, mudado a órbita do planeta inteiro, mas se deixou ser sacrificado...
Incentive o bem, apoie causas nobres, pois que incentivar o mal também te coloca no patamar de opositor a tudo o que é belo e puro deste mundo...
Vanderli do Carmo Rodrigues