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“O que você precisa?” - por Vanderli do Carmo Rodrigues
Texto reflete sobre a importância da gentileza, do acolhimento e das experiências emocionais na formação do comportamento humano.
22/04/2026 09h29
Por: Redação Fonte: Garça em Foco

O que você precisa para que seu dia seja tranquilo, para que você seja gentil, respeitoso e compassivo com todos que cruzar seu caminho? Admita, hoje está mais fácil criticar do que elogiar, concorda? Vivemos armados, prontos para batalhas, criticando até o vento, arremessando palavras e olhares ofensivos em todas as direções; e isso fala muito mais de nós do que daqueles que queremos eliminar com o pensamento.

Muitas vezes, o que falta para que sejamos gentis é apenas um bom dia cheio de amor... acordar estressado, ouvindo reclamações e já antevendo todas as coisas que precisaremos fazer ao longo do dia vai determinar a forma como interagimos com pessoas que desconhecem nossos dramas.

Quando eu era bem jovem, sempre que subia para o trabalho, encontrava um senhor sentado na varanda simples da casa dele; casa que destoava totalmente das demais da rua, velha, quase caindo e cheia de plantas que cresciam sem controle, um cenário que combinava perfeitamente com a aparência desse senhor, que era sério, mal-humorado e tinha fama entre as crianças de ser um bruxo e matar criancinhas; coisas que crianças propagam para justificar o que não entendem...

Eu tinha medo dele, afinal, cresci ouvindo essas histórias... Mas, um dia, eu arrisquei olhar na direção de onde ele estava sentado; vi que ele era muito debilitado e que, dada a sua aparência física, não conseguiria nem mesmo atacar uma mosca; fiquei com pena e dei bom dia; ele fez um movimento com a cabeça, como quem cumprimenta, e eu segui para meu trabalho...

E aquilo virou uma rotina: ele me cumprimentava e eu o cumprimentava de volta e, em alguns dias, ele estava de pé, apoiado na cerca velha, como se me esperasse passar; percebi que, ao longo do tempo, ele parecia mais jovem, menos carrancudo... Ficamos amigos... ele nunca decorou meu nome e eu nunca soube o nome dele inteiro; era o Seu Zé... amigos de cumprimentos e frases prontas. Um “bom dia, vai com Deus, hoje chove, que calor...”

O tempo passou... Mudei de emprego, mudei de rotina, nunca mais o vi... Anos depois, andando novamente por aqueles lados, vi que a casa dele havia sido demolida e que uma casa nova estava sendo erguida no local; deduzi que o tempo dele nesse mundo havia chegado ao fim e que a vida seguiu sem ele...

A verdade, e voltando ao início deste texto, é que só aprendemos o que nos foi ensinado, isso é quase que uma regra; e não estou falando do conhecimento, esse qualquer um pode obter, basta ter disposição e interesse. Estou falando do aprendizado emocional, esse que nenhum livro da Terra vai nos oferecer. Ser gentil, respeitoso, compassivo aprendemos dentro de nossas casas, com nossas famílias; claro que nada nesta vida deve ser enquadrado como regra, afinal sabemos que muitos seres problemáticos possuem uma família exemplar, e eu poderia me estender e seguir falando sobre bagagem espiritual e vidas passadas, mas não é a ideia deste texto; a verdade é que é quase impossível ser gentil quando nunca recebeu gentileza.

O caso do macaquinho Punch, sensação nas redes sociais nos últimos meses, reverberou na parte mais profunda de nós mesmos, aquela que necessita de um abraço fraterno e de um refúgio nos momentos mais difíceis; ver aquele pequeno e rejeitado macaquinho implorando por um abraço e recebendo agressões e gritos foi demais para nossa necessidade de aceitação...

Quem não chorou quando ele recebeu o orangotango de pelúcia e fez dele seu refúgio? Sozinho e assustado, ele esperava o momento em que os portões fossem abertos e que os tratadores trouxessem a comida; mas ele não estava com fome, ele precisava de um colo, um abraço, e corria para subir nas pernas do seu tratador preferido, aquele eleito como o mais próximo de uma família...

Do que nós precisamos para sermos gentis? Pais amorosos, amigos acolhedores, ou simplesmente aceitação? Ser aceito é talvez um dos requisitos primordiais para seres humanos completos; somente quem é realmente aceito pode interagir sem medos, de cabeça erguida, sabendo exatamente seu lugar no mundo e a que veio... Uma pessoa que foi aceita não ataca, ela entende e analisa as diferenças, pois aprendeu isso, sentiu na pele esse respeito.

E quantas pessoas encontram esperança apenas em um olhar amoroso... quantos de nós anseiam por ouvir: “—Ei, você está indo bem... Levante a cabeça, não desista!” A sinceridade — para não dizer maldade — de alguns pode destruir os sonhos de outros.

Ser amargo, crítico e maldoso é delator; é reflexo do abandono e desamor...

Então, para aqueles que descarregam suas amarguras em quem já vive seus próprios dramas, espero que, assim como o Punch, recebam o abraço acolhedor que merecem, que possam descansar sua tristeza e medos em um colo amoroso, que encontrem seu lugar neste mundo, cientes de que todos vivem seus dramas e que ser gentil, em alguns momentos, pode ser a diferença entre reerguer ou destruir uma pessoa...

Vanderli do Carmo Rodrigues