Terça, 15 de Junho de 2021
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Geral

“Louvado Seja”: Conceitos principais da encíclica social do Papa Francisco

Texto do Padre Anderson Messina Perini, Pároco da Paróquia São Pedro Apóstolo de Garça

09/06/2021 11h33
Por: Francisco Alves Neto Fonte: Da redação
“Louvado Seja”: Conceitos principais da encíclica social do Papa Francisco

Faz seis anos que o Papa Francisco publicou sua carta encíclica social de cunho ecológico com o titulo latino Laudato Si’, que significa “Louvado Seja”, expressão do cântico das criaturas do santo de grande influência no Ocidente no segundo milênio São Francisco de Assis. Nesta encíclica, o papa defende sete conceitos importantes que faz repensar nossa maneira como lidamos com a natureza e sua relação com o ser humano. Diante do desmatamento crescente na Amazônia e os problemas que envolvem setores da economia, da sociedade e questões ecológicas, vale apenas lermos e aprofundarmos essas ideias que revolucionam o nosso modo de pensar nossa relação com toda a Criação:

1.      Casa Comum: esta expressão, já presente no título da encíclica chama atenção, pois o papa menciona que nosso planeta Terra é nossa casa comum, a casa para habitação de todos e de responsabilidade de todos. Francisco recorda o santo italiano dizendo que no cântico das criaturas nossa casa comum é tanto irmã quanto mãe. É nossa irmã, pois dela partilhamos nossa existência, nosso corpo é composto de elementos de nosso planeta. É nossa mãe, pois nos acolhe para nela habitarmos, e todos os que nelas habitam, sejam homens, animais, plantas e toda a criação estão interrelacionados.

2.      Ecologia Integral: isso significa que tudo em nosso cotidiano está interligado. Nossos problemas atuais devem olhar de forma total com a crise mundial que estamos passando, abrangendo as questões humanas, culturais, econômicas, sociais e ecológicas. O nosso bem comum depende dessa relação de uma ética social unificadora e compreensão de uma justiça intergeneracional.

3.     Tudo está interligado: este conceito é explicado a partir da própria ciência, como diz Francisco: “O tempo e o espaço não são independentes entre si; nem os próprios átomos ou as partículas subatómicas se podem considerar separadamente. Assim como os vários componentes do planeta – físicos, químicos e biológicos – estão relacionados entre si, assim também as espécies vivas formam uma trama que nunca acabaremos de individuar e compreender. Boa parte da nossa informação genética é partilhada com muitos seres vivos. Por isso, os conhecimentos fragmentários e isolados podem tornar-se uma forma de ignorância, quando resistem a integrar-se numa visão mais ampla da realidade” (LS, 138). Deste modo, ocorre com o meio ambiente e o ser humano: “a relação entre a natureza e a sociedade que a habita. Isto impede-nos de considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida. Estamos incluídos nela, somos parte dela e compenetramo-nos” (LS, 139).

4.     O Ser Humano como guardião da Criação: Francisco impõe este conceito como responsabilidade dos cristãos que parte da vocação humana desde a Criação e faz parte de uma existência virtuosa. Parte da fé cristã a colaboração do homem com Deus para ser seu cocriador. Vai contra este conceito a ideia do homem como dominador da natureza, pois isto é uma violência à criação e um atentado de se colocar no lugar de Deus, não sendo seu colaborador, o que provoca a revolta da natureza.

5.      A crise ecológica e sua raiz humana: o cenário da globalização e o paradigma tecnocrático é o modo como hoje a sociedade se desenvolve. Infelizmente, é um paradigma homogêneo e unidimensional, do qual o sujeito progressivamente, de forma lógico-racional, se apropria de um objeto que encontra fora dele. Nesse processo o sujeito toma posse, domínio e o transforma, como se a realidade estivesse disponível a manipulação. Outra crítica e crise é a cultura ecológica que busca soluções urgentes e parciais a degradação ambiental. O olhar deveria ser diferente onde se propõe uma política, uma educação, um estilo de vida, uma espiritualidade que superam a cultura tecnocrata.

6.      A conversão ecológica: é um apelo do papa a todos: da crise ecológica se visa uma conversão: ecológica, comunitária e que cria um dinamismo novo e duradouro. Temos de reconhecer também que alguns cristãos, até comprometidos e piedosos, com o pretexto do realismo pragmático frequentemente se burlam das preocupações pelo meio ambiente. Outros são passivos, não se decidem a mudar os seus hábitos e tornam-se incoerentes. Falta-lhes, pois, uma conversão ecológica, que comporta deixar emergir, nas relações com o mundo que os rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus. Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa” (LS, 217).

7.      Do consumismo a um novo estilo de vida: o Papa Francisco ressalta que o paradigma social deve mudar e para isto a humanidade precisa tomar novo rumo, que tenhamos consciência de nossa origem comum, de uma reciproca pertença e de um futuro compartilhado por todos. É necessário o desenvolvimento de novas convicções, atitudes e um novo estilo de vida. E para este grande desafio é urgente um processo longo de regeneração cultural, espiritual, econômico e educativo. A cultura tecno-econômico e o consumismo obsessivo destrói o homem e a natureza onde habita. Devemos tomar frente a um novo estilo de vida de sustentabilidade e de justiça social.

Termino recordando as palavras de Francisco por uma espiritualidade cristã que visa o homem de forma integral: “A espiritualidade cristã propõe uma forma alternativa de entender a qualidade de vida, encorajando um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de gerar profunda alegria sem estar obcecado pelo consumo (LS 222)” […] “A sobriedade, vivida livre e conscientemente, é libertadora. Não se trata de menos vida, nem vida de baixa intensidade; é precisamente o contrário. Com efeito, as pessoas que saboreiam mais e vivem melhor cada momento são aquelas que deixam de debicar aqui e ali, sempre à procura do que não têm, e experimentam o que significa dar apreço a cada pessoa e a cada coisa, aprendem a familiarizar com as coisas mais simples e sabem alegrar-se com elas” (LS, 224).

 

Fonte: CNBB

 

 

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