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“As Três Marias...” — por Edgard Cotait

Uma travessia épica de moto pelas trilhas da Bolívia até o coração do maior deserto de sal do mundo: aventura, superação e uma noite inesquecível sob o céu de Uyuni.

Por: Redação Fonte: Edgard Cotait
03/06/2025 às 20h09 Atualizada em 25/07/2025 às 07h29
“As Três Marias...” — por Edgard Cotait

Eu e o meu amigo André Luiz dos Santos, companheiro de várias viagens, havíamos dormido na cidade de Tupiza, no sudoeste da Bolívia, já nas Cordilheiras dos Andes. Saímos bem cedo com destino a Uyuni por uma bela estrada, na época, em off-road, e mesmo assim, com um pedágio arcaico. Após uma noite e manhã chuvosas, enfrentamos barro e lama desde a saída de Tupiza, e levando-se em conta que o solo das cordilheiras são bastante argilosos, deixaram a estrada literalmente “um sabão”, ou praticamente um parque de diversões. Como nossas motos estavam em configuração de viagem, portanto bem pesadas, adotamos uma pilotagem mais técnica e delicada. As subidas mais íngremes exigiam paciência, pois patinavam demais, condições que foram melhorando no decorrer do dia, com um sol tímido entre nuvens e sem novas chuvas. Enfrentamos outro imprevisto que são dois pequenos rios, normalmente sem importância, mas que devido ao excesso de chuvas, estavam sem suas pontes e com níveis acima do normal. Acredite, tudo isso em um deserto. No primeiro deles, a moto do André atolou até a altura do motor, dando trabalho para retirá-la dali até a um local firme. Especialmente o segundo, localizado a apenas 36 quilômetros da cidade de Uyuni, que deu início a um quebra-cabeças: fundo e com uma “correnteza nervosa”, logo ao chegarmos nos deparamos com vários veículos de grande porte parados, entre os quais ônibus, caminhões e camionetes 4x4. Estavam aguardando acalmar a força da correnteza, ou alguém que estivesse disposto a ser o “boi de piranha” da turma, ou seja, que servisse de teste para avaliarem a melhor maneira de passar, ou dependendo do resultado, até mesmo se seria possível passar. Porém ninguém se atrevia, aumentando nossa preocupação, pois o relógio andava rápido e sem opções para dormir, só nos restaria armar as barracas à beira da estrada, situação que queríamos evitar. Assim resolvemos tomar a iniciativa, começando a pesquisar o entorno da área. Mais acima do leito da estrada e da ponte destruída, o André entrou no rio para verificar os níveis de profundidade (estavam acima dos joelhos), e a qualidade e o tipo do piso, tentando encontrar um local adequado para atravessarmos. Chegamos à conclusão que num determinado ponto poderíamos descer por um barranco acessível na margem do rio, depois pilotar por aproximadamente 150 metros rio acima e contra a correnteza, pois seria a única forma de alcançarmos o outro lado em um lugar onde também havia um barranco mais baixo, para que nossas motos pudessem finalmente subir do outro lado do rio. Somente com essa alternativa, eu fui primeiro, e graças a Deus tudo correu como planejamos. Repetimos o mesmo procedimento com a moto do André. Numa altitude com mais de 3600mts, que causa falta de ar e sensação de cansaço após qualquer esforço físico, ainda estávamos ao lado das nossas motos, e de imediato, as 4x4 e outros veículos maiores começaram a copiar o mesmo percurso. Com tudo certo, pudemos, enfim, seguir para Uyuni.
No outro dia, fizemos uma compra de água e mantimentos, e seguimos para o Salar de Uyuni. Com aproximadamente 12.500 km² de área, este é o maior deserto de sal do planeta, inclusive tendo sido visto desde a Lua pelos astronautas. Sua extensão se distribui por dois departamentos (estados) do país: Potosí e Oruro. Para se ter uma noção do tamanho do lugar, há partes com 130 quilômetros de distância entre uma borda e a outra. Como é de se supor, o silêncio é praticamente absoluto, podendo se ouvir apenas o vento. Além da total ausência de animais, ou mesmo, insetos, pois é óbvio que nenhum animal suportaria atravessar essa distância sem água ou alimentos, o que o torna um lugar completamente estéril. Em pleno altiplano andino, e com média de 3.660m de altitude, tem grande importância econômica regional, não só através do turismo, como também pela extração do mais puro sal, propriamente dito. Também tem considerável importância por conter um metal nobre, o Lítio. Este metal é largamente utilizado em equipamentos eletrônicos portáteis e em veículos elétricos devido à sua alta densidade energética e vida útil. Ali, estima-se conter 70% das reservas mundiais. 
No verão andino é quando se inicia o período de chuvas e também o degelo das altas montanhas próximas. Isto deixa o Salar coberto por uma lâmina de água com profundidade média de 25/30 cm, tornando-o então, mais acessível entre abril e novembro. Era o final do mês de dezembro de 2013, e cientes deste fato, desde São Paulo estávamos preocupados com a possibilidade de não conseguirmos adentrá-lo por estar inundado. Nossa intenção principal era a de acamparmos no meio da imensidão do Salar de Uyuni. Fomos pesquisando com os jipeiros desde Tupiza, mas como sempre só obtínhamos respostas evasivas, porque na Bolívia nenhuma informação é plenamente confiável. Mesmo na beirada do Salar, paramos uma 4x4 de turismo que estava de saída, e o motorista boliviano nos disse que estava inundado até a altura da cintura. Essa informação nos desanimou imensamente. De fato, de onde estávamos só enxergávamos um espelho d’água. Discutimos brevemente a situação, se deveríamos prosseguir ou não. Eu ponderei que toparia entrar, mas o André disse que não estava disposto a colocar sua moto zero km naquele sal e na salmoura. Ficamos ali, calados e pensativos por alguns minutos, olhando para dentro do Salar. O silêncio só foi quebrado pelo barulho do motor de partida da moto do André, seguido de um firme e decidido “Bora! Já viemos até aqui.”. Era tudo o que eu queria ouvir. 
Andamos cuidadosamente por mais de 1500 metros em uma área alagada, até que... BINGO! Chegamos ao seco. Leia-se como “seco”, uma área com piso úmido, porém sem a presença de água. Nosso destino inicialmente foi o Hotel de Sal, a 7km da borda. Em cada recanto da terra, o homem se ajusta às condições e com as ferramentas que tem. No ártico, os esquimós constroem suas casas usando blocos de gelo. No deserto, usando areia. Nas montanhas, com pedras. Nas florestas, madeira. E no Salar, não seria diferente: o Hotel de Sal Playa Blanca é todo feito com blocos escavados no sal, dos tijolos aos móveis do seu interior, como cadeiras, mesas, camas e ainda algumas estátuas feitas também de sal. Era a terceira vez que eu estava no hotel, sempre o encontrando em diferentes condições de funcionamento. Desta vez, embora passando por uma grande reforma e ampliação, estava fechado para estadia, mas com o interior aberto para visitação e venda de souvenires e gaseosas (refrigerantes). De lá, seguimos para a Isla Incahuasi, uma elevação rochosa distante a 66 quilômetros em linha reta do hotel, e onde encontram-se uma grande quantidade de cactos gigantes. Porém, há 27 km daquele local, o chão começou a ficar cada vez mais úmido e logo depois, surgiu uma fina lâmina de água salgada, que voava para os motores das nossas motos. Achamos melhor abortar aquele passeio, visto que ambos já conhecíamos a Isla.
Seguimos então para o local escolhido para o acampamento. Durante a fase de planejamento, estudamos um ponto ermo e remoto, para montarmos nossa base, marcando-o entre os nossos waypoints (ponto de referência salvo no GPS). E para lá que seguimos, onde in loco, constatamos realmente tratar-se de um local perfeito e seguro, por estar longe da visão de outros possíveis viajantes do Salar. Durante a montagem das barracas, de tão endurecido, não conseguimos introduzir os pinos de fixação no chão de sal, tendo de mantê-las amarradas às nossas motos. Já antes de escurecer, estavam devidamente montadas. Aquele estava sendo um dos grandes momentos das nossas vidas. A sensação de isolamento absoluto, de solidão e de vastidão, aflora um sentimento, um tanto diferente e interessante. Nas nossas retinas serão inesquecíveis as nuances de cores que o pôr-do-sol nos presenteou, refletindo sobre os cristais de sal, que nos devolveram num delicado tom alaranjado e ao sumir de vista. Mas nem tudo foi alegria. Por tratar-se de uma área imensamente descampada, mal o sol se pôs e o vento aumentou demasiadamente, assim como um frio muito intenso mostrou "suas garras". Além disso, teríamos uma noite bem “punk”, com o desconforto de dormirmos praticamente no chão duro e suas imperfeições. A recompensa veio com a noite, onde pudemos apreciar a absurda quantidade de estrelas no céu de Uyuni, coroando aquele momento memorável. Sem que nenhuma iluminação das cidades nos atrapalhasse a visão, as primeiras a aparecer foram as conhecidas “Três Marias”. Esse é nome popular de um asterismo de três estrelas que formam o cinturão da constelação de Orion. Estas estrelas são facilmente identificáveis no céu, pelo brilho, por estarem sempre alinhadas e distantes harmoniosamente umas das outras. Hoje em dia, da janela do meu quarto, frequentemente vasculho o céu, procurando-as, para poder contempla-las e rememorar aquela noite fantástica. 
Como o período era mesmo muito chuvoso e com presença de nuvens pesadas em algumas direções, o céu ainda estava carregado. Mas não escapamos sem um susto, quando uma luz forte apareceu à altura do horizonte, invadindo nossas barracas após nos recolhermos, passando a impressão de que era o farol de algum carro se aproximando. Chamei o André num grito, pois isolados, logo imaginei uma camionete apinhada de bandidos armados na carroceria, vindo em nossa direção.
Era a lua dando o ar da graça...

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