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“Educação, Utopia e o Professor no Redemoinho” — por Dr. João Marcos

Ninguém sabe quais serão as profissões do futuro. É mais razoável, portanto, incentivar aquilo que nos torna humanos

Por: Redação Fonte: Garça em Foco
30/03/2026 às 12h44
“Educação, Utopia e o Professor no Redemoinho” — por Dr. João Marcos

No Brasil da utopia, o salário do professor era maior que o do juiz. A periferia — chamada assim apenas por estar fisicamente distante do centro urbano — exibia um dos mais altos índices de desenvolvimento humano. Suas ruas e construções eram planejadas com sustentabilidade, a partir de ideias dos próprios moradores, que também espalhavam com orgulho suas manifestações culturais por toda parte.
O prédio público mais importante era a ESCOLA. Dentro da sala de aula, cercado por todas as ferramentas tecnológicas disponíveis, o professor ministrava sua aula e inspirava a aluna a ser cientista e, um dia, fazer pessoas voltarem a andar. No ginásio, onde os jovens praticavam quase todos os esportes, um menino que jogava futebol foi perguntado sobre o que queria ser quando crescesse. Ele respondeu: “professor de educação física”.
Uma utopia é a concepção de uma sociedade ideal, justa e perfeita — um modelo inexistente na realidade, mas que serve para criticar ou inspirar transformações no mundo real.
E é inexistente justamente porque, hoje, o professor não é respeitado nem pelo próprio Estado que o contrata. Falta remuneração digna, falta plano de carreira, falta previsibilidade de futuro. Para sobreviver nesse ambiente hostil, o professor precisa se desdobrar em múltiplas aulas, em diferentes escolas, apenas para garantir o básico. Uma mente em modo de sobrevivência não consegue se dedicar a mais nada. Assim, quando esse profissional terá tempo e energia para exercer sua vocação e inspirar as ideias que poderiam transformar a utopia em realidade?
Diante disso, surge a pergunta: qual modelo de educação é ideal para as novas gerações? Seria aquele que adestra indivíduos para obedecer a uma voz de comando? Treinar mão de obra para fábricas onde máquinas já executam tarefas de forma mais rápida e eficiente é uma estratégia condenada ao fracasso. Nesse cenário apodrecido, que chega a feder, uma educação voltada ao desenvolvimento de vocações e habilidades parece a saída mais inteligente.
Ninguém sabe quais serão as profissões do futuro. É mais razoável, portanto, incentivar aquilo que nos torna humanos — algo que máquina nenhuma terá: a criatividade. É aí que reside a verdadeira importância do professor. Essa é a classe capaz de fazer aflorar as ideias que moldarão o amanhã. Um profissional que exerce sua vocação é capaz de inspirar uma multidão. O estímulo ao pensamento crítico e filosófico é fundamental para que o jovem enxergue oportunidades melhores.
Que o exemplo a ser seguido seja o do vizinho professor, e não o de quem trilhou o único caminho que tinha e acabou atrás das grades. Que as meninas sejam mais Dra. Tatiana Coelho e menos Virgínia.
No Judiciário, existe o chamado “princípio da dedicação exclusiva da magistratura”, que estabelece que o juiz deve receber remuneração suficiente para se dedicar apenas à função jurisdicional, garantindo independência, imparcialidade e dignidade.
Voltemos, então, ao Brasil da utopia. Agora, o professor tem seus direitos assegurados pelo princípio da dedicação exclusiva do magistério. Seu salário permite que ele se dedique integralmente à docência. O salário do juiz é inferior — e isso não causa espanto, pois, como tudo em uma sociedade está interligado, o trabalho do professor fez com que o juiz quase ficasse sem trabalho. Afinal, uma sociedade educada produz menos injustiças.

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