
Na Grécia antiga, especialmente na cidade-Estado de Atenas, a vida pública se desenvolvia em espaços onde atividades comerciais, encontros políticos e debates filosóficos se misturavam. A Ágora era o local onde o cidadão tinha o direito de falar, debater e participar da vida política.
Ali nascia a Democracia — dêmos (povo) + krátos (poder). O povo tinha o poder de decidir, de ser ouvido e de levar aos governantes os problemas que afetavam sua comunidade.
Para manter uma governança eficiente e preservar a ordem social, era necessário equalizar desigualdades e resolver conflitos. Essa necessidade, embora adaptada ao tempo, permanece até hoje.
Com o crescimento populacional, tornou-se inviável ouvir cada voz individualmente. Surge então a solução: a eleição de representantes encarregados de falar em nome de grupos de cidadãos com interesses comuns. Assim se estabeleceu a chamada Democracia Representativa.
Passados aproximadamente 2.500 anos desde a antiguidade clássica, esse modelo ainda é o que sustenta a ordem e a paz social. Mas permanece a pergunta: ele ainda é íntegro? Ainda cumpre seu propósito primordial? O que um cidadão ateniense, transportado ao ano de 2026, diria sobre nossa democracia?
Tomemos um exemplo prático: um deputado tem sua campanha impulsionada pela verba inesgotável de um bilionário e é eleito. Em tese, deveria atuar em favor dos interesses de seus eleitores. Contudo, é evidente que sua posição foi conquistada para atender aos interesses de quem financiou sua campanha.
Em uma sociedade capitalista, o dinheiro se traduz em poder — embora não compre votos diretamente. O krátos superior ainda provém do dêmos: as pessoas precisam votar para que alguém alcance o cargo. É aí que a classe detentora do poder econômico se organiza para convencer as classes inferiores de que seu candidato patrocinado é a melhor opção.
Em um mundo ideal, esse fenômeno seria tratado como algo a ser evitado. Porém, o que vemos é que esse desvirtuamento está profundamente enraizado nas bases de nossa democracia. O capital domina os meios de comunicação, molda o imaginário do cidadão comum e faz o trabalhador acreditar que o representante “pintado de ouro” pela elite financeira será a solução de seus problemas.
Se essa “verdade” não se impõe pela via midiática, entra pela via religiosa, transformando-se em moralismo. A propaganda passa a soar como mandamento divino, e qualquer desvio de caráter do “escolhido” é relativizado. Não se critica; idolatra-se.
Assim, vemos a democracia se vendendo ao capital, se corrompendo. Ou, como já se disse nas instâncias superiores do Judiciário, ocorre a “cupinização”: por fora, tudo parece íntegro, mas o núcleo já está comprometido pela deterioração.
Dr. João Marcos Gusman Anelli é advogado atuante nas áreas cível e trabalhista, administrador de empresas e cronista político.