
Advogado João Marcos Anelli comenta a queda de Garça no ranking nacional de qualidade de vida
Como munícipe de Garça, acompanho com preocupação os indicadores que retratam a qualidade de vida da nossa população. Por isso, a divulgação do Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2026 trouxe um alerta importante: Garça ficou na 910ª posição entre 5.570 municípios brasileiros, com nota 64,90, desempenho considerado baixo para os padrões nacionais e estaduais. No ranking paulista, ocupamos apenas a 421ª posição entre 645 cidades. Esses números não são meras estatísticas — são um retrato fiel das condições reais de vida da nossa comunidade.
O IPS Brasil é uma pesquisa séria, reconhecida e baseada exclusivamente em dados públicos oficiais, como IBGE, Datasus, Ministério da Educação, MapBiomas e Ministério da Justiça. Não se trata de opinião, percepção ou pesquisa de satisfação. O índice mede resultados concretos, como mortalidade infantil, acesso à água tratada, segurança, educação, inclusão social e oportunidades econômicas. Por isso, seus dados são considerados legítimos e confiáveis por especialistas, gestores públicos e organizações independentes.
O índice é dividido em três grandes dimensões: Necessidades Humanas Básicas, Fundamentos do Bem-estar e Oportunidades. E é justamente nesta última que Garça enfrenta seu maior desafio. Com nota 39,59, ficamos na 4.744ª posição nacional, entre os piores desempenhos do Brasil. Essa dimensão avalia direitos individuais, liberdades, inclusão social e acesso à educação superior — pilares essenciais para o desenvolvimento humano e para a construção de uma sociedade justa e próspera.
Nos Direitos Individuais, por exemplo, Garça obteve apenas 20,58 pontos, ocupando a 4.272ª posição. O relatório aponta fragilidades em áreas como acesso a programas de direitos humanos, ações voltadas a minorias, resposta do sistema de justiça e congestionamento de processos. Esses indicadores mostram que parte da população encontra dificuldades para ter seus direitos garantidos de forma plena e eficiente.
Outro ponto crítico é a Inclusão Social, onde a cidade registrou nota 33,41 e amarga a 5.426ª posição nacional. Aqui entram fatores como paridade de gênero e raça na Câmara Municipal, violência contra mulheres, negros e indígenas, além da situação de famílias em vulnerabilidade. Esses dados revelam desigualdades profundas que ainda persistem no município e que precisam ser enfrentadas com políticas públicas consistentes.
Na dimensão Saúde e Bem-estar, Garça também apresentou desempenho preocupante: nota 58,37 e posição 1.879. Indicadores como mortalidade entre 15 e 50 anos, doenças crônicas, suicídios e expectativa de vida puxaram a nota para baixo. Embora tenhamos avanços em algumas áreas, o conjunto dos dados mostra que ainda há muito a ser feito para garantir uma vida mais saudável à população.
A Segurança Pessoal é outro ponto sensível. Com nota 68,73, Garça aparece apenas na 2.237ª posição. O índice considera homicídios, mortes no trânsito, assassinatos de jovens e violência contra mulheres. Esses números reforçam a necessidade de ações integradas entre segurança pública, assistência social e políticas de prevenção.
Por outro lado, alguns indicadores colocam Garça em posição aparentemente favorável, como é o caso de Água e Saneamento, onde a cidade recebeu nota 89,48 e aparece na 532ª posição nacional. No papel, esses números sugerem um sistema de abastecimento bem estruturado. No entanto, quem vive em Garça sabe que essa realidade não se confirma no dia a dia. A cidade vem enfrentando problemas recorrentes de falta d’água, interrupções prolongadas no fornecimento e falhas operacionais que se tornaram rotina — situações amplamente discutidas pela população e que geram indignação.
Esses problemas estão diretamente ligados à má gestão da autarquia responsável pelo abastecimento, que há anos acumula reclamações sobre planejamento deficiente, manutenção inadequada e incapacidade de responder com eficiência às demandas da cidade. O contraste entre a nota elevada no IPS e a experiência real dos moradores expõe uma contradição incômoda: a infraestrutura até pode existir, mas não está sendo administrada de forma competente.
O indicador de Moradia, com nota 94,83, também aponta condições estruturais adequadas — como coleta de resíduos, iluminação e qualidade das habitações —, mas isso não isenta o poder público de responsabilidade sobre os demais aspectos que impactam diretamente a qualidade de vida. A população tem enfrentado problemas que não aparecem nos números, mas que fazem parte da rotina de quem vive aqui: desde a precariedade na gestão de serviços essenciais até a falta de investimentos consistentes em manutenção e modernização.
O que o IPS deixa claro é que não basta ter infraestrutura. O índice mede se essa infraestrutura gera resultados reais para as pessoas. E é justamente aí que Garça precisa avançar. A queda expressiva em dimensões sociais e de oportunidades mostra que o desenvolvimento econômico — como o PIB per capita de R$ 43.958,26 — não está se traduzindo em progresso social proporcional.
Como munícipe, acredito que divulgar esses dados é fundamental para estimular o debate público e cobrar ações efetivas. O IPS não aponta culpados, mas evidencia problemas que precisam ser enfrentados com planejamento, transparência e participação da sociedade.
Recomendo que os leitores confirmem as informações diretamente no site oficial do IPS Brasil (ipsbrasil.org.br), que disponibiliza todos os dados utilizados nesta análise.
Dr. João Marcos Gusman Anelli é advogado atuante nas áreas cível e trabalhista, administrador de empresas e cronista político.