Não precisa ser espírita para ver em Chico Xavier um ser de elevação ímpar; quem teve oportunidade de conhecer um pouco da sua vida certamente tem muita coisa boa a dizer ou pensar sobre ele, afinal, ele viveu 92 anos de pura devoção ao próximo; seu nome é sinônimo de altruísmo, resignação, bondade e uma fé inabalável.
Sua escolaridade não passou da quarta série do ensino primário – fundamental 1 –, mas Chico psicografou mais de 450 livros, de diversos autores, desde poetas a cientistas. Sem dúvida, algo que desafia os descrentes ou críticos sem conhecimento e faz calar os negacionistas de plantão... 50 milhões de livros vendidos, traduzidos para dezenas de idiomas; o lucro dessas vendas nunca lhe rendeu um centavo. Toda renda era e é convertida em ajuda para diversas pessoas e entidades; cerca de 2 mil instituições de caridade brasileiras são beneficiadas diretamente pela venda dos livros por ele psicografados...
Seu amor pelo próximo está além do que essas poucas linhas conseguiriam explicar; suas palavras amigas e sua extraordinária mediunidade eram alentos para mães que haviam perdido filhos, consolo para almas sofredoras e revoltadas; mas engana-se quem pensa que seu amor se restringia ao seu semelhante...
Chico reverenciava todas as criações da natureza, conversava com os animais, acariciava as plantas e era apaixonado pelos astros. Não conseguia matar uma formiga e, quando elas ameaçavam sua horta, ele fazia uma prece e gentilmente pedia que elas se fossem; o mais incrível é que, no dia seguinte, o formigueiro estava vazio...
Nascido de família pobre, desde cedo órfão, sofreu com os maus-tratos e os reveses que a vida oferece a todos os terrenos, merecedores ou não. Aos cinco anos, quando perdeu sua mãe, Chico foi viver com a madrinha, que se mostrou mulher cruel e impiedosa, maltratando-o diariamente; quando ele se recolhia no fundo do quintal para se esconder dos abusos, na maioria das vezes faminto, Chico começou a receber uma visita inusitada; um enorme cachorro preto se aproximava sempre trazendo um jatobá na boca – o jatobá, apesar de não ser uma fruta de sabor apreciado por todos, possui um valor nutritivo muito alto. Sabendo da dificuldade que o menino teria para partir a casca tão dura da fruta, o cão preto forçava a mesma entre suas mandíbulas, quebrando a casca espessa, e assim Chico podia comer e saciar um pouco da fome; isso se repetia rotineiramente e, da mesma forma que o cachorro veio, ele desapareceu quando o menino não precisou mais dele.
Sua vida está repleta de casos impressionantes de amor e bondade para com os animais, como o caso do cavalo que ele comprou para salvar do dono que o maltratava, dando-lhe uma velhice justa e tranquila depois de anos de trabalho pesado. Ou ainda das visitas misteriosas que ele começou a fazer todos os dias na mata perto da casa onde morava, visita essa que começou a intrigar os amigos, já que Chico levava nesses “passeios” uma marmitinha quente. Todos queriam saber e perguntavam, ao que ele respondia: “Vou visitar um amigo”. Tempos depois, alguém o seguiu, e qual a surpresa quando viram um cachorro doente e magro sair da mata, cambaleante e feliz ao encontro do amigo que o alimentava todos os dias.
Na época do seu nascimento, houve relatos de uma senhora chamada “Sá” Tomázia que presenciou fato curioso: um bando de garças sobrevoou o local onde Chico nasceria, misturando-se com os lírios do campo; as garças encheram os céus de luz e o branco delas, misturado aos lírios, podia ser visto de longe, e quando voavam traziam em suas asas o perfume dos lírios, espalhando pela cidade de Pedro Leopoldo. Elas permaneceram sem pressa sobrevoando o céu com graça e leveza, até que no entardecer foram sumindo. “Foi a manhã mais bonita que já vi na minha vida”, afirma Sá Tomázia.
Chico dificilmente se magoava, era da sua natureza perdoar e sempre ver o lado bom das pessoas; mas um dia Chico se calou, passou o dia sem falar com ninguém, sentindo algo que seu bom coração não conhecia: a mágoa. Ele chorou quase o dia todo depois de encontrar no portão da sua casa um gatinho cujos olhos tinham sido furados por pregos; infelizmente o gatinho não resistiu aos ferimentos tão cruéis e desencarnou, mas a mágoa que Chico sentiu conseguiu durar o dia todo, muito mais do que os que o conheciam estavam acostumados, afinal ele era puro amor...
Infelizmente ainda existem no nosso planeta seres que se comprazem da dor e sentem prazer em praticar crueldade, usando como vítimas criaturas que não podem se defender, não podem gritar, revidar ou entrar com ações judiciais. Somos nós que temos que olhar por eles; eles estão sob nossa tutela, mas o que temos feito? Muito pouco! Revoltamo-nos com a crueldade, mas a esquecemos na manhã seguinte, seguindo com nossas vidas inalteradas, sem mudar em nada as nossas ações diárias, sem entender que a violência que abominamos pode estar tendo início dentro de nossas casas, dentro do nosso prato ou da “inocente” churrasqueira... Não esperemos que o mundo mude sem mudarmos a única coisa que realmente podemos mudar no mundo, ou seja, a nós mesmos.
Para encerrar, uma das inúmeras frases que Chico nos deixou e que vale profunda reflexão:
“... Deus nos outorgou a condução e a proteção de nossos irmãos mais novos, os animais. E o que é que estamos fazendo com esta responsabilidade santa de proteger e guiar o reino animal? Como é que esta humanidade terrestre tem agido com relação aos animais nos inúmeros séculos de nossa história? Porventura nós, os homens, não temos nos convertido em algozes impiedosos dos animais, ao invés de seus fiéis protetores? Quem ignora que o boi sofre imensamente a caminho do matadouro? Quem desconhece que os bovinos derramam lágrimas de angústia? Tudo isso se resume em graves responsabilidades para os seres humanos! A angústia, o medo e o ódio que provocamos nos animais alteram neles o equilíbrio natural de seus princípios espirituais...”
Que o querido Chico nos inspire na compaixão para com todas as criaturas...
Vanderli do Carmo Rodrigues