
Abre tua mão para o teu irmão
O mês de setembro para Igreja Católica no Brasil é dedicado ao estudo e contemplação da Palavra de Deus nas Sagradas Escrituras. A Bíblia, a partir do Concílio Vaticano II com o documento Dei Verbum (Palavra de Deus), tem um lugar privilegiado na igreja, na família, nos círculos bíblicos, na catequese, nos grupos de reflexão e comunidades eclesiais, bem como é um pilar na evangelização. Desde 1971, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) pela atual comissão episcopal para animação Bíblico-Catequética destaca um livro bíblico para estudo e meditação. Este ano de 2020 foi escolhido o livro de Deuteronômio, com o lema “Abre tua mão para o teu irmão” (Dt 15,11). É um livro bíblico rico em reflexões morais e éticas, com leis para regular as relações com Deus e com o próximo. Destaca-se a preocupação em promover a justiça, a solidariedade com os pobres, o órfão, a viúva e o estrangeiro.
O título deste livro, “Deuteronômio”, deriva da tradução da Bíblia grega deuteronomion, que significa “segunda Lei” ou “cópia da Lei”. Este título é baseado na tradução não exata de Dt 17,18. Na Bíblia hebraica, o título do livro baseia-se em Dt 1,1: Devarim, que significa “estas são as palavras”. De fato, o título “Deuteronômio” combina melhor com o conteúdo do livro, pois contém uma segunda legislação: o Decálogo (os dez mandamentos) e o Código da Aliança. Trata-se da segunda Aliança que Moisés fez com Israel em Moab, na entrada da Terra Prometida. Assim, o título da tradução grega se justifica no fato de o livro refletir e incorporar textos de livros precedentes. Por exemplo, 20% da seção Livro da Aliança são de Êxodo (20,23-23,33). Deuteronômio é o quinto livro da Bíblia, faz parte do Pentateuco (Cinco primeiros livros) encerrando-se, assim, a Torá hebraica, e é a parte mais antiga da Bíblia a ser considerada canônica.
O Deuteronômio se apresenta composto de vários discursos de Moisés, como testamento espiritual, pronunciado antes de sua morte em Moab (Dt 1,5), antes do povo hebreu ingressar na terra prometida. Trata-se de um aprendizado, uma pedagogia da liberdade e da justiça, afim de construir uma sociedade em aliança fiel a Deus que liberta e dá a vida para todos. Recordemos que a lei instrui, aponta e ilumina o caminho para realizar a vontade de Deus. Esta se expressa no mandamento máximo do amor, que se resume: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo coração” (Dt 6,5). Este mandamento do amor a Deus junto ao mandamento no Levítico: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18), forma o grande mandamento de Jesus, resumo de toda a Lei e dos Profetas (Marcos 12,31). Assim como Deuteronômio é o testamento espiritual de Moisés, o mandamento novo do amor é o testamento deixado por Jesus a seus seguidores, antes de sua paixão e ressurreição. Para tanto, o livro de Deuteronômio se apresenta como um longo e dramático apelo à conversão, dirigido à liberdade de escolha entre o Deus vivo e os ídolos, entre a liberdade e a escravidão, entre a vida e a morte.
A reflexão e meditação deste livro no Mês da Bíblica deste ano quer olhar nossa realidade eclesial e social e está em sintonia com vários eventos e situações. Destacamos alguns que devem ser levados em conta para iluminar nossa leitura e interpretação de Deuteronômio: o aumento da pobreza em nosso país, os cortes das políticas e programas sociais, o desemprego crescente, a ameaça dos povos da Amazônia por grandes projetos econômicos, a disseminação de fake News que criam um clima de intolerância, discriminação, conflitos e maldades; o crescimento de migrações, o aumento da destruição da floresta amazônica, as eleições municipais, as crises e a mudança de época. Destacamos também a sintonia desta reflexão com a Campanha da Fraternidade que teve como tema “Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso”.
Por fim, a meditação de Deuteronômio quer ajudar a refletir a realidade em que vivemos. O lema “Abre a mão para teu irmão”, significa que não basta ver a realidade dos pobres e sentir piedade. A Palavra de Deus exige atitudes concretas. Moisés exortou os hebreus a olhar o passado escravo no Egito e viver na liberdade, sem repetir os erros que os escravizaram e sem escravizar outros. O sonho projetado por Moisés faz eco nas palavras de Jesus: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (João 10,10). Escolhe hoje a fidelidade à Deus e escolherá a vida, e seja solidário estendendo a mão para o teu irmão.
Pe. Anderson Messina Perini
Pároco da Paróquia São Pedro Apóstolo de Garça