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“Os Lázaros de hoje” — por Pe. Anderson Messina Perini

Padre Anderson reflete sobre a Liturgia do 26º Domingo Comum e o Dia da Bíblia em sua nova coluna no Garça em Foco.

Por: Redação Fonte: Garça em Foco
25/09/2025 às 12h35
“Os Lázaros de hoje” — por Pe. Anderson Messina Perini

A Liturgia da Palavra deste 26º Domingo Comum nos convida a ver os bens desse mundo, como dons que Deus colocou em nossas mãos, para que administremos, com gratuidade e amor. Celebramos neste último domingo de Setembro o Dia da Bíblia. E o lugar privilegiado para ler e acolher a Palavra de Deus é a Comunidade na celebração dominical.
Na Primeira Leitura (Am 6,11-16), o Profeta Amós denuncia severamente os ricos e poderosos do seu tempo, que viviam no luxo e na fartura, explorando os pobres, insensíveis diante da miséria e da desgraça de muitos. O Profeta anuncia que Deus não aprova essa situação. O castigo chegará em forma de exílio em terra estrangeira. As denúncias de Amós são ainda hoje atuais! Grandes nações gastando enormes fortunas matando gente em guerra, enquanto outros morrem de fome por não ter o que comer. Quantos vivem na abundância, enquanto muitos morrem de fome e na miséria. Quantos satisfazem seus caprichos, sacrificando até seus familiares.
Na Segunda Leitura (1Tm 6,10-16), Paulo denuncia a cobiça: “Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (v.10). Por isso, ele continua na leitura deste domingo: “Tu que és homem de Deus, foge destas coisas perversas, procura a justiça, a piedade, a fé, o amor, a firmeza, a mansidão” (v.11)
Quem pode ser esse homem de Deus? Pode ser o padre, a pessoa consagrada, o apóstolo leigo, enfim, todo batizado é convidado a superar toda forma de apego ao dinheiro, que escandaliza qualquer pessoa. E Paulo dá seu próprio testemunho e exorta a combatermos o bom combate da fé, a buscar a cada dia a vida eterna, não só para si, mas empenhar-se a colaborar na Igreja, o rebanho do Senhor. Somos chamados a administrar para além dos bens deste mundo, os bens eternos, guardando o mandamento do Senhor, que é a vivencia concreta da caridade, do amor uns com os outros, a fraternidade e a solidariedade.
No Evangelho (Lc 16,19-31), temos o julgamento de Deus sobre a distribuição das riquezas. A Parábola do homem Rico esbanjador (Epulão) e do pobre Lázaro tem três quadros. Primeiro, mostra a situação de vida do Homem rico e do Pobre “Lázaro”. Depois, a mudança de cena para ambos após a morte. E, por fim, um diálogo entre o rico e Abraão. O rico tem como proposta enviar Lázaro a sua família: “Pai Abraão, mas se um dos mortos for até eles, certamente vão se converter” (v.30). Mas Abraão responde: “Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos” (v.31).
A morte de ambos reverte a situação. Quem vivia na riqueza está destinado aos “tormentos”. Quem vivia na pobreza se encontra na paz de Deus. É uma Catequese sobre a escatologia, que antecipa o amanhã para que valorizemos o presente. O rico não é condenado por ser rico, mas porque prescinde de Deus. Viveu como se Deus não existisse e pensou que permaneceria impune diante de sua indiferença com o próximo. 
O pobre se salva porque está aberto para Deus e espera a Salvação. Ele confiou sua vida em Deus e por isso recebe a herança eterna. A pobreza não levou Lázaro ao céu, mas a humildade e sua solidariedade: “além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas” (v.21). E as riquezas não impediram o rico de entrar no seio de Abraão, mas seu egoísmo e a pouca solidariedade com o próximo. Na Parábola, o pobre tem “nome”, o rico não. Em nossa Comunidade, os pobres têm nome?
“Escutem Moisés e os profetas!” (v.31). Essa advertência tem um significado todo especial no mês da Bíblia. A expressão “Moisés e os Profetas”, no tempo de Jesus, significava a Sagrada Escritura. Por isso, Jesus queria dizer que não estamos precisando de aparições duvidosas do além, nem de videntes ou prodígios milagrosos. A Bíblia é a única Revelação segura que todo cristão deve acreditar. Ela é suficiente para iluminar o nosso caminho. Seguindo essa Luz, encontraremos, aqui na terra, a solidariedade, a fraternidade e, na outra vida, acolhida na casa de Deus, um lugar junto de Abraão. Essa Palavra de Deus, podemos encontrá-la: na Catequese, na Liturgia, na Leitura Orante, nos Grupos de Reflexão, nos Cursos de formação, na Leitura e oração pessoal.
Quem são os Lázaros hoje? Ainda hoje quantos ricos esbanjam sua fortuna, enquanto pobres “Lázaros” continuam privados até das migalhas que sobram. Creio que os vemos diariamente nas ruas, na televisão e nas mídias sociais. Escutar Moisés, os Profetas, o Evangelho favorece o desapego e abre os olhos às necessidades dos irmãos. O Documento de Santo Domingo (1992) afirma: “O crescente empobrecimento a que estão submetidos milhões de irmãos nossos, que chega a intoleráveis extremos de miséria, é o mais devastador e humilhante flagelo que vive a América Latina” (n.179). No Brasil, o Salário-mínimo ainda continua não sendo suficiente para uma família, a aposentadoria miserável, alguns economistas chegam a falar de congelamento dos salários, enquanto outros recebem supersalários e inúmeros desvios. No Brasil, milhões de Lázaros nos indicam o caminho da salvação. Se nos abrirmos ou não a eles. Se nos colocarmos ou não a serviço do Reino e de sua justiça. 
Jesus conclui com uma admoestação: “Há um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós” (v.26). Após a morte, a situação se torna irreversível. Como superar esse abismo que nos separa? Abismo que não foi construído por Deus, mas pelas pessoas gananciosas, abismo que começa agora e se prolonga no além.
A Eucaristia é um grande meio para vencer esse abismo, desde que seja sempre uma verdadeira Comunhão. Que inicia agora essa comunhão com Deus e com os irmãos na Igreja, na família e na sociedade, se prolonga por toda a Eternidade junto de Deus. 

 Pe. Anderson Messina Perini
Administrador Paroquial da Paróquia Jesus Bom Pastor de Santo André

 

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