A solenidade da Ascensão do Senhor é celebrada, tradicionalmente, quarenta dias após a Páscoa. Atualmente, na maioria dos países, inclusive no Brasil, é transferida para o sétimo domingo da Páscoa. De fato, nossa fé não deve se fixar apenas no fato da Ascensão como um acontecimento localizado e determinado no tempo, pois a Sagrada Escritura foi escrita em um contexto cultural muito diferente do nosso. O que devemos acolher, no plano da fé, é sua teologia e sua catequese: Cristo ascende aos céus para inaugurar sua realeza cósmica e universal.
Com a festa da Ascensão, celebramos o término da missão terrena de Cristo e o início da missão salvadora da Igreja. As leituras lembram esse acontecimento, embora o narrem com diferentes pormenores.
Na Primeira Leitura (At 1,1-11), Lucas, após uma introdução aos Atos dos Apóstolos, descreve a despedida de Jesus em Jerusalém, destacando a promessa da vinda do Espírito Santo e o testemunho que os discípulos deverão dar “até os confins da terra”.
Na Segunda Leitura (Ef 1,17-23), Paulo apresenta a Ascensão como a glorificação de Cristo e o anúncio do retorno de toda a humanidade a Deus. A Ascensão de Cristo já é também a nossa ascensão nele, pois, onde está a cabeça, ali está também o corpo.
O Evangelho (Mt 28,16-20) narra a aparição pascal de Jesus na Galileia e destaca três elementos centrais. Primeiro, a autoridade de Jesus: “Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra” (v. 18); depois, a missão da Igreja: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos”; e a promessa de sua presença: “Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (v. 20).
A Igreja de Cristo é, essencialmente, uma comunidade missionária, chamada a testemunhar, no mundo, a proposta de salvação e de libertação que Jesus trouxe à humanidade e confiou aos seus discípulos.
Essa missão possui duas características fundamentais. Primeiro, é universal, destinada a “todas as nações”. Em segundo lugar, requer a iniciação cristã, que se desenvolve em dois momentos: o ensino e o Batismo. Inicia-se pela catequese — o anúncio das palavras e dos gestos de Jesus — e culmina no Batismo, que sela a união do discípulo com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. E Jesus nos assegura sua presença permanente.
Os elementos da narrativa não devem ser interpretados de forma literal, mas simbólica. Os quarenta dias após a Páscoa representam o tempo de aprendizagem necessário para o discípulo assimilar os ensinamentos do Mestre. A elevação ao céu expressa a exaltação plena de Jesus. A nuvem simboliza a presença de Deus, que ao mesmo tempo revela e oculta. Os dois homens vestidos de branco indicam que o testemunho vem de Deus, e os discípulos olhando para o céu recordam a expectativa da comunidade que aguardava a segunda vinda de Cristo.
A Ressurreição, a Ascensão e o Pentecostes são momentos distintos ou expressões catequéticas de um único mistério? Na verdade, são aspectos de um único Mistério de fé: a Páscoa do Senhor. Na Ressurreição, celebramos a vitória de Cristo sobre a morte; na Ascensão, sua exaltação como Senhor do céu e da terra e a entrega da missão à Igreja; e, no Pentecostes, a ação do Espírito Santo que impulsiona a missão do novo Povo de Deus. Assim, a Ascensão possui um profundo significado teológico: é a glorificação de Cristo e a abertura da dimensão escatológica da vida cristã.
O sentido da Ascensão de Cristo fortalece também a esperança da nossa própria ascensão. Um futuro glorioso nos aguarda. Como proclama o Prefácio da Ascensão do Senhor: “Ele, nossa cabeça e princípio, nos precedeu, não para afastar-se de nossa humildade, mas para dar a nós, membros do seu corpo, a confiança de um dia o seguirmos.”
Além disso, a Ascensão nos recorda que somos enviados para continuar a missão de Cristo. Não podemos permanecer inertes, “olhando para o céu”. Somos chamados a ser discípulos e a formar discípulos para o Reino. E Cristo nos assegura sua presença constante.
Essa missão não depende apenas de nossas forças. Por isso, Jesus envia os discípulos a Jerusalém para aguardarem o Espírito Santo, reunidos em oração com Maria, sua Mãe. Como Maria e os apóstolos reunidos no cenáculo, também nós somos chamados a rezar e invocar o Espírito Santo. Afinal, como o próprio Cristo afirmou: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). A Igreja nasce da oração antes de se lançar à ação.
Cristo parte, mas permanece na comunidade. Sua Ascensão não significa ausência, mas uma nova forma de presença no mundo. Ele continua a agir por meio de sua Igreja, acompanhando com sinais a missão evangelizadora. Deus permanece presente e nos envia como seus apóstolos, para que Cristo seja conhecido e amado por toda a humanidade.
Com a Ascensão, cessa a presença visível e física de Jesus e inicia-se o tempo de sua presença invisível, pelo Espírito Santo, na Igreja — seu Corpo Místico e templo do Espírito. Esse mistério possui também uma dimensão escatológica: o Cristo que subiu aos céus retornará glorioso para levar à plenitude sua obra de redenção. Um dia, seremos plenamente configurados a Cristo Ressuscitado e glorificado.
Por fim, a Igreja celebra, neste domingo, o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais. O Papa Leão XIV propôs como tema “Preservar vozes e rostos humanos”, refletindo sobre o uso ético da inteligência artificial (IA) e a valorização da dignidade humana diante das tecnologias digitais. Vale a pena ler e meditar sua mensagem, aprofundando o compromisso com um uso responsável desses meios.
Pe. Anderson Messina Perini
Administrador Paroquial da Paróquia Jesus Bom Pastor de Santo André