
O ano era 1920. Uma nação destroçada pela guerra que ela mesma havia iniciado — e da qual saíra derrotada — precisava recuperar sua moral, reunificar seu povo e encontrar um caminho para a reconstrução. Era necessário que um sentimento de patriotismo superasse a amarga derrota. Em meio a ruínas, recursos escassos e embargos estrangeiros, não pouparam esforços para solucionar o problema.
Perceberam, então, que, para alcançar seus objetivos, era preciso criar uma mensagem que se espalhasse por todo o território: simples, repetitiva e emocional, capaz de controlar a narrativa pública. Em 1924, um integrante do exército tornou-se conselheiro de primeira hora do comandante supremo. Baseado em uma “ciência” que dizia ter desenvolvido, acreditava que a mensagem certa seria capaz de moldar comportamentos.
Em 1933, esse militar foi alçado ao posto de Ministro da Propaganda e Esclarecimento Público, dando nome oficial àquilo que se tornaria uma das armas de guerra mais eficazes já inventadas.
Essa arma controlava os meios de comunicação, garantindo que a informação que chegasse ao povo fosse apenas aquela de interesse do partido. Manipulando sentimentos fortes — ódio, medo, orgulho e ressentimento —, a propaganda permitiu a formação de uma identidade coletiva poderosa, criando a figura mitológica do líder infalível, amado e temido.
Entre suas características mais perversas, talvez a pior fosse o poder de definir quem era o inimigo. Apresentar um inimigo à massa sedenta por sangue lembrava a crueldade dos coliseus, quando escravizados devotos de outra religião eram lançados às feras sob aplausos da plateia.
A semelhança com os tempos do império se revela quando o líder supremo — agora elevado ao status de mito — aponta para uma etnia diferente da sua e, ao definir o inimigo, oculta seus verdadeiros interesses. Disfarça-os sob o manto dos mesmos sentimentos fortes antes mencionados e libera a massa para agir de forma desumana, convencida de que aquilo é moralmente correto. O inimigo não merece piedade. Essa moral distorcida fez com que uma nação inteira aceitasse enviar pessoas para campos de concentração e extermínio.
No fim, nem mesmo essa arma poderosa impediu que aquele exército fosse derrotado novamente. O portador da arma sucumbiu — mas e a arma?
Hoje, duas pessoas sentadas de costas uma para a outra assistem à mesma notícia em telas diferentes. Os personagens são os mesmos, os fatos são os mesmos, mas o enredo é completamente oposto. Cada uma fica satisfeita com a versão que vê. Ninguém quer saber da notícia de fato. Uma metáfora perfeita da pós-verdade.
Em um mundo onde existe a opção de acreditar em uma verdade mais agradável, a frase atribuída ao antigo ministro — “Uma mentira dita cem vezes se torna verdade” — revela como a era da pós-verdade é terreno fértil para a proliferação dos mesmos ideais que resultaram em genocídio.
A propaganda é uma arma que se retroalimenta de suas vítimas. Quando o indivíduo é atingido, torna-se munição. Quando passamos a acreditar em necessidades que não são nossas, mas foram elaboradas para parecerem nossas, a arma cumpre seu objetivo.
Quem inventou e usou a arma sucumbiu.
A arma, porém, continua nas mãos de outros senhores da guerra.
Qualquer semelhança não é mera coincidência.