
Um jogador marcar mais de três gols numa partida é tarefa difícil. Convenhamos, não é para qualquer um mesmo. Atualmente no futebol é coisa rara. Tanto é verdade que o programa “Fantástico” (TV Globo) homenageia quem consegue essa proeza, com direito a pedir uma música. Hoje vamos falar de um atacante de nossa várzea que não marcou três, mas sim, cinco gols num único jogo: Carlos Bernardes da Silva, o Carlitão.
Na época, meados dos anos 80, ele era centroavante do Cavalcante e fez cinco gols em cima do poderoso Ipiranga, uns dos melhores times da época. Eu estava presente neste jogo, com a jaqueta 9 do Ipiranga.
Tal como um pescador, que só fala dos peixes que pegou, o jogador de bola nas resenhas só gosta de comentar das vitorias, os títulos e gols que fez durante a carreira. Pois bem, hoje eu vou relatar o dia que o inspirado Carlitão aniquilou o meu Ipiranga.
O jogo foi o clássico da rodada, realizado no Estádio Municipal “Frederico Platzeck”, com casa cheia. Além de ser um campeonato duramente disputado, a torcida do Cavalcante, que representava o tradicional bairro, acompanhava direto o time em todos os jogos.
Lembro que o Ipiranga precisava da vitória para ficar entre os primeiros colocados. O Cavalcante ocupava uma posição intermediaria, lutando para chegar entre os oito classificados, no difícil campeonato que tinha 17 times.
Com cerca de dez minutos o Ipiranga fez 1 a 0, gol do Chico Ramalho, que pegou de voleio no ângulo, da entrada da grande área. A torcida vermelha e branca ipiranguista, empolgada, já contava com mais dois pontos. Ledo engano. Foi aí que o Carlitão, em jornada inspirada, deslanchou a marcar gols. Em 15 minutos anotou 3 inacreditáveis gols para a alegria dos torcedores alvinegros.
O Ipiranga ainda diminuiu através do ponta-direita Sarará. Aí o Carlitão fez um gol histórico no “Platzeck”. Praticamente driblou um time inteiro. Na soltura da bola, recebeu do ponta Airton. Como um raio foi avançando, sozinho, fintando quem encontrava pela frente. Passou pelo Toninho Marques, o volante Berto Nico, a dupla de zaga Corinho e Robson, fintou até o goleiro Bertoza, entrou com bola e tudo. Recebeu até os cumprimentos do lendário árbitro Moisés Rodrigues Santana. Confesso que nunca vi um gol igual.
No segundo tempo, o Ipiranga ainda tentou reagir. Mas novamente o Carlitão entrou em ação. Em cobrança de escanteio do Claudinho, dentro da grande área, subiu e testou forte no canto. Cavalcante 5 x 2 Ipiranga. Jamais esquecerei deste jogo e dos gols do Carlitão.
Veja uma das formações do Cavalcante (ou seria o Vasco da Gama?): Em pé da esquerda para direita: Mauro Socó, Amaral, Carlinhos, Quincas, Arizão Pessoa, Nenê e Batatinha (dirigente). Agachados: Carlitão (com a bola do jogo), Odair Mulato, Airtão, Ademir Mulato e Claudinho.
A CARREIRA
Carlos Bernardes da Silva, o “Carlitão” é mais um que tem história no futebol amador garcense. Foi jogador, dirigente e árbitro. Pertence a uma tradicional família de esportistas, todas ligadas ao futebol. Os irmãos Zé Bernardes, Cidão, Nonô e Jorgão, desfilaram pelos gramados da cidade.
O Cidão alcançou voos mais altos, virou atleta profissional. Passou rapidamente pelo “Azulão” e fez sucessos no Treze de Campina Grande, Sport Recife e Matonense/SP. O Jorgão é pai do grande goleiro Lú, destaque no futebol amador e suíço nos dias atuais.
Como centroavante o Carlitão dava um trabalho danado aos zagueiros. Atacante impetuoso, porte atlético forte, era difícil marcá-lo. Com ele não tinha bola perdida. Fez muitos gols nos times onde passou, dentre os principais: Cavalcante, Vasco da Gama, no rural defendeu a Fazenda Dinamérica e Fazenda Palmares. Dos jogadores que conheceu, dois faz questão de mencionar: os atacantes Paulinho e Betinho Marinho, rápidos e dribladores.
Time do coração: Santos Futebol Clube. Ídolo no futebol: Serginho Chulapa. “As características dele são iguais a minha”, declara.
Com uma certa dose de tristeza, fala que o futebol de hoje não é o mesmo de antigamente. “Os tempos mudaram, e dificilmente o campeonato amador voltará a ter grandes times e aquela alegria e entusiasmo de antigamente”.
Sobre a próxima Copa de Mundo, o Carlitão aposta em duas seleções para ganhar no Catar: Espanha e Brasil. Porém, aponta o campeão: “Como eu sou brasileiro, que seja o Brasil”.
Este jogo que consagrou o ex-jaqueta 9 do Cavalcante, foi relembrado dias atrás, um domingo de manhã, na feira livre de Garça. No agradável bate papo também estava presente o professor Ednaldo Cardoso de Andrade (na foto). Logicamente, saboreando um pastel frito na hora e um delicioso caldo de cana.
Wanderley
“Tico” Cassola

Carlitão e Ednalvo Cardoso