A Liturgia deste 3º Domingo de Páscoa nos convida a descobrir o Cristo vivo, que acompanha as pessoas pelos caminhos do mundo, muitas vezes sem ser reconhecido. Mas onde o podemos encontrar?
Na Primeira Leitura (At 2,14.22-33), a Comunidade Cristã transformada pelo Espírito deixou a segurança das paredes do Cenáculo e prepara-se para dar testemunho de Jesus, em Jerusalém e até aos confins da terra. A pregação de Pedro, no dia de Pentecostes, anuncia que Cristo ressuscitou, está vivo e salva a todos. É a catequese da Comunidade cristã primitiva sobre Jesus, o Querigma. Pedro declara diante de toda aquela multidão um corajoso discurso, denunciando o sinédrio que havia condenado Jesus à morte, mas que Este ressuscitou. Relendo o Salmo 15, cantado na liturgia de hoje, Pedro reflete que aquilo que o salmista havia anunciado não se realizou em Davi, mas no seu descendente, pois Jesus é o servo que não foi entregue à morte e cujo corpo não sofreu a corrupção. Jesus é o Santo por excelência, que, embora tenha morrido, ressuscitou após três dias.
A Segunda Leitura (1Pd 1,17-21), da Primeira Carta de São Pedro, nos garante que Cristo permanece para sempre entre nós, como realidade libertadora de toda escravidão e maldade. Pois não foi com prata ou ouro que Cristo nos resgatou, mas com seu precioso sangue, como cordeiro imaculado e sem defeito. Eis nossa fé e esperança, que é para todos, pois Deus não faz distinção de pessoas e seremos julgados segundo nossas atitudes. Entretanto, é pela graça de Deus que somos salvos em seu Filho. Somente a graça de Cristo crucificado-ressuscitado, vivida na intimidade com Ele, pode converter, transformar as pessoas interiormente e infundir-lhes fé tão convicta e amor tão ardente que se tornem testemunhas, apóstolos do Senhor.
No Evangelho (Lc 24,13-35), o Peregrino aponta aos discípulos de Emaús o caminho para reconhecer o Cristo Ressuscitado. Aqueles homens estão tristes, desanimados, decepcionados, frustrados e abandonam a Comunidade, voltando para casa, dispostos a esquecer o Messias esperado. Aguardavam um Cristo glorioso, um Rei poderoso, um Vencedor, e encontram-se diante de um derrotado, que tinha morrido na cruz. De repente, no retorno para Emaús, aparece um Peregrino que caminha com eles, e começam a falar do assunto do momento: Jesus, Profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e da humanidade, teve um fim inesperado.
O Peregrino interpreta as Escrituras, que falam do Messias. Eles escutam com interesse e seus corações começam a arder. No final da tarde, os discípulos chegam ao seu destino e fazem um convite ao Peregrino: “Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!” (v.29). Querem prolongar a agradável companhia. Após terem acolhido a Palavra do Peregrino, lhe oferecem hospedagem em sua casa. Ele aceita não apenas para “passar a noite”, mas para “ficar com eles”.
À mesa, de convidado, Jesus torna-se anfitrião e revela um gesto conhecido: o mesmo gesto da última ceia, quando instituiu a Eucaristia. Os olhos dos discípulos se abrem e reconhecem diante deles o Ressuscitado. A Palavra fez arder o coração; a fração do pão os faz abrir os olhos. E Cristo desaparece, porque agora a Comunidade já possui os sinais concretos de sua presença: a sua Palavra e o Pão partilhado. Mesmo invisível aos olhos, o Senhor está e permanecerá presente. Agora é só testemunhar. E partem logo para anunciar a descoberta aos irmãos e, junto com eles, proclamam a fé: “O Senhor ressuscitou”. A proclamação da alegria pascal não pode esperar o dia amanhecer. A escuta atenta da Palavra e o repartir do pão abrem os olhos e os impulsionam para a missão.
Cristo continua hoje companheiro de caminhada. Onde encontrar o Ressuscitado? O episódio de Emaús nos aponta o caminho. Primeiro, na Palavra de Deus, escutada, meditada, partilhada, acolhida. Jesus nos indica os caminhos, nos aponta novas perspectivas, nos dá a coragem de continuar, depois de nossos fracassos. Acolhem a Palavra do Peregrino e lhe oferecem hospedagem em sua casa. Depois, na partilha do Pão Eucarístico. A narração apresenta o esquema da Missa: Liturgia da Palavra e da Eucaristia. É na celebração comunitária da Eucaristia que nós fazemos a experiência do encontro pessoal com Jesus vivo e ressuscitado. E, por fim, na comunidade, lugar privilegiado do encontro com o Senhor.
O caminho de Emaús nos aponta uma lição. Muitas vezes, também nós andamos pelos caminhos da vida tristes, cansados e desiludidos. Caíram os nossos castelos e a vida parece ter perdido sentido. Esperávamos tanto, mas tudo terminou. Quem sabe a morte de um parente amigo, um fracasso em nosso empreendimento, a família desunida, guerras, violência, entre tantos outros. Parece que Deus desapareceu do nosso horizonte. Somos tentados a abandonar a luta e voltar.
No entanto, Jesus vivo e ressuscitado caminha ao nosso lado. Encontra formas de vir ao nosso encontro e de encher o nosso coração de esperança, mesmo quando não somos capazes de O reconhecer. Eles estavam angustiados por aquilo que aconteceu em Jerusalém. Mas, na medida em que participaram da celebração da Palavra e do banquete da fração do pão, o interior deles se abriu à luz, a vida do Ressuscitado invadiu seus corações e os fez voltar à Comunidade. Nesses momentos, mais do que nunca, como os dois discípulos, necessitamos do Peregrino de Emaús: “Fica conosco, Senhor, é tarde e a noite já vem! Fica conosco, Senhor, somos teus seguidores também!”
Pe. Anderson Messina Perini
Administrador Paroquial da Paróquia Jesus Bom Pastor de Santo André