
O Brasil registrou um aumento de casos de febre maculosa entre 2023 e 2025, com maior concentração na região Sudeste, principalmente São Paulo e Minas Gerais. No estado de São Paulo, o painel de monitoramento registrou, no ano de 2025 até janeiro de 2026, um total de 57 casos confirmados de febre maculosa. Todo ano no Brasil são registrados centenas de casos de febre maculosa com dezenas de mortes.
O estado de São Paulo e Minas Gerais são as regiões de maior incidência da doença. O interior de SP se destaca nessa seara, e aqui a transmissão está associada ao carrapato-estrela, cujos principais hospedeiros são cavalos, antas e capivaras.
Segundo o médico infectologista Luiz Euribel Prestes Carneiro, pesquisador da Universidade Estadual Paulista (Unesp): “É importante ressaltar que esses dados não são reais, uma vez que a febre maculosa é subdiagnosticada em todo o país e o número de pessoas infectadas com certeza é maior que os dos dados oficiais”.
A transmissão ao ser humano ocorre pela picada do carrapato infectado com a Rickettsia, sendo necessário que o artrópode fique aderido à pessoa por um período médio de 4 a 6 horas. Todos os estágios de desenvolvimento do carrapato são passíveis de transmitir a febre maculosa ao ser humano. Porém, menos de 1% dos carrapatos-estrela estão contaminados com a bactéria que causa a doença, portanto, apenas o contato com carrapato não significa uma infecção no indivíduo.
O município de Campinas confirmou novas mortes por febre maculosa referentes ao ano de 2025, no total de seis óbitos no ano passado, com todos os casos evoluindo para morte. A doença, transmitida pelo carrapato-estrela, exige atenção redobrada em áreas de mato e com capivaras. A Secretaria de Saúde alerta para a necessidade de atendimento médico rápido ao apresentar febre alta, dor de cabeça e dores no corpo. Importante ressaltar que já houve registros de casos de febre maculosa nas regiões de Bauru, Marília e Assis. Felizmente, até o momento, não há registro da doença em Garça, mas isso não quer dizer que estamos fora da zona de perigo.
Nós, pirambeiros e amantes da natureza, sempre estamos em contato com locais de mata e estamos sujeitos a essa ameaça.
Por isso, é importante saber: quais cuidados devemos ter para evitar a febre maculosa?
Não necessariamente todos os carrapatos carregam essa bactéria, ele tem que estar contaminado com ela, e a capivara é um hospedeiro “ideal” para sua propagação.
No caso, não existe vacina para a febre maculosa, então o cuidado que devemos ter é sempre verificar, após a trilha, se há algum carrapato grudado no corpo e fazer a retirada (o mais rápido possível), com cuidado para que nenhuma parte permaneça encravada.
Muitos recomendam que a pessoa que vai a uma trilha utilize camisas de mangas longas e calça cobrindo a maior parte do corpo. Porém, nos casos dos ciclistas que fazem trilha isso se torna inviável. Portanto, o que se recomenda é a utilização de um repelente mais forte, como o Exposis Extreme (que também é indicado para proteção contra febre amarela e dengue).
Muito importante nos casos de febre maculosa é o diagnóstico precoce da doença, já que ela possui sintomas muito parecidos com a dengue, gripe, zika etc.
Então, se você frequentou áreas de mata e tem febre alta, não descarte a febre maculosa, já que, tratada com antibiótico nos sintomas iniciais, dificilmente evolui para óbito.
Nos casos recentes em Campinas, o tempo para o diagnóstico custou a vida dessas pessoas, já que o resultado do exame foi confirmado apenas após a morte, assim como ocorreu em outros diversos casos de óbito por febre maculosa no Estado de São Paulo.
O Carrapato-Estrela, o vetor da febre maculosa
Como posso evitar a doença?
• O carrapato-estrela é encontrado naturalmente em gramados e matas, em especial nas áreas próximas a rios, lagos e lagoas. Se estiver contaminado, pode transmitir a bactéria que causa a febre maculosa;
• Evite caminhar, sentar e deitar na grama e nos locais com acúmulo de folhas secas caídas. Os carrapatos se concentram em áreas de sombra;
• Evite se aproximar de rios, lagos, lagoas e dos animais presentes no local;
• Faça piquenique, comemoração, ensaio fotográfico e atividade física nas áreas pavimentadas;
• Use roupas claras, observe o corpo e as roupas. Se algum carrapato chegar até você será mais fácil enxergar;
• Use repelente com eficiência comprovada contra carrapatos. Passe na pele exposta, sapato e roupa;
• Encontrou um carrapato aderido na pele? Retire com cuidado, sem esmagar, de preferência usando uma pinça, e lave o local com água e sabão;
• Em casa, tome banho quente e use bucha vegetal fazendo movimento circular. Se tiver algum carrapato na pele, a bucha ajuda a retirar;
• Ao visitar áreas verdes e parques, respeite as orientações das placas de informação;
• O carrapato de cachorro não é da mesma espécie do carrapato-estrela. Porém, se o seu pet frequenta área de risco, ele pode ser infestado pelo carrapato-estrela e levá-lo para casa.
Por que a doença recebe esse nome?
Por dois motivos: o primeiro, por causar um quadro de febre no paciente, e em segundo, por poder provocar o aparecimento de manchas avermelhadas na pele, conhecidas como máculas.
Quando o carrapato estiver numa pessoa, deve ser removido o mais rápido possível, com os seguintes cuidados:
• Use uma pinça de ponta fina para segurar o carrapato o mais próximo possível da pele;
• Puxe para cima com pressão constante e uniforme. Não torça ou empurre o carrapato;
• Depois de remover o carrapato, limpe a área da picada e as mãos com álcool isopropílico ou água e sabão.
Tratamento: deve ser instituído precocemente nos casos suspeitos, sem necessidade da confirmação laboratorial do caso. A precocidade do início do tratamento é determinante na diminuição da letalidade. O principal medicamento utilizado é o antibiótico Doxiciclina ou Cloranfenicol; de forma complementar, também são utilizados analgésicos e antitérmicos para alívio dos sintomas de dor e febre. O tratamento dura cerca de 7 dias, estendendo-se por até 3 dias após o fim da febre.
Os principais sintomas da febre maculosa são:
• febre;
• dor de cabeça intensa;
• náuseas e vômitos;
• diarreia e dor abdominal;
• dor muscular constante;
• inchaço e vermelhidão nas palmas das mãos e sola dos pés;
• gangrena nos dedos e orelhas;
• paralisia dos membros que inicia nas pernas e vai subindo até os pulmões, causando parada respiratória.
A Secretaria de Saúde reforça a importância para que as pessoas que apresentem os sintomas busquem ajuda médica o quanto antes — dos seis casos registrados em 2025, todos evoluíram para óbito, com 100% de letalidade. “A febre maculosa tem cura, mas o tratamento precisa ser iniciado logo nos primeiros dias de sintomas para evitar agravamento e possível óbito”, enfatiza, em nota.
Na febre maculosa brasileira, o período de incubação, desde a picada do carrapato até a manifestação dos sintomas, é de 2 a 14 dias.
Período de maior risco de febre maculosa
A sazonalidade exerce grande influência na infecção pela doença. O maior número de casos é verificado entre junho e novembro, coincidindo com o período de maior atividade do carrapato-estrela, principal vetor da Rickettsia rickettsii, e concomitantemente com o maior contato do homem com o artrópode.
O grau de letalidade é alto?
Sim. Apesar de ser considerada uma doença de baixa frequência, a taxa de mortalidade é elevada devido à agressividade da Rickettsia rickettsii para o organismo humano, falta de diagnóstico adequado e de tratamento precoce. No estado do Rio de Janeiro, por exemplo, nas últimas décadas praticamente todos os casos de óbito por febre maculosa tiveram o diagnóstico inicial de dengue. Diante de um caso suspeito, deve-se coletar o sangue para a análise laboratorial e iniciar o tratamento imediatamente, mesmo sem a confirmação laboratorial. No Brasil, as taxas de letalidade giram em torno de 20% a 30%; entretanto, quando não tratada, pode apresentar taxa de letalidade de 85%.
Garça no mapa da febre maculosa
A cidade de Garça infelizmente está no mapa das regiões críticas para a transmissão da febre maculosa.
O Ministério da Saúde disponibiliza, via Google Maps, as áreas onde mais ocorre a doença e Garça está nessa região. Por isso, devemos ter cuidado redobrado com os carrapatos e, principalmente, observar sintomas da doença para ter um diagnóstico rápido.
A Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal da Saúde confirmou três casos positivos, dois deles com óbito, e todos apresentaram sintomas após circularem pela zona rural do Distrito de Avencas, ou seja, o perigo está mais perto de Garça do que se imaginava. Portanto, todo cuidado é pouco por se tratar de uma doença com alta letalidade e de difícil diagnóstico precoce.
Vicente Aranha Conessa e Rudi Ribeiro Arena