Geral Opinião
Quero misericórdia e não sacrifício - por Padre Anderson
Veja artigo escrito pelo Pe. Anderson Messina Perini, Administrador Paroquial da Paróquia Jesus Bom Pastor de Santo André
03/06/2026 12h22
Por: Redação Fonte: da redação

Depois de celebrarmos o tempo da Quaresma e da Páscoa, retomamos a segunda parte do Tempo Comum, quando meditamos os mistérios da Luz: o ministério de Jesus, seus ensinamentos e milagres. A liturgia do 10º Domingo do Tempo Comum nos convida a refletir sobre o espírito com que devemos viver a nossa religião. Essa vivência não pode se reduzir ao cumprimento externo de mandamentos e de atos de culto. A religião deve ser baseada na misericórdia de Deus e vivida com espírito de autenticidade e acolhida. As leituras ilustram essa verdade com alguns exemplos.

Na Primeira Leitura (Os 6,3-6), o profeta Oséias exorta o povo à conversão. Israel, diante do perigo iminente de uma invasão síria, começou a oferecer muitos sacrifícios para “controlar” Deus. Mas a conversão não era sincera, nem perseverante. Por isso, o profeta denunciou, com uma imagem muito bonita: Como vou tratar-te, Judá? O vosso amor é como nuvem pela manhã, como orvalho que cedo se desfaz” (v.4). E acrescentou: “quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos” (v.6).

Deus não defende uma religião sem culto, mas reprova um culto vazio de espírito, de verdade e de vida. Deus quer um coração verdadeiramente em comunhão com Ele e capaz de gestos concretos de amor, de ternura, de bondade, de misericórdia em favor dos irmãos. Misericórdia significa um coração generoso e leal, fiel para com Deus e para com seus filhos, especialmente os mais necessitados.

Essas falsas motivações religiosas podem estar presentes ainda hoje. Deus torna-se um pronto-socorro nas emergências. Por isso, Ele continua nos dizendo: “quero amor, e não sacrifícios, conhecimento de Deus, mais do que holocaustos” (v.6). Se essas práticas não tiverem uma profunda motivação interior, tornam-se vazias e até desprezadas pelo próprio Deus.

Na Segunda Leitura (Rm 4,18-25), São Paulo apresenta o exemplo de Abraão: ele se tornou modelo para todos os que têm fé, não por suas obras, mas pela sua adesão total e incondicional a Deus e aos seus projetos. O apóstolo, depois de afirmar que o ser humano é justificado somente pela fé, apresenta uma releitura da fé a partir de Abraão. O patriarca teve fé contra toda esperança, pois era ancião, de idade avançada e estéril, mas Deus seria para ele o doador da vida, proporcionando-lhe uma descendência inumerável, como as estrelas do céu e os grãos de areia da praia. Essa fé de Abraão é inconcebível sem a esperança, sem a confiança em Deus e sem o amor total por Ele. Do mesmo modo é a fé cristã: cremos em Deus, doador da vida, que ressuscitou seu Filho Jesus e nos justificou em sua vida. Essa fé suscita a esperança na nossa ressurreição e é movida pelo amor de Deus derramado em nós no Batismo.

O Evangelho (Mt 9,9-13) narra a vocação de Mateus e a refeição de Jesus com os pecadores. Mateus era cobrador de impostos para as autoridades romanas; por isso, era discriminado, um excluído da vida social e religiosa. Jesus passou diante dele e o convidou a “segui-lo”. No Reino, há lugar para todos, mesmo os “desclassificados”. Mateus aceitou imediatamente e, para agradecer a atenção recebida, ofereceu um jantar ao Mestre, convidando amigos e conhecidos. “Sentar-se à mesa” com alguém significava estabelecer laços profundos e familiares com essa pessoa.

Os “bons” (os fariseus) criticaram a atitude de Jesus junto aos discípulos: Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?” (v.11). Teriam eles medo de se dirigir diretamente a Jesus? Mas Cristo se encarrega de responder: Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes” (v.12).  E, citando palavras de Oséias, afirma: “Aprendei, pois, o que significa: ‘Quero misericórdia e não sacrifício’. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores” (v.13). As palavras e os gestos de Jesus evidenciam a compaixão de Deus, que elimina todas as exclusões e abre as portas da salvação a todos.

Lendo o Evangelho, notamos um fato muito frequente: a preferência de Cristo pelos pecadores e o seu aparente afastamento dos fariseus “fiéis praticantes”. E por quê? Porque, nos pecadores, uma vez esclarecidos, encontrava humildade, sinceridade e generosidade sem limites. Exemplos disso são a vocação de Mateus, a pecadora surpreendida em flagrante adultério e a parábola do fariseu e do publicano. Já nos fariseus encontrava orgulho, falsidade e formalismo: Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Mt 15,8).

Essas duas tentações ainda são atuais:

1.     Ficar satisfeito porque se “pratica” um amontoado de ritos e mandamentos, achando já ter garantido a salvação. Deus não pensa assim;

2.     Considerar-se melhor do que os outros e excluir do grupo aqueles que não pensam ou não agem como nós.

Jesus nos propõe que a comunidade seja um espaço de acolhida para todos aqueles que o mundo exclui e marginaliza.

Deus não muda: o que Ele disse a Israel pelos profetas, agora repete pelos lábios de seu Filho Jesus, manifestando sua infinita misericórdia e ensinando à humanidade que o culto que lhe agrada é acompanhado pela prática da justiça e da bondade para com o próximo. Ao acolher aquela pessoa excluída pelos judeus, considerada um traidor e pecador público, como apóstolo, Jesus mostra que Deus pode chamar a quem desejar, e que seu chamado pode transformar todo aquele que estiver aberto à sua graça.

E, ao sentar-se à mesa com os pecadores, Jesus nos ensina que ninguém deve desesperar da salvação: todos podem confiar naquele que veio ao encontro, não dos sãos, mas dos doentes; não dos justos, mas dos pecadores, pois Ele é médico e salvador.

Quais são as nossas motivações religiosas? Assemelhamo-nos ao comportamento de Cristo ou ao dos fariseus? Procuramos ser autênticos naquilo que professamos e acolhedores para com os que se encontram afastados? O nosso modo de ser e de agir atrai ou repele aqueles que estão afastados de nossa comunidade?

 Pe. Anderson Messina Perini

Administrador Paroquial da Paróquia Jesus Bom Pastor de Santo André