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A partida de Dra. Maria Lúcia, pilar de uma dinastia médica

Falecida no último dia 03 de janeiro, a médica e o marido formaram uma família símbolo da medicina humanizada, da dedicação à vida e do compromisso com o próximo.

Por: Redação Fonte: da redação
12/01/2026 às 12h50
A partida de Dra. Maria Lúcia, pilar de uma dinastia médica
Dra. Maria Lúcia faleceu no último dia 03

Garça viveu, no último dia 3, um momento de profunda emoção com a despedida da médica Dra. Maria Lúcia Miranda — esposa do saudoso Dr. Mário Nunes Miranda, um dos mais respeitados cirurgiões da história do município. Juntos, formaram um casal símbolo da medicina humanizada, da dedicação à vida e do compromisso com o próximo.

Mais do que uma família, os Miranda tornaram-se sinônimo de vocação. Além do casal, os filhos Marcos (ginecologista), Marisa (pediatra) e Márcio (cirurgião pediátrico), bem como os netos Marcelo (geriatra), Mariana (psiquiatra), Breno (ortopedista) e Verena (neurologista) dão continuidade a esse legado, espalhando por várias cidades do país os valores que aprenderam em casa: amor ao paciente, ética, empatia e compromisso com a saúde. A seguir, o tocante texto escrito pelos filhos de Maria Lúcia, resgatando sua história de vida, sua força, sua doçura e a dignidade com que viveu — e partiu — deixando um legado imortal para Garça e para todos que a conheceram:
"Maio de 1939 foi um período de expectativa e tensão em escala global. O mundo caminhava rapidamente para a Segunda Guerra Mundial, enquanto o Brasil vivia sob um regime autoritário, a chamada Era Vargas. Foi nesse contexto histórico que, na cidade de Garça, nasceu uma menina chamada Maria Lucia.
Os anos que se seguiram foram marcados por dificuldades, privações e incertezas — experiências decisivas para a formação de sua personalidade forte e resiliente. Ainda jovem, bela e inteligente, aos dezesseis anos, quando começava a desabrochar para a vida adulta, Maria Lucia conheceu o jovem médico Dr Mario Nunes Miranda, que havia retornado à cidade com o propósito de desenvolver a medicina garcense e permanecer próximo de seus pais.

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Dr. Mário e Dra. Maria Lúcia formaram família dedicada à medicina
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Dr. Mário e Dra. Maria Lúcia formaram família dedicada à medicina

Mario e Maria Lucia se casaram e constituíram uma família numerosa, com seis filhos; Mario jr., Marcos, Marcelo, Marisa, Marina e Marcio. Mãe exemplar, Maria Lucia dedicou-se intensamente à educação, ao cuidado e ao amor dispensados aos filhos. Paralelamente à vida familiar, cursou Letras na Faculdade de Filosofia de Marília, onde posteriormente atuou como professora por um período, demonstrando desde cedo seu compromisso com o conhecimento e a formação humana.
Com o passar dos anos e já vivenciando a chamada “síndrome do ninho vazio”, quando os filhos começaram a seguir seus próprios caminhos, Maria Lucia foi incentivada pelo marido a realizar um antigo sonho: cursar Medicina. Assim, aos 38 anos, ingressou na Faculdade de Medicina de Marília. Apesar de ser a aluna mais velha da turma, nunca enfrentou preconceito; ao contrário, foi acolhida com respeito e carinho por colegas e professores.
Concluiu o curso com louvor e escolheu a Obstetrícia como especialidade. Munida não apenas do conhecimento científico, mas também da experiência de suas seis gestações, dedicou-se ao cuidado de inúmeras gestantes garcenses, exercendo a medicina com profundo humanismo, sensibilidade e compromisso com a vida.
A Dra. Maria Lucia nunca foi praticante da religião católica, mas pautou sua vida pelo cumprimento rigoroso de seus principais mandamentos, conduzindo-se sempre com ética, retidão e profundo senso moral. Como toda mãe, sonhava em ter os filhos ao seu lado por toda a vida; no entanto, as circunstâncias e as exigências do mundo fizeram com que alguns deles alçassem voos mais distantes, em busca de seus próprios caminhos e de um lugar ao sol.
Após cinquenta e seis anos de matrimônio, vividos com respeito, comprometimento e dedicação mútuos, com muitos netos e bisnetos, Dr. Mario Miranda partiu, deixando uma ausência profunda. Essa perda diminuiu um pouco o brilho de Maria Lucia, mas jamais o apagou. Sua força interior permaneceu intacta, permitindo-lhe enfrentar os desafios da vida com a mesma disposição que sempre a caracterizou. Já na terceira idade, demonstrou mais uma vez sua extraordinária resiliência ao enfrentar e vencer dois cânceres de mama, com coragem e dignidade.
No trecho final da longa maratona da vida, passou a recolher-se ao seu ninho sagrado, espaço do qual nunca desejou se afastar. A cama entalhada pelo Dr. Mario tornou-se o seu universo particular — um lugar de aconchego, memória e proteção, onde se sentia segura e envolta pelo amor que atravessou toda a sua história. 
Próxima à linha de chegada, já exausta, mas plenamente consciente da missão cumprida, escolheu permanecer em seu lar, recusando a internação hospitalar. A medicina paliativa desempenhou papel fundamental nesse momento, oferecendo cuidado humano e respeitoso, em harmonia com as leis da natureza e, sobretudo, evitando procedimentos agressivos que em nada alterariam o curso da vida.
Esse período, vivido intensamente pela família, foi marcado pela dor, mas também pela necessidade do tempo da despedida — essencial para honrar a trajetória de alguém que nos ensinou, pelo exemplo, o verdadeiro significado do amor.
Nossa mãe esteve presente nos primeiros movimentos respiratórios de cada um de seus filhos; nada mais justo, portanto, que estivéssemos presentes em seu último suspiro. Siga em paz, mamãe! Vá ao encontro de seu único amor e tenha a certeza de que deixou um legado eterno, que seguirá vivo nas próximas gerações".

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Maria Lucia (ao centro) com a irmã Maria Regina (à esquerda) e a mãe Maria de Lourdes, em sua formatura
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A matriarca e a família Miranda

 

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