
A Liturgia da Palavra deste 25º Domingo Comum nos adverte sobre o perigo obsessivo do dinheiro: o vício da Avareza. Vivemos numa sociedade globalizada, em que o dinheiro parece mandar em tudo e é procurado a qualquer custo. Para muita gente, ter dinheiro significa poder e prestígio. Qual deve ser a atitude cristã diante das riquezas? Na Primeira Leitura (Am 8,4-7), Amós denuncia os ricos comerciantes do seu tempo, que exploravam nas mercadorias e nos preços os pobres camponeses. Nem respeitavam os “dias santos” para celebrar e descansar. O Profeta os adverte que Deus não ficará impassível diante disso: “Nunca mais esquecerei o que eles fizeram” (v.7).
Essa exploração descrita por Amós não é um fato apenas do passado. É uma realidade que os pobres conhecem muito bem ainda hoje. A exploração e o lucro desmedido não fazem parte do projeto de Deus.
A Palavra hoje nos recorda que quem prejudica os pobres ofendem a Deus, pois é seu defensor, “dos órfãos ele é pai, e das viúvas protetor” (Sl 67[68],6). Aqui não é apenas uma questão de justiça social. A Igreja deve defender o projeto de Deus, e em nome de Deus, que não permite fraudes e abusos inflacionários, sobretudo, com aqueles que não tem muito, é que se fundamenta a justiça autêntica, seja para quem for, independente de classe ou etnia.
Contra a Avareza, o acúmulo excessivo de bens, Deus nos ensina a virtude da Solidariedade e Generosidade, sabendo ser justo nos preços e reto numa autêntica política de distribuição dos bens.
Na Segunda Leitura (1Tm 2,1-8), Paulo convida a elevar ao céu “mãos santas”, numa oração universal, em favor de todos os homens. A oração só tem sentido se for expressão de uma vida de comunhão, com Deus e com os irmãos. Pois o grande desejo de Deus: “ele quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (v.4). A Justiça e o Plano Divino são para toda humanidade, independente de classe. Porém, para sermos salvos, o grande desejo de Deus, devemos ser-lhe agradáveis com uma vida digna, justa e solidária.
No Evangelho (Lc 16,1-13), Cristo convida a conseguir a verdadeira liberdade, servindo a Deus e não ao dinheiro. Ilustra com a Parábola do Administrador Infiel, que ao ser despedido, reduz o valor da dívida dos devedores para garantir futuros amigos.
À primeira vista, poderia dar a impressão de que Jesus elogia a desonestidade e a corrupção do administrador. Para compreender o ensinamento do Mestre, devemos nos situar no tempo. Naquela época, os administradores deviam entregar ao empresário uma determinada quantia. O que conseguissem a mais, ficava com eles. Seria um “tipo de comissão”. O que fez o administrador? Renunciou ao que lhe cabia nos negócios. Ele entendeu que, no futuro, mais do que dinheiro, precisava de amigos. Por isso, renunciou ao dinheiro, para conquistar amigos. A “esperteza” do administrador revela a criatividade, que falta aos “filhos da luz”. Devemos também usar essa “esperteza” para tornar sempre atual a mensagem de Cristo.
A busca desenfreada pelo dinheiro continua. O dinheiro é o “deus” de muita gente, que está disposta a tudo desde que faça crescer a conta bancária. Para ganhar mais dinheiro, há quem trabalha doze ou quinze horas por dia, num ritmo de escravo, e esquece de Deus, da família, dos amigos e até da própria de saúde. Por dinheiro, há quem vende a sua dignidade, a sua consciência e renuncia a princípios em que acredita. Há quem não tem escrúpulos em sacrificar a vida ou o nome dos seus irmãos. E há quem é injusto, explora os colaboradores e funcionários, se recusa a pagar um salário justo. Topa tudo por dinheiro. Talvez nunca cheguemos a estes casos extremos. Mas, até onde seríamos capazes de ir, por causa do dinheiro? A adoração ao “deus dinheiro” não é o caminho mais seguro para construir valores duradouros, geradores de vida e de felicidade.
De outro lado, Jesus não quer dizer que o dinheiro seja uma coisa desprezível e imoral, do qual devamos fugir a todo o custo. O dinheiro é necessário para uma vida com qualidade e dignidade. Mas ele não pode se tornar uma obsessão, uma escravidão, pois não nos assegura, e muitas vezes até perturba, a conquista dos valores duradouros e da vida plena. Devemos tomar cuidado para que o dinheiro não se torne um “ídolo tirano”, que nos escraviza e nos torna insensíveis a Deus e às necessidades dos outros.
Jesus conclui com sentenças sobre o bom uso das riquezas: “Ninguém pode servir a dois senhores... a Deus e ao Dinheiro” (v.13). Deus e o dinheiro representam mundos contraditórios. Os discípulos são convidados a fazer a sua escolha. Entre o Mundo do Dinheiro, que gera o egoísmo, os interesses próprios, a exploração alheia e a injustiça. E o Mundo do Amor, do projeto de Deus, que é doação, partilha, fraternidade, solidariedade, justiça e caridade.
As riquezas não devem ser obstáculo à Salvação, mas um meio para fazer amigos “nas moradas eternas”. Um instrumento de comunhão entre as pessoas, de amizade, de igualdade. Não servir ao dinheiro, mas nos servir do dinheiro para servir a Deus e aos irmãos.
A Honestidade tanto nos grandes como pequenos negócios, porque quem é fiel no pouco, também é fiel no muito. E quem é infiel no pouco, também é infiel no muito. Quem não é fiel nas riquezas terrenas, no pouco, também não é fiel nas riquezas eternas, isto é, no muito. Qual é a nossa atitude diante dos bens terrenos? Só Deus é o dono de tudo o que existe. Nós somos apenas administradores. A qualquer momento, Cristo poderá também nos dizer: “Presta contas da tua administração”! (v.2). Como estamos administrando? Já garantimos a nossa morada eterna?
Pe. Anderson Messina Perini
Administrador Paroquial da Paróquia Jesus Bom Pastor de Santo André