
Dando continuidade à viagem relatada na semana passada, partimos cedo de Uyuni em direção a San Pedro de Atacama, uma charmosa e peculiar cidade chilena. Juntamente com a peruana Cusco -, a antiga capital do Império Inca e porta de entrada para Machu Picchu -, e de Uyuni, que abriga o maior deserto de sal do mundo, considero essas três localidades verdadeiras "cidades globais" da América do Sul. Cada uma, à sua maneira, concentra cultura, história e paisagens únicas que atraem viajantes do mundo inteiro, e em especial, um sem-número de jovens “mochileiros”, que exploram o mundo carregando nas costas enormes mochilas com seus pertences básicos. Europeus, japoneses, americanos e australianos, em sua maioria, via de regra se aproximam, atraídos por nossas motos e pelas nossas histórias das aventuras. As conversas, que começam de forma casual, logo se estendem, e muitos nos contam que trabalham durante seis meses por ano guardando dinheiro, e dedicando os outros seis meses exclusivamente para viajar. Assim, exploram e conhecem novos destinos, paisagens, povos e culturas exóticas, realidades bem diferentes do dia a dia em suas cidades. Uma das atividades que mais gosto de fazer durante minhas viagens é observar o cotidiano dos mais diversos tipos de pessoas, mas sempre à distância e de forma discreta, procurando não influir no curso das suas rotinas. Entre os aventureiros há um ditado que diz “O verdadeiro aventureiro é anônimo”. Sim, é isso, eu concordo plenamente, e isso já diz muito, se não, tudo. O que mais me encanta é ver as pessoas seguindo suas rotinas, indo à padaria com seus filhos brincando ao lado, casais de namorados ou esposos, amigos se encontrando pelas ruas, idosos sentados nos bancos das praças apenas deixando o tempo passar. Depois, quando estou na minha casa gosto do exercício imaginário de pensar como será que cada um deles estão, e onde estarão essas pessoas, atualmente...
Lembro aos amigos que, ao abrirem os links das fotos, e clicando sobre elas, há um efeito de zoom, melhorando a visualização.
Nesta primeira foto, eu havia chegado com um saco de doces na bagagem. para que eu pudesse distribuir às crianças que eu encontrasse pelo caminho. Sempre que posso, faço dessa maneira.
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Folhas e chá de Coca. Não é droga, é um alivio para combater os males da altitude, aplacar a fome.
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Entre os países que visitei, os que mais me impactaram culturalmente foram o Peru e, sobretudo, a Bolívia. Neste país, em especial, há algo nos costumes, nos gestos e até no humor das pessoas, que parece vir de outros tempos, de outra lógica de mundo. É difícil até para explicar, só vivendo isso de perto para realmente entender. A maneira como as pessoas se vestem, se comportam e interagem é marcadamente diferente. Outro contexto interessante é que, pela minha ótica, a passagem das suas tradições históricas para o mundo ocidental globalizado não deve ser nada fácil para eles. Vejo que o primeiro passo e o impacto da mudança das vestimentas tradicionais deva ser a primeira barreira a ser transposta, por necessitar de abrir mão de uma parte importante e totalmente visível das suas culturas, algo que poderia soar com uma pequena “traição”.
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Abastecemos as motos em San Cristoban, pequena cidade já a frente de Uyuni, e tudo por estradas de terra, para quem segue pela Ruta 701. A igreja local é surpreendente linda e de bom gosto.
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Saímos um pouco da rota e chegamos ao Vulcão Olagüe. Esse vulcão é ativo, e lança uma coluna de fumaça vulcânica para o alto.
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Ao chegarmos a Vila Alota, uma pequena cidade com cerca de 600 habitantes, situada à beira da estrada, se é recebido por um cenário singular. Devido ao clima inóspito, e em conjunto com a elevada altitude de 3.820 metros, chama atenção a arborização da avenida principal, em que as árvores são literalmente construídas. Os troncos e copas são esculpidos em pedra, compondo uma paisagem inusitada e encantadora. Vale também registrar o charme da pequena, porém graciosa, igreja central ao lado do coreto, que são perfeitos para algumas fotos. Após Vila Alota até a chegada ao asfalto, já no Chile, o caminho é tomado pelas “calaminas” - nossas conhecidas costelas-de-vaca, mas em sua versão andina, majoradas e num solo duro e pedregoso.
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Esse pequeno rio nos impõe uma boa dificuldade. Apesar de ser um pequeno curso de água, ainda é muito fundo por ser constantemente socavado pelos veículos 4x4 que carregam turistas pela região. Foi preciso estudar a área, e escolhemos passar por um brejo que tinha um pouco mais de firmeza no piso. Passamos as três motos, e isso a 4600 metros de altitude.
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Deixamos então a Ruta 701 e seguimos rumo sul. Esta nova rota segue por um caminho que em determinados lugares em nada lembram uma estrada. É partir daí que as coisas começam a piorar em demasia. Conhecida entre os moto-aventureiros pelas dificuldades impostas para sua travessia, este trecho é altamente evitado. Particularmente acredito ser um dos poucos que já cruzaram essa estrada, que passa pelo “Parque Nacional Eduardo Avaroa”, em duas ocasiões. Teríamos a alternativa de ir até Olagüe, para somente depois seguir para San Pedro. Isto aumenta consideravelmente a distância, apesar de ser muito mais fácil. Mas o sangue aventureiro sempre fala mais alto, e, portanto, decidimos por esse roteiro mesmo que por tudo o que envolve. Essa, com certeza, é a estrada mais cansativa e desgastante pelo qual já pilotei. Lembro ainda que o Germano estava colocando em prática seu off-road somente a partir desta viagem, e isto ficou ao meu encargo auxilia-lo tecnicamente para sua conclusão. Mesmo assim optamos por seguir por esse trajeto.
Essa etapa entre Uyuni e San Pedro de Atacama é realmente uma das mais desafiadoras, e ao mesmo tempo, uma das mais impressionantes de todas as travessias pelo Altiplano sul-americano. O isolamento, a altitude extrema e o tipo de terreno exigem não só preparo físico e mental, mas também uma boa dose de resiliência e planejamento logístico. Andar a 4.680 metros de altitude por si só já seria um desafio apenas para respirar. Agora, somado ao esforço físico de pilotar motos de grande cilindrada, e com bagagens pesadas em terrenos tão instáveis, torna-se quase uma prova de resistência. Areiões, pedriscos soltos e rochas traiçoeiras não só exigem técnica apurada de pilotagem, mas também colocam as motos (e os nervos) à prova o tempo todo. A sensação de estar no meio do nada, sem qualquer assistência por centenas de quilômetros, adiciona uma tensão constante, uma espécie de silêncio que grita. Por outro lado, o visual compensa tudo. É sempre assim, um paradoxo típico das grandes aventuras: quanto mais duro o caminho, mais inesquecível a paisagem. As lagunas coloridas, os vulcões ao fundo, o céu de um azul sem-igual e a vastidão do deserto criam uma beleza quase surreal, como se estivéssemos em outro planeta. Engana-se quem imagina que por isso a paisagem seja algo apenas monocromática. Mesmo que com uma cor predominante, aquele deserto conta com incontáveis variações de tonalidades.
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Aguardamos o nosso rendimento durante o dia para definirmos o local onde dormiríamos. No meio daquela área desértica, chegamos a linda Laguna Hedionda, onde está sendo construindo um hotel à beira da água. O Hotel Los Flamingos tem como proprietários um grupo formado por investidores americanos, que aliás, pouco comparecem ao local. Ainda tínhamos luz suficiente para nos adiantar um pouco mais, mas como não haveria outra opção para nos abrigar do frio que a altitude proporciona durante a noite, preferimos fazer a nossa parada do dia por ali, mesmo. Guardamos as motos dentro do refeitório e jantamos macarrão e sopa de arroz, com direito a saborearmos um chá de coca, o que nos ajudaria a rebater os efeitos dos 4.125 metros locais. Assim, deslumbramos um lindo pôr do sol alaranjado por entre os Andes, visual que refletia na Laguna Hedionda, com inúmeros flamingos cor-de-rosa. O “encontro” da laguna com as montanhas nevadas que cercam a região é algo difícil de ser esquecido. Na manhã seguinte, nosso termômetro digital apontava 4 graus abaixo de zero. Ainda assim, lá fora a vida pulsava, seguindo sua rotina, com bandos de flamingos calmamente buscando seu alimento no fundo da laguna. Após rápida manutenção nas motos, nos preparamos para seguir, porém, ainda estava bastante frio e só conseguimos sair depois que o sol aqueceu um pouco o ambiente.
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Especialmente nesta parte da estrada, as paisagens são deslumbrantes. As lagunas e vários picos cobertos de neve são de extrema beleza e passam uma paz interior de rara oportunidade. Contrapondo este sentimento, estão as condições da estrada, hora com areião, hora com seu leito forrado por pedras soltas de tamanho graúdo, e em outras, as calaminas. Existe ainda, uma mescla de areião com pedriscos, que deixavam a pilotagem das motos bastante instáveis, transformando esta parte da viagem na mais desgastante física e mentalmente. Sabe quando vem aquela sensação de que “isso nunca mais vai terminar”. Pois é, este foi o caso.
Entramos na região do deserto de Siloli, onde a estrada se divide em vários e distantes traçados, mas que invariavelmente finalizavam no mesmo lugar. Neste dia, o Germano tombou sua BMW duas vezes. Numa delas eu e o Ramon havíamos nos afastado um pouco sem perceber, pois, as péssimas condições do piso exigiam muito da nossa atenção e cuidado. De repente me vi sozinho, resolvi voltar e procurá-los. Andei um pouco e nada de avistá-los ou ouvi-los. Pensei que pudesse ter errado o caminho e me bateu uma enorme angústia. Esperei por quase uma hora e quando já estava resolvido seguir em frente e, juro por Deus, no exato momento em que virei a chave da moto para acionar a partida, alívio geral – na minha última olhada para checar, os dois apareceram no horizonte. Por causa do peso, o Germano não estava conseguindo levantar a sua moto sozinho.
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Às vezes pelas calaminas, outras devido ao leito pedregoso, não conseguiríamos imprimir um ritmo para podermos chegar ao asfalto ainda com dia claro. Inúmeras vezes e por longas distâncias, éramos obrigados a andar a 20/30 km/h e mesmo assim, as motos carregadas e pesadas parecia que iam se desmanchar de tanto pular, até as vezes nos fazendo parar para recomeçar em primeira marcha. Pularam tanto que estourou o retentor da bengala e soltou o bagageiro da minha XT. Parada rápida e fotos no Arbol de Pedra, que é um ponto turístico do trajeto, sendo uma formação rochosa que se assemelha a uma árvore, situando-se em meio ao nada.
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E seguimos em frente até a Laguna Colorada. Mais algumas fotos e não perdemos tempo. Chegamos a questionar se deveríamos pernoitar por ali mesmo ou continuar. O argumento para que ficássemos na Laguna era de que a estrada estava péssima e o horário avançando rapidamente. Optamos por seguir, pois, queríamos ficar livre do sofrimento o mais cedo possível. Mais tarde essa decisão mostrou ter sido a correta, visto que a estrada melhorou imensamente no seu trecho final. Seguimos direto para a aduana boliviana (apacheta), que fica dentro da sede de uma mineradora, e que se situa a 86 quilômetros antes da fronteira com o Chile. Neste local, nossos GPSs apontavam a altitude de 5.039 metros. Papelada pronta, pudemos retomar nosso roteiro até a fronteira com o Chile.
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Nesse momento a moto do Ramon apresentou problemas no quadro, que não resistiu e se partiu. A traseira da moto caiu por cima do pneu. Fizemos uma amarração utilizando-se de cintas de nylon, o que nos possibilitou seguir até a cidade. E eu precisei de pilotar com o peso extra da bagagem do Ramon, junto com a minha.
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Passamos por outras lagunas até chegarmos a fronteira dos países por volta das 18:30 horas, já com a sombra do vulcão Lincancabur e com o frio nos gelando as mãos. Quando colocamos as rodas no asfalto, virou festa.
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No dia seguinte, em San Pedro de Atacama, procuramos algum soldador, que pudesse fazer o serviço que precisávamos na moto do Ramon.
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Serviço concluído, partimos para o nosso próximo destino. Mas isso é história para a próxima edição.
Até lá!
Nada expande a mente e o coração como viajar para terras desconhecidas.
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