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“A dor de uma despedida inesperada – parte 4” — por Edgard Cotait

Uma jornada de superação, amizade e amor à vida: entre fronteiras, desafios e histórias inesquecíveis, uma viagem que começou com um sonho e terminou com um legado eterno.

Por: Redação Fonte: Edgard Cotait
08/08/2025 às 16h31
“A dor de uma despedida inesperada – parte 4” — por Edgard Cotait

Ao sairmos na Nicarágua, aconteceu uma situação que quando penso hoje nela em dia, foi bem engraçada. Mas na época foi bem tensa. Enquanto aguardávamos para fazermos a papelada da imigração da Costa Rica, o calor era tanto que fui obrigado a entrar com a moto debaixo de um ponto de ônibus, bem em frente a um barzinho. Os caras que estavam no bar, sem perceber que o Paulo era cadeirante, e que eu havia estacionado ali apenas para protege-lo do sol escaldante, sentiram-se ofendidos com a minha “folga”, e começaram a me encarar feio. Eu quase perdendo a vida e o Paulo, sem perceber nada,  ali, bebendo tranquilamente uma água gelada... Um deles, o mais mal-encarado, que não tirava os olhos de mim nem por um segundo, me observava de tal maneira que sua fisionomia era mais feia e mais séria do que a aqueles russos domadores de leões. Graças a Deus, logo chegou a nossa vez e eu pude então, trazer meu couro intacto de volta ao Brasil...
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/B43pSBhmFFHQUEAr5

Pousamos em Peñas Blancas, a primeira cidade do novo país. O café da manhã era um prato com arroz, feijão e outros acompanhamentos. Tentei por duas vezes gravar um vídeo deste “café da manhã”, mas as atendentes ficavam envergonhadas.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/WAhKRFtJu9CQehQK6
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/kCpvEt1MJ13eRMgJ8
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/zQ4MyMMpCioppMGh6
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/weG44ktDS15ZBJDg6

Costa Rica! Que país sensacional. Que povo espetacular. Esse país é reconhecido internacionalmente pela sua qualidade de vida. Ali reina o respeito à natureza e às pessoas. Vive-se com “leveza”. 
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/J499xKxzk4UhrykbA

Diferentemente da maioria das estradas dos demais países Centro-americanos pelo qual passamos, as rodovias costarriquenhas se destacavam pela boa sinalização e pelo asfalto de qualidade, mesmo sendo, em sua maioria, de pista simples. É enorme a quantidade de vegetação preservada, por todos os caminhos. A vegetação preservada era abundante ao longo de todo o percurso. Apesar de seu pequeno território, o país abriga uma impressionante diversidade de fauna e flora. Pelo caminho, paramos para conhecer algumas praias do Pacífico, sendo sempre necessário sair da estrada principal. Em uma dessas paradas, conhecemos a praia de Matapalo, em Savegre de Aguirre, na província de Punta Arenas. Apesar do tempo carregado, eu estava gravando um vídeo de forma descontraída, sobre a dificuldade do Paulo para descer da moto. Foi então que, de relance, percebi uma sombra se aproximando no céu, vindo em minha direção. Assustei-me por um instante, mas ao observar com mais atenção, percebi que se tratava de um bando de grandes pássaros em voo, alinhados na clássica formação em vórtice, a estratégia em que a ave que vai à frente quebra a resistência do ar, facilitando o voo das que vêm atrás. Foi um momento emocionante para mim estar ali, vivenciando a importância de poder ajudar a qualquer pessoa que fosse, quanto mais a um amigo e experimentar tudo o que esse mundo maravilhoso que Deus nos deu, e por meio do dom da vida, buscar nossa plenitude. 
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/TvMvCQFVHx9Xrau48
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/EiMs8qkyCSuG6cHs5
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/yXFKJaMpgZLn1xrY9
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/SVvnDVpnXipxmF5r5

A culinária local é bastante rica, e fortemente baseada em pescados e frutos tropicais. O resultado é um sem número de sabores, texturas e convidativas aparências.  Finalmente chegamos ao Panamá, entrando pelo Paso Canoas, já de noite. A primeira cidade, David, fica a 50 quilômetros à frente da fronteira. No caminho, notei um veículo com atitude estranha, parecia nos seguir. Acelerei, ele acelerou junto. Diminuí, ele também diminuiu. Repeti as manobras e ele idem. Resolvi dar uma “trucada” e parei abruptamente no acostamento. Ele parou junto. Pensei comigo, agora ferrou. Então, “torcemos o cabo’ até David, embora sempre acompanhados da tal camionete. Estacionamos no primeiro posto que encontramos. A camionete? Veio, estacionou junto e com o motorista descendo ligeiro. Mas o motorista, o Bobby logo se identificou como motociclista, se tornando uma grande amizade, ao qual o chamávamos de “meu bandido favorito”. Jantamos juntos e ele nos passou várias dicas. No dia seguinte rumamos para a capital, Cidade do Panamá, distante a 360kms por uma novíssima “carretera” (estrada) de pista dupla, mas ainda com vários trechos em construção. Eram raros os postos de gasolina (me lembro de um) ou qualquer outro local que oferecesse bebida, almoço ou mesmo, alguma estrutura. O calor era sufocante, e sem alimentação apropriada, o Paulo começou a passar mal. Com a saúde debilitada, ele necessitava de uma boa alimentação e de forma constante, pois “sua bateria” descarregava com rapidez. Mas tudo ainda estava em construção, não havendo lugares em que eu pudesse parar para hidrata-lo e alimentá-lo. Quando sai de uma curva, logo avistei uma barraca de frutas. Parei imediatamente, mesmo que a contragosto do Paulo, que insistia em continuar em frente. Senti que era necessário parar ali mesmo e depressa. O retirei praticamente carregado do sidecar, levando-o para a sombra. Pedi ao vendedor para que providenciasse um abacaxi e mangas bem doces (hidratação, frutose (açúcar) e energia). Enquanto isso, encharquei uma camiseta com água e o banhei especialmente na cabeça, pescoço e tórax, pois era preciso diminuir sua temperatura corporal. Só então ele percebeu que realmente foi realmente melhor termos parado, pois a situação já beirava ficar crítica. Aguardamos um pouco para que ele se restabelecesse, para então retomarmos a viagem. Chegamos enfim à capital, arrumamos um hotel e procuramos o Bobby. Ele e seu amigo Kadir, foram de fundamental importância durante a nossa estada no país, nos dando todo apoio, inclusive com despachante aduaneiro, visto que a moto só poderia ficar legalmente no país por 90 dias. Fomos ao aeroporto, distante a 24kms do centro da capital, onde fizemos a pesagem da moto e um orçamento dos custos para enviá-la para a Colômbia. Para aqueles que não sabem, entre o Panamá e a Colômbia tem um istmo que é intransponível. Trata-se de uma região de matas muito fechadas e de terreno extremamente pantanoso. Não há uma estrada que conecte diretamente o Panamá à Colômbia devido à geografia e também por motivos políticos e ambientais. Além disso, é considerado um dos lugares mais perigosos do mundo, pois é habitada por comunidades quilombola, quadrilhas de criminosos e grande movimentação de traficantes, sendo indicado fortemente se evitar o lugar. Atualmente, muitos migrantes de diversos países (inclusive da África e Ásia) tentam cruzar o Darién a pé, em jornadas extremamente perigosas, com riscos de exploração, violência e até mesmo de morte. Essa travessia deve ser feita então por via aérea, ou por balsa, que demora demasiadamente para chegar ao outro país, e ainda não conta com rotas regulares e reconhecida falta de profissionalismo. Ficamos na capital panamenha por quatro dias, onde passamos momentos maravilhosos com nossos amigos. Nos mostraram a cidade e a região. Conhecemos outros grupos de motociclistas, todos sempre dispostos a ajudar, se necessário. 
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/qByYbqv6WTmHs5NQ7
Foto: https://photos.app.goo.gl/rWKPtGJfDDbN7ogg6
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/rySgdMXkYkFkRJes5
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/udqEmVcJ2p1HoXSz8
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/2k8bDwTZD8yMk1sv5

A Cidade do Panamá é moderna e pujante, muito pelo fato dos dólares que o país arrecada com a travessia Atlântico/Pacífico de navios de carga, pelo Canal do Panamá. Estima-se que alguns dos enormes navios cargueiros paguem valores bem altos pelo uso do canal, ultrapassando em alguns casos a casa dos milhões de dólares. Para se ter uma noção do quão inóspita é essa área, estima-se que mais de 25 mil pessoas tenham perdido a vida durante a construção do Canal do Panamá ao longo de 33 anos, sendo que as principais causas dessas mortes foram doenças como malária e febre amarela, além de acidentes de trabalho. 
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/5KyhDtp8CqRmUzhz9

Foi impactante ver a felicidade e a alegria que o Paulo transbordava durante nossa estadia. Fomos a uma conveniência de um posto de combustíveis e ficamos ali uma tarde inteira, até ao anoitecer, no calor da Cidade do Panamá. Juntaram-se muitos motociclistas da cidade, e o Paulo conversava com todos, ria a gargalhadas, contava histórias hilárias, ouvia atentamente outras tantas. Junto conosco estavam dois motociclistas argentinos, o pai Gilberto e o filho Kevin, que conhecemos ainda na fronteira de Honduras e Nicarágua. Também estavam recebendo a valiosa ajuda do Bobby e do Kadir. Gravaram até uma entrevista conosco para divulgar nossa história e a causa do Paulo, na Argentina. 
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/nR9CXaAEbqMdKjia6
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/oV4b7rRsGmrdgfDy8
Foto: https://photos.app.goo.gl/pkLLNMhEy1VBc7wd8
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/tC4upoWDdPmJHjy56

Mas, precisávamos retornar ao Brasil, pois ele precisava de tratamento, e eu, colocar minhas coisas em dia. O plano era o de voltarmos depois de 15 dias. Assim, pegamos um voo para o Brasil. Ao aterrissarmos na conexão em Bogotá, devido às lesões em seus pulmões, mal a porta do avião se abriu, os efeitos da descompressão atingiram ao Paulo de imediato, acusando os efeitos dos 2620 metros de altitude do lugar, resultando em muita falta de ar. Isso me fez imaginar se a viagem tivesse tido uma continuação, muito embora estivéssemos portando alguns cilindros de oxigênio conosco, o que seria do Paulo ao atravessarmos tramos (passagens por altas montanhas) acima dos cinco mil metros de altitude das cordilheiras bolivianas. Desceu da aeronave de maca e oxigênio.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/F5WF3Hqg4Lt6XQvm7

Fomos encaminhados a Autoridade Sanitária da Colômbia do local. Nossa conexão sairia em uma hora, mas os profissionais de saúde locais nos informaram que só seriamos liberados com a condição de aquisição de um concentrador de oxigênio, o que só aconteceu no início da madrugada. Situação normalizada, dormimos em um ótimo hotel nas cercanias do aeroporto, para onde retornamos bem de manhãzinha. Após 12 dias, 8 países e 7000 quilômetros de estradas, partimos enfim, para São Paulo. No Brasil continuamos a planejar a segunda parte mantendo a mesma empolgação, e ele foi internado para atualizar e prosseguir com seu tratamento e depois, conseguir liberação médica para nosso retorno ao Panamá e conclusão do projeto. Já havíamos combinado que ele ficaria em Lima, capital do Peru, seguindo de avião para Santa Cruz de la Sierra, no interior da Bolívia, evitando altitude e onde eu o reencontraria, seguindo com a moto. 

Fiquei chateado ao ver que após um tempo ele lia minhas mensagens, mas não as respondia mais. Passados trinta dias da nossa chegada, num domingo à noite aqui em Garça, recebi a ligação de uma amiga em comum, que mora na Espanha, informando da sua morte... Chorei sentido, lastimando imensamente essa perda. Nas nossas conversas, sempre francas, eu e o próprio Paulo, acreditávamos que ele teria ainda um pouco mais de tempo de vida, e que nada de ruim deveria lhe acontecer tão proximamente. Isso explicava o porque ele não respondia mais as minhas mensagens. Me dispus a trazer a moto da Cidade do Panamá até Salvador, finalizando o propósito maior desta viagem do Paulo. Porém, sua família preferiu evitar mais sofrimento, dando a viagem por encerrada, e optando por vendê-la ao amigo Kadir, do Panamá. Há algum tempo atrás, assistindo a um vídeo no Youtube de um artista de rua, o palhaço Karcocha, fui surpreendido e identifiquei “La Polly” -, como passou a ser chamada -, na Costa Rica, sendo pilotada por uma mulher, que imagino ser sua dona atualmente. Como eu era o único a saber de tudo o que se passou, de cada detalhe, de cada contexto e mesmo de pequenas histórias interessantes naqueles dias memoráveis de aventura, de vencer obstáculos custe o que custar, e mesmo assim optar por seguir em frente, por vezes tive um medo real de que algo ruim me acontecesse, e, pelo Paulo, eu levasse essa fantástica história de superação junto comigo. Por isso agradeci imensamente a oportunidade que a Revista Duas Rodas, através do seu editor, Cícero Lima, ao me proporcionar espaço para fazer um relato bem detalhado. Essa aventura acabou sendo publicada em duas edições, algo que só havia acontecido uma única vez desde criação da revista, em meados dos anos 70. Passados oito anos, ainda hoje eu recebo mensagens enviadas de colegas motociclistas da América Central, e também de reconhecimento, por parte de motociclistas brasileiros.

Conversando com a D. Cynthia Rossi, a mãe do Paulo, pedi a ela que fizesse um vídeo curto explanando o que essa viagem representou à família e ao seu filho, ao qual gentilmente me enviou não somente o vídeo, mas também fotos de vários momentos da vida do meu amigo.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/bLZ7JxaWQiApmt2B6
Foto: https://photos.app.goo.gl/gqs9gM8dYHLPVcAR7
Foto: https://photos.app.goo.gl/CvQWWeo6HqSkRjgL6
Foto: https://photos.app.goo.gl/QxroSZgszuPkADDH9
Foto: https://photos.app.goo.gl/rpzy6LxrnQ7x8nLc9
Foto: https://photos.app.goo.gl/sxuFRHg7TZGa9sHo7
Foto: https://photos.app.goo.gl/H8qgfbHf6JmyJ3fx8
Foto: https://photos.app.goo.gl/1ytK2JMBGuFJYGCW7
Foto: https://photos.app.goo.gl/zvZmc9ykmyr8SGPm6
Foto: https://photos.app.goo.gl/wb72uov6SSA22T9d9

Termino com as mesmas palavras com as quais iniciei a primeira parte desta matéria, e ainda mais convicto de que a beleza da vida é viver com intensidade e sem medo dos desafios! Afinal, um câncer é apenas uma vírgula, mas não um ponto final.
“Por vezes, a vida nos apresenta alguns desafios, que por mais que pareçam algo delicado, complicado e arriscado, deixam a nossa alma com um doce sabor de dever cumprido. Tive a honra de poder viver uma oportunidade assim.” 
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E vida que segue.
Até a próxima!

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