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“América Central: novos desafios, e uma explosão de cores e sorrisos – parte 3” — por Edgard Cotait

Entre fronteiras e sonhos: a travessia pela América Central em duas rodas, fé e coragem

Por: Redação Fonte: Edgard Cotait
01/08/2025 às 09h30
“América Central: novos desafios, e uma explosão de cores e sorrisos – parte 3” — por Edgard Cotait

Cansados, porém aliviados após as dificuldades para deixarmos o México, entramos, enfim, na América Central. Vindos desde Miami-EUA, e com destino à Salvador/BA, um turbilhão de pensamentos tomou conta de mim. Do propósito digno de um grande homem, que mesmo amputado de uma perna e acometido por um severo processo de metástase, especialmente nos pulmões, estava ali, se desdobrando, não apenas para concluir aquela que provavelmente seria a sua última viagem, mas também para servir de exemplo a todos os portadores de doenças graves. Aquilo não poderia ter acabado ali naquela fronteira mexicana, pois seguir em frente era a única opção. Me impressionava observar o Paulo não ter em momento sequer uma atitude negativa, demonstração de estar abalado, ou mesmo se comportando como um “coitadinho”. São raras oportunidades como esta que nós temos, e é inteligente aproveitar para aprender mais e mais sobre a vida. O Paulo, invariavelmente tratava bem a todas pessoas, porém com um carinho especial aquelas que tinham problemas físicos, caso desta senhora, também cadeirante, e que fez questão de lhe oferecer uma oração, ainda na área de fronteira México/Guatemala. 
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/CeAhk29VrWBrX1Co9

Dali para frente seria uma nova etapa. Viajar de moto pela América Central pode ser uma aventura incrível, mas também exige atenção a riscos específicos, como a presença de grupos armados, sendo que o mais conhecido é o “MARA”, ativos na guerrilha e presentes desde o México, e de quem muito provavelmente pertenciam aqueles dois jovens com os quais tivemos problemas logo ao entrarmos naquele país. Há ainda as gangues, como a MS-13, Barrio 18, atuantes em certas regiões. A dica é evitar regiões rurais muito isoladas, e especialmente à noite. Manter discrição ajuda a não parecer um alvo. A Costa Rica e o Panamá são os países mais seguros da região. Sendo a Costa Rica o único país da América Central sem exército, abolido em 1948. A paz e uma boa qualidade de vida está na cultura desse povo. Esta parte das Américas possui uma área territorial relativamente pequena, embora concentre um considerável número de pequenos países. Suas fronteiras são conhecidas pela morosa burocracia e imposição de dificuldades aos viajantes. É preciso paciência e calma para lidar com as pessoas envolvidas nestes trâmites. Uma dica é portar algumas cópias dos documentos principais. Pernoitamos em Malacatán, a primeira cidade da Guatemala.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/vHnGL5YbSvb9Jyw96
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No dia seguinte, encontramos as estradas guatemaltecas bastante desgastadas, esburacadas e invariavelmente mal sinalizadas, o que nos fez errar a rota por algumas vezes. Mesmo o GPS não tinha a precisão da qual é esperada desses aparelhos, indicando caminhos errados. A solução foi parar em algumas barreiras policiais, e perguntar o caminho correto, muito embora nem sempre fomos recebidos com boa vontade, persistindo nossas dúvidas de roteamento. As condições da rodovia faziam que andássemos em um zigue-zague constante em meio ao tráfego pesado. A Rodovia Pan-Americana -, a maior rodovia do mundo, e que será um assunto muito interessante para outra oportunidade -, não só na Guatemala, mas em todos os países centro-americanos, funcionam como o principal corredor de escoamento de cargas, ligação de viajantes entre o norte e o sul, e além do transporte de coletivos. A moto russa em que estávamos (Ural 750cc, com sidecar) se comportava bem, ainda que nem sempre fosse possível “casar” a distância entre os pneus da moto e do sidecar com o desenho dos buracos que a pista nos apresentava. Atravessamos várias pequenas e tranquilas cidades cortadas pela rodovia, com seu clima muito agradável. Mas foi preciso atenção especial aos desatentos motoristas locais. É comum mudarem de direção, saírem da pista do lado contrário sem ver se vinham outros veículos em manobra de ultrapassagem, ou mesmo entrarem na pista rapidamente e sem sinalizar. No começo, e até pegar o jeito, fomos jogados para o acostamento em algumas ocasiões. Não que esses motoristas tivessem maldade, mas apenas a maneira em que o trânsito local se moldou. Já em outros pontos, o tráfego era frenético e desordenado. Acredito que o calor constante que faz nesta região do planeta seja o responsável pela alegria contagiante das pessoas, sempre te recebendo com um sorriso estampado no rosto e sem barreiras. Esta alma tipicamente latina também se reflete nos veículos, e em especial, os de maior porte, como os caminhões adaptados ao transporte público, que são invariavelmente bem ornamentados, com diversos padrões de cores, mas sempre vivas, alegres e vibrantes.
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Entramos em El Salvador, porém só conseguimos sair da área de Aduana já ao avançar da noite. Optamos por um roteiro mais ao oeste, acompanhando o recorte do oceano pacifico. É comum que nos finais das tardes quentes, algumas espécies de pássaros executarem sua cantoria em uma algazarra e com alto volume, até incomodando em alguns momentos.
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Aduana feita, dormimos em um hotelzinho à beira da estrada. Tinham apenas duas camas com colchões desalinhados e disformes, além de um banheiro simples. Jantamos algumas barras de cereais, que também foi o nosso café da manhã. Sem problema, isso faz parte de todas aventuras. Com a intensidade das chuvas, que perduravam desde a saída dos Estados Unidos, nosso GPS principal deixou de carregar e de funcionar. Isso nos trouxe um problema considerável, ainda mais em uma região com pouca ou nenhuma sinalização, e com construção de vias, acessos e com saídas bastante desuniformes. Nem mesmo o aplicativo de GPS off-line do meu celular rodava. Descobri, depois, que faltava um arquivo de voz em castelhano, idioma local, o qual foi instalado já bem mais á frente, por falta de algum ponto de internet mais veloz. Mas, insisto em dizer, é justamente nessas ocasiões que sempre aparece a beleza do motociclismo. Estávamos sendo rastreados por um aplicativo de localização no meu celular, e mesmo do Brasil, via conversação pelo Whatsapp, o Luiz Cotait (meu irmão mais velho) e o amigo Cicero Lima, por diversas vezes fizeram o papel de um GPS, orientando ou corrigindo online nossas posições em relação às rotas desejadas, como por exemplo na confusa e desordenada saída de San Salvador, a capital de El Salvador. Também nos informavam sobre a tendência do clima do dia, nos alertando sobre chuvas fortes, comuns na região, além de incentivos que não deixavam que nos sentíssemos sós. Mais à frente, dentro de uma cidade, levamos uma nova “fechada nervosa e mal-intencionada”, nos empurrando contra o meio-fio. Desta vez, apenas desviamos, respiramos fundo e, seguimos em frente. Os postos de combustíveis mais isolados à beira das rodovias costumam ter segurança armada e por vezes, o Paulo, que gostava de interagir com todos, até fazia amizade e tirava fotos.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/5Q1qaCtotYgFt2kH7

Com sol e chuvas em abundância, as frutas locais costumam ser bem doces, saborosas e de visual convidativo. Algumas eram estranhas, e outras, de variedades diferentes das que temos no Brasil. Sempre que possível, adorávamos parar nestas barraquinhas de beira de estrada para nos hidratar e garantir o nosso almoço. É adequado o consumo de frutas em viagens, visto que são refeições sempre limpas, nutritivas, gostosas, que hidratam e fáceis de se encontrar.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/qSnQN1NVSGpieGe88
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Com chuvas intermitentes, o transito era pesado nas estradas salvadorenhas. Impressionaram o número daqueles tradicionais ônibus escolares americanos que descem a Pan-americana em longos comboios. Tratam-se de veículos que já trabalharam muito nas escolas americanas, e agora, bastante usados, são vendidos à países mais pobres, onde continuam a prestar serviços, dessa vez a alunos de outras localidades. E assim, chegamos à Honduras. Tramites realizados, nos deparamos com um país muito precário, o mais pobre pelo qual passamos.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/Cj3PUcjNA9ddEiSK9
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O Real Madrid havia acabado de ser campeão, e com o goleiro Keilor Navas, costarriquenho, jogando como titular da equipe. Percebi que em todos aqueles países haviam torcida por ele, independente de nacionalidade.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/r1146zPg21Z6ETZF7

As estradas eram as mais esburacadas pelo qual percorremos, até então. Algumas vezes era inevitável passar mais rápido do que deveríamos, caindo com a moto pesada em enormes “panelas” no asfalto. A sensação de insegurança se mostrou justificada, especialmente ao atravessarmos as pequenas e bem empobrecidas cidades hondurenhas, sendo minuciosamente observados e seguidos por grupos de ociosos moradores, com olhares nem sempre amistosos. Resolvemos evitar fazer paradas que não fossem apenas a de abastecimento. Nossa intenção era a de sair do país neste mesmo dia. Ao final da tarde, chegamos à fronteira com a Nicarágua. Mas pelo horário adiantado e a aduana fechada, foi preciso voltar 15 quilômetros até a pequena El Triunfo, que se situa fora do eixo da estrada principal, para pernoitarmos. Sem estrutura, dormimos sem jantar, novamente. Em condições adversas, invariavelmente sentimos pressão, insegurança, gerando estresse pelo desconhecido. Por isso é importante saber administrar a todos esses sentimentos de forma positiva, da melhor maneira possível, e seguir em frente. Foi o que sempre fizemos.
Após clarear, o dia se mostrava promissor. Sabe aquele dia em que você incorpora a plenitude, a positividade, e uma alegria contagiante toma conta de você? Também pudera: o dia amanheceu muito bonito, lindo mesmo, com um céu azul de marcar nossas retinas, sol de aquecer nossas almas, matas exuberantemente verdes e fechadas ao redor, pássaros em revoadas frenéticas e somente estrada para curtir. Inevitável a sensação de que todos os problemas já haviam finalmente passado. Ledo engano! Seguimos para a área de fronteira. Ainda na ala externa da aduana, um funcionário viu a moto adesivada, se aproximou, e nos fez várias perguntas. Sorridente, aquele senhor magro, de boné e roupas desbotadas, e com dentes de ouro aparentes, nos passava a sensação de simplicidade dos anos 40/50. Mas ele nos levou até a enfermaria local e aí mostrou suas intenções. Queria a qualquer custo que a enfermeira impedisse nossa entrada no país, alegando que o Paulo estava doente. Por mais que este insistisse, a enfermeira não concordava, dizendo que não se tratar de doença contagiosa. O clima chegou a ficar tenso entre eles. Pensei comigo “pronto, agora sim os problemas acabaram”. Mas logo percebi que definitivamente não, ao ver aquele senhor entrando apressadamente ao prédio principal da aduana. Preocupado, estacionei a moto com o Paulo debaixo de uma árvore, e logo ao entrar na área interna do prédio fui convocado para ir à sala dos oficiais aduaneiros. Eram dois militares patenteados, que fecharam a porta e começaram a me pressionar fortemente e insistentemente, questionando do porquê desejávamos entrar na Nicarágua. Queriam saber de tudo, onde eu trabalhava, há quanto tempo, minha ocupação no Brasil. Durante todo este interrogatório, mantive a calma de um monge tibetano, e respondi a cada pergunta olhando-os nos olhos, com serenidade e firmeza exemplar. Porém, uma das perguntas me preocupou bastante: onde estava o carimbo nos passaportes da nossa passagem pelo México? Esta eu apenas enrolava e desconversava, pois era apenas o que eu podia fazer. Disseram que iriam ligar para a empresa em que eu trabalhava, pediram meus dados, o telefone e o e-mail. Imaginei que talvez quisessem propina, mas definitivamente não seria eu que cometeria a loucura de oferecer-lhes vantagens. A cada vez que a porta da sala era aberta, eu via crescer o número de pessoas buscando autorização para adentrar ao país, num falatório incompreensível. Após um longo tempo, pediram que eu deixasse a sala. Me sentia aflito com o Paulo, que estava sem alimentação, e certamente decorrido tanto tempo, já estaria exposto ao sol. Porém, se eu me afastasse do local, poderia perder a preferência da fila. Mas a preocupação foi maior, sai ligeiro do prédio e fui até ele, que realmente já estava debaixo do sol, cheio de perguntas, e preocupado comigo. Mas eu pedi desculpas, pois não havia tempo para lhe explicar tudo o que estava acontecendo. Reposicionei a moto à sombra, pedi a uma moça que vendia produtos na área para que cuidasse dele durante a minha ausência, e retornei para a frente da sala dos oficiais. Entre nós, motociclistas de estrada, eram conhecidas histórias de colegas que já haviam perdido suas motos nessa aduana. Já tinha decorado algo para argumentar, puxando pelo emocional e, baseado na situação de saúde do meu amigo e suas condições físicas, iria chama-los para ir conversar com o Paulo. Muitas ideias me vieram à cabeça nessa hora. Quando a porta se abriu, “atropelei” alguns que ficaram à minha frente, me aproximei do oficial e comecei dizendo-lhe com humildade “Señor, por gentileza...”. Mas ele não me deixou terminar a frase, mal me olhou, entregou nossa documentação, autorizando-me para prosseguir com a papelada de entrada. Quatro desgastantes horas naquela situação se passaram, mas tudo bem, o que importa é que havíamos entrado na Nicarágua. Paramos na cidadezinha ao lado daquela fronteira para a troca de um dos pneus. 
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/5HuiP55GoPHkWJCv8

Percorremos 45 quilômetros de uma estrada péssima, e surpreendentemente chegamos a uma rodovia de construção recente e moderna, pista dupla, repleta de curvas, asfalto impecável e pouquíssimo tráfego. Quando eu vi aquilo tudo, não aguentei. Abri o acelerador com gosto e a “russa” obedeceu eficientemente a cada comando. Eu me sentia mais habituado a moto, e o Paulo vibrava a cada curva feita no limite. Como já foi dito, embora hajam semelhanças com as motocicletas, os conceitos de pilotagem se diferem bastante pela ausência de pêndulo eficiente nas execuções das curvas, quanto mais numa tocada agressiva, com a moto tendendo a sair de frente. O visual nos apresentava ao paraíso. Vou tentar reproduzir um pouco daquilo que víamos para vocês. Estávamos num campo com palmeiras a perder de vista, lindas pastagens de um verde escuro marcante, vários pequenos morros, pontes bem construídas, alguns alagados e várias silhuetas de vulcões podiam ser vistas ao longe. Tudo muito lindo. 
Vídeo. Notem a fumaça sendo expelida por esse vulcão: https://photos.app.goo.gl/MVWHfd42qi7ozbXa7

Conhecemos a confusa capital Manágua. Ao sul do país, a estradas voltaram a ter pista simples, mas sempre com bom asfalto. Passamos por dois grandes lagos. O maior deles, o Cocibolca, é realmente colossal e exuberante. O nome desse lago refere-se a dois vulcões que estão localizados na ilha que fica no centro do lago. Um deles é o Concepción, que é conhecido por sua atividade vulcânica, enquanto o Maderas já está inativo. A estrada que o circunda é ladeada por um sem número de coqueiros.

Vídeo. O vulcão Concepción, no centro da ilha: https://photos.app.goo.gl/m8TF3Rws21iQhr9L6

Deixamos a Nicarágua naquele mesmo dia, dormindo em solo costarriquenho.
E já prontos para as novas etapas que viriam pela frente.

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