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“Santíssima Trindade: a melhor comunidade” - por Pe. Anderson Messina Perini
Reflexão sobre a Solenidade da Santíssima Trindade destaca o amor de Deus como comunhão perfeita e convida os cristãos a viverem a unidade, a partilha e a esperança.
27/05/2026 16h20
Por: Redação Fonte: Garça em Foco

Celebramos, após a solenidade de Pentecostes, no primeiro domingo que inaugura a segunda parte do Tempo Comum, a Solenidade da Santíssima Trindade. Esta festa recorda um dos dogmas fundamentais da nossa fé, presente na oração do Credo: cremos em Deus, que é Pai Criador, Filho Redentor e Espírito Santo Santificador. Não cremos em três deuses, mas em um só Deus em três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Essa festa não é um convite para decifrar o mistério que se esconde por detrás da expressão “um Deus em três pessoas”, mas uma oportunidade para contemplar o nosso Deus e purificar o coração das falsas ideias que fazemos dele.

O Deus cristão não é solitário: Ele é amor, é família, é comunidade, e criou a humanidade para fazê-la participar desse mistério de amor. Não é fácil falar de Deus, seja por sua grandeza, seja por nossa pequenez, seja ainda pela ideia transmitida desde a infância de que esse “mistério” é algo inacessível à compreensão humana. De fato, trata-se de um mistério tão sublime que jamais poderemos compreendê-lo plenamente. Contudo, podemos e devemos crescer em seu conhecimento. A própria Bíblia é uma revelação contínua e progressiva de Deus, e esse mistério foi plenamente revelado pelo próprio Cristo. As leituras dessa festa aprofundam esse tema:

Na Primeira Leitura (Ex 34,4b-6.8-9), Deus se revela a Moisés como o Deus do amor e da misericórdia, o Deus próximo que vem ao encontro da humanidade. Moisés intercede pelo povo, que se afastara de Deus e da Aliança: “Peço-te: caminha conosco... perdoa nossas culpas e nossos pecados” (v.9). Deus, então, renova a Aliança com Israel, permanecendo fiel apesar da infidelidade do povo. O Antigo Testamento ainda não possuía o conhecimento explícito do Mistério da Trindade. Na súplica de Moisés, percebemos algumas características que revelam quem é Deus: Ele é Salvador e Libertador, aquele que caminha com o povo e deseja conceder-lhe libertação e vida plena; é presença solidária, pois permanece com o povo não por mérito deste, mas por amor; é caminho, pois perdoa e conduz à liberdade e à vida; e é o Criador e Senhor de tudo, que, mesmo assim, aceita esse povo fraco e pecador como sua herança, caminhando com ele como propriedade sua.

O aspecto mais importante dessa etapa da revelação era a afirmação da unicidade e da espiritualidade de Deus, bem como de seus atributos de onipotência e misericórdia, conforme o texto apresenta.

A Segunda Leitura (2Cor 13,11-13) mostra que Deus é próximo, permanece sempre “conosco” e se manifesta como graça, paz e comunhão. Paulo saúda os primeiros cristãos com uma fórmula trinitária que ainda hoje repetimos no início das missas: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós” (v.13). Essa saudação atribui a cada pessoa da Trindade um dom ou função, embora toda ação salvadora seja comum às três Pessoas: o Pai é aquele que tomou a iniciativa de salvar a humanidade, destinando-a à felicidade eterna em sua família; o Filho realizou essa obra de salvação por meio de sua vinda ao mundo e de sua fidelidade até a morte de cruz; e o Espírito Santo, o amor que une o Pai ao Filho, é aquele que foi infundido no coração dos cristãos no Batismo.

O Evangelho (Jo 3,16-18) revela um Deus que salva. Deus se manifestou ao mundo por meio de seu Filho: Cristo é o lugar de encontro entre Deus e a humanidade, e da humanidade com Deus. Quem crê no Filho alcança a salvação.

“Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito” (v.16). Ele ama a todos, sem distinção; seu amor é gratuito e atinge profundamente o ser humano, tornando-o capaz de amar. Deus não nos ama por nossos méritos ou por nossa bondade, mas por sua própria bondade, pois deseja salvar-nos e comunicar-nos a vida. Jesus é o dom da salvação e a personificação do amor divino que se entrega como fonte de vida.

“Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (v.17). Deus não deseja a perdição de ninguém; não tem prazer na morte do pecador, mas quer que ele se converta e viva. Sua satisfação está na nossa salvação. O sinal disso é Cristo Jesus, crucificado e ressuscitado, que revelou a Palavra da verdade e o caminho da vida: Ele venceu a morte e nos concedeu a esperança da salvação.

“Quem não crê já está condenado” (v.18). Não é Deus quem impõe a condenação, mas o próprio ser humano que decide. Jesus não julga; somos nós que nos julgamos por nossas escolhas. Quem crê no seu Nome e procura viver o seu Evangelho possui a vida. Segundo João, o juízo acontece já no presente, sempre que a pessoa acolhe ou rejeita a proposta de salvação que Deus lhe oferece.

Por que Deus revelou esse mistério? Certamente não para dificultar sua compreensão, mas porque nos ama e deseja revelar-nos a intimidade de sua vida divina, introduzindo-nos em sua família. Em nós está o Pai, que nos chamou do nada, nos deu a vida, um nome e uma missão; em nós está o Filho, que entregou sua vida por nós; em nós está o Espírito Santo, que nos ilumina e fortalece no caminho de Deus. E toda essa graça nos foi concedida no Batismo.

Possuir esse tesouro é uma dignidade que deve despertar em nós três atitudes. Primeiro, a adoração: como não glorificar, bendizer e agradecer ao hóspede divino que faz de nossa alma um verdadeiro santuário? Depois, o amor: Deus, apesar de sua grandeza, permanece conosco como Pai amoroso — como não corresponder a esse amor? Por fim, a imitação: o amor nos conduz a imitar, dentro dos limites de nossa condição, a vida da Santíssima Trindade.

Por que, então, essa festa? Não tanto para desenvolver a doutrina trinitária — embora seja o mistério central de nossa fé e de nossa vida cristã —, mas para recordar nossa origem e a comunhão que devemos restaurar em nós, a fim de sermos verdadeiramente imagem e semelhança de Deus. Somos chamados a ser reflexos da Santíssima Trindade: sinais de comunhão, partilha e esperança em um mundo marcado pela divisão, pelo individualismo e pela desesperança. Renovemos, pois, a nossa fé, recebida no Batismo em nome da Trindade: creio em um só Deus, Pai, Filho e Espírito Santo.

Pe. Anderson Messina Perini
Administrador Paroquial da Paróquia Jesus Bom Pastor de Santo André