A História da Fazenda dos Ingleses
Em Gália-SP, o que sobrou do apogeu econômico inglês, são os casarões da antiga fazenda São João do Tibiriçá e a sua Igreja. O símbolo da opulência do que foi no passado a “Fazenda dos Ingleses” no município de Gália (21,8 quilômetros de Garça) fica próximo a estrada vicinal que liga a SP-331 à antiga propriedade rural.
A área conhecida como Fazenda dos Ingleses abrigou uma enorme estrutura no período áureo da cafeicultura no século passado. No auge da cafeicultura, a fazenda São João do Tibiriçá pertenceu à Companhia Agrícola do Rio Tibiriçá, adquirida por um grupo de mineiros da Inglaterra. Eles compraram uma gleba de 5.000 hectares e instalaram uma fazenda para produção de café, cereais e algodão. Os moradores de Gália a batiza-ram como a “Fazenda dos Ingleses”, composta por cerca de 2 mil habitantes.
No local se desenvolveu grande efervescência cultural e recursos avançados para a época: igreja, cinema, armazém, farmácia, clube, serraria, selaria, máquina de benefi-ciamento, entre outros aparatos que auxiliavam na execução das tarefas do dia a dia.
“A fazenda dos ingleses era uma verdadeira cidade.”, revela Rosemari Gattás Barnezi, autora do livro que conta a história de Gália. “Eles tinham igreja, cinema, campo de futebol, campo de golfe, telefone, teatro e avião Eles eram poderosos. Vinha a turma do teatro de São Paulo fazer teatro na fazenda. Era uma companhia de ingleses. Eles plantavam café, colhiam e exportavam para a Inglaterra”.
No livro, a autora também aborda o período do fim da década de 30 até o pós-guerra, quando Gália se firmou como um dos mais importantes centros mundiais de cultivo de bicho-da-seda (sericicultura) e conheceu dias de grande desenvolvimento. Passados alguns anos a fazenda dos ingleses se desfez. As terras acabaram sendo vendidas.
Os vestígios do patrimônio ferroviário de Gália praticamente desapareceram. O trem deixou de passar pelo município em 1976. A antiga estação ferroviária virou uma mar-cenaria. Praticamente não existe mais nada das características do prédio. O tronco oes-te da Companhia Paulista que partiu de Itirapina até o Rio Paraná foi construído em 1941, a partir de retificação das linhas de três ramais (Jaú), de Agudos (que também não existe mais) e de Bauru.
A estação de São José das Antas do pequeno povoado teve origem em um engenho de cana. Quando a Companhia Paulista chegou com o ramal de Agudos em 1927, trocou o nome para Gália. Em 1941, o ramal passou a fazer parte do tronco oeste, mas em 1976 foi desativado, com a inauguração da nova linha ao norte, entre Bauru e Garça.
Investimento inglês durou 40 anos
Os investidores ingleses procedentes de Liverpool chegaram ao local no século passa-do, no final da década de 1920 nas terras do ainda Patrimônio de São José das Antas, que logo se tornaria município de Gália A Companhia Agrícola do Rio Tibiriçá foi subsidiária da Brasil Warrant.
A Companhia Agrícola do Rio Tibiriçá foi constituída por três investidores ingleses de Liverpool no século passado e chegou a ter dois milhões de pés de café em 2.367 al-queires paulistas. Os ingleses continuaram investindo e lucrando durante 40 anos na região de Gália.
Pelo tamanho da área, a administração dividiu em seções: a sede, Ipiranga, Boa Vista, Água Limpa, Aliança e Mascarenhas, cada uma com seu próprio administrador.
Na dissertação, elaborada em 1996 para bacharelado em Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp de Marília, Marcelo Nivaldo Uzai afirma que a Com-panhia Agrícola do Rio Tibiriçá foi constituída no final da década de 1920 nas terras dos Patrimônio de São José das Antas, que logo se tornaria município de Gália. Nela consta que “Seus mais de 2 milhões de pés de café, suas atividades agrícolas, fizeram do lugar palco de um espetáculo sutilmente elaborado que, mesmo apresentando apa-rente forma aristocrática, se tornou um dos maiores empreendimentos agrícolas capi-talistas do interior do Estado de São Paulo. Chegou a ser conhecido como o ‘sonho dourado dos ingleses’, porém sucumbiu em 1956 quando a acentuação da crise cafeeira não mais permitiu a sustentação do modo de vida lá vivenciado por seus idealizado-res”, escreve Uzai.
A presença dos ingleses no Brasil foi acentuada no começo do século passado, segundo o historiador José Antonio Tidei de Lima, e influenciou a construção de várias estradas de ferro no território paulista. “Eles controlavam a comercialização do café em toda a Europa,” conta.
Segundo depoimento de Hamilton Carvalho, uma testemunha do apogeu inglês, a fa-zenda tinha área de 2.500 alqueires e foi grande produtora de algodão. Também foi um empreendimento industrial por possuir fábrica de fio de seda, herança deixada no mu-nicípio e na região. No local tinha fábrica de aguardente, fábrica de cal, serraria, fábri-ca de farinha de mandioca e moinho de milho para produção de fubá.
Para se ter uma ideia de como o empreendimento influenciou a economia e o número de habitantes, basta verificar que Gália chegou a ter 35 mil habitantes na década de 30 quando havia a fazenda de café, número que caiu para 18.076 de acordo com censo de 1959 após declínio da companhia, depois 10.488 em 1991 e atualmente são 6.435 habi-tantes, conforme dados de 2024 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IB-GE).
O cinema na fazenda
Para a época era uma inovação a existência de um cinema na zona rural. Na “Fazenda dos Ingleses” havia até sala de cinema. O prédio não existe mais; foi demolido.
Na década de 30, o cinema já estava em alta e os ingleses destinaram um local especí-fico para exibições. O prédio do cinema impressionava pela beleza de estilo e luxo. O filme “King Kong”, grande sucesso de bilheteria, foi lançado no Brasil em 1931 e no mesmo ano chegou até o cinema da Companhia. Recorte de jornal da época tinha o anúncio: “Cine São João. Em belíssima casa de Espetáculos Cinematográficos da Companhia Agrícola Rio Tibiriçá, que passou ultimamente por grandes reformas, exi-be hoje a película recém produzida e grande sucesso nos Estados Unidos intitulada ‘King Kong’. Somente neste domingo”.
O cinema exibia filmes aos sábados e domingos com preço da entrada quase simbóli-co, mas as classes sociais eram rigorosamente divididas nos assentos dentro do salão. O cinema só tinha uma máquina de projeção. Quando acabava um rolo, acendiam-se as luzes por alguns minutos até que o operador instalasse o rolo seguinte e reiniciasse a projeção.
No início havia a projeção de um cine jornal com notícias políticas e esporte, um trai-ler dos filmes que seriam apresentados nas próximas semanas e podia haver um dese-nho animado do Popeye, como contou Hamilton Carvalho.
As companhias teatrais do circuito paulistano estendiam suas turnês até a Companhia Inglesa. Em notas de jornais da década de 30 há registro de apresentação da peça tea-tral “Olhos do Saber Eterno” do dramaturgo John Rallfon da Companhia Teatral Ar-thur Azevedo de São Paulo.
O declínio e o fim da Cia. Inglesa
A economia cafeeira viveu uma turbulência no Brasil no século passado. Assim, os ingleses se desinteressaram pelo investimento com a edição de uma lei do presidente Getúlio Vargas que fixou limites na remessa de lucros de companhias estrangeiras.
O grupo foi vendido então para Moreira Salles que não se interessou pela fazenda e a repassou para a Companhia de Agricultura, Imigração e Colonização (CAIC), empresa paulista voltada à policultura de mão de obra familiar e imigrante.
A CAIC decidiu encerrar o empreendimento e dividiu a fazenda. Os funcionários fo-ram demitidos e feitos os devidos acertos dos direitos trabalhistas. E assim chegou ao fim do sonho inglês no centro oeste paulista.
Atualmente a fazenda está arrendada e já foi alvo de três ocupações de grupos de tra-balhadores sem-terra que reivindicaram a destinação da propriedade rural para reforma agrária.
Dos poucos estudos sobre o passado da fazenda, o mais conhecido é o de Uzai, que pode ser consultado na Biblioteca Pública Municipal Rosemari Gattás Bernezi de Gá-lia, juntamente com uma caixa de fotografias feitas por Israel Sergio Paulo D’ Iório que resgatou imagens de prédios em ruínas e dos casarões datado de 1994.
A História da Igreja da Cia. Inglesa
De acordo com Gomes (1997) até meados da década de 1930, a Companhia não possuía um edifício para as atividades religiosas, que começaram a ser idealizadas após a chegada do italiano Humberto Celi à Companhia, conforme conta o construtor José Maria Filho:
“Foram poucas horas de conversa e decidiu-se pela construção da igreja”, disse o construtor. Primeiramente foi escolhido o lugar mais alto na sede da fazenda, a São João do Tibiriçá. Logo depois, iniciaram-se os trabalhos, comandados pelo chefe geral de construção José Zarchelo e os pedreiros da própria companhia. Em pouco mais de trinta dias a igreja estava pronta (GOMES, 1997, p.45).
De acordo com Pontes e Barnezi (2001, p. 200) a inauguração da Capela da Companhia Agrícola Rio Tibiriçá ocorreu em 1935, pelo Cardeal de São Paulo. Em estilo neogótico inglês em alvenaria de tijolo aparente, a Capela de São João apresenta nave única arrematada por uma abside onde se localiza o altar-mor, ladeado pela sacristia e o santíssimo; na entrada, batistério e coro. Em sua fachada, a presença dos arcos em ogiva, uma pequena rosácea e vitrais coloridos nas aberturas laterais; é coroada por uma única torre sineira com cobertura em agulha. As cerimônias religiosas tornaram-se parte da sociabilidade entre os moradores da comunidade da Fazenda São João.
As missas realizadas aos domingos eram sagradas para grande parte dos habitantes adeptos ao catolicismo. Segundo Carvalho (2016), não havia padre residente, por isso apenas algumas senhoras se reuniam para rezar o terço. Ocasionalmente, em alguma data festiva, vinha um padre de Gália. Outras cerimônias como batizados e casamentos eram comuns naquele templo e a festa de São João (padroeiro da Capela) era celebrada com grande euforia pelos moradores da fazenda:
A verdadeira festa religiosa e popular era o dia de São João, padroeiro da Fazenda. Na noite de São João, os vizinhos se reuniam em torno de uma fogueira preparada de antemão e se comia pipoca, amendoim, cocada e soltavam-se rojões que iluminavam o céu da Fazenda continuadamente. Era uma festa caipira, dos caipiras mesmo – não se usava roupa de caipira. Todos usavam a própria roupa do dia a dia (CARVALHO, 2016).
De acordo com Carvalho, no ano de 1951 a Companhia recebeu uma missão evangelizadora por um grupo de frades capuchinhos, como relata:
“Uma ocasião, um grupo de frades capuchinhos vieram fazer uma missão evangelizadora na Fazenda como se fosse um mutirão religioso – missa todo dia, batizados, primeira comunhão, crismas de todo aquele povo que tinha deixado de fazer estes sacramentos católicos no devido tempo. Toda noite havia uma procissão. Foi uma erupção de fervor religioso. Durou uma semana inteira e como lembrança do evento foi erigido um cruzeiro (uma cruz grande de madeira) no pátio de igreja. Quarenta anos depois visitei a Fazenda, o cruzeiro ainda estava lá e estava escrito “Lembrança da missão dos frades capuchinos, agosto de 1951” (CARVALHO, 2016).
A igreja lembra edificações europeias renascentistas e góticas. Não há registros precisos. A igreja foi erguida em 1930 até sucumbir em 1956, quando a crise no setor não permitiu mais continuar os investimentos ingleses no município. A prosperidade durou 40 anos.
De acordo com a tese de doutorado de autoria de Vladimir Benicasa sobre “Fazendas Paulistas Arquitetura Rural no Ciclo do Café”, os tradicionais espaços destinados ao culto religioso não foram esquecidos, no meio rural da região Central. As capelas isoladas começam a surgir na paisagem das fazendas de café principalmente na década de 1890, alguns após a extinção do trabalho escravo quando a mão de obra se torna majoritariamente constituída por imigrantes.
“A proliferação das capelas externas responde a uma outra necessidade. Ela se torna um dispositivo controlador a mais, para fazer com que o colono se ausente o mínimo possível da fazenda, mesmo aos finais de semana, tendo assim o menor contato possí-vel com o atrativo ambiente urbano”, relata Benicasa no capítulo “Rumo ao Oeste Pau-lista: o quadrilátero do açúcar se rende aos cafezais”.
Uma controvérsia: a Igreja sempre foi católica ou recebeu alguma influência da Igreja Anglicana em sua origem?
Embora grande parte das informações seja a de que a Igreja sempre foi um templo católico, existem algumas especificidades que podem colocar em dúvida essa afirmação. Ou, quem sabe, em sua origem a Igreja tenha tido influência do Anglicanismo. Apesar de construída como templo católico, a sua arquitetura é muito parecida com as igrejas anglicanas da Inglaterra do século XIX. Esse fato não parece ser coincidência, ainda mais se levarmos em consideração de que foi construída por ingleses.
O Anglicanismo é a igreja nacional da Inglaterra, estabelecida como a religião oficial do Estado desde a Reforma Inglesa no século XVI, quando o Rei Henrique VIII rompeu com a Igreja Católica. Ao longo do século XIX, a Igreja da Inglaterra manteve sua posição dominante e tinha, de longe, o maior número de seguidores em comparação com outras denominações protestantes (como metodistas e batistas) e o catolicismo. A Igreja Anglicana tem origem em um cisma da própria Igreja Católica, por isso mesmo, compartilha muito mais semelhanças do que diferenças.
As duas Igrejas possuem diversas semelhanças, uma estrutura episcopal (padres, bis-pos, presbíteros e diáconos), a adesão aos credos antigos, a celebração da Eucaristia como culto principal. Compartilham também a mesma Bíblia, a veneração de santos e Maria, e realizam cultos litúrgicos com rituais parecidos, como a Eucaristia (Santa Missa).
Muitas igrejas anglicanas, especialmente as construídas durante o século XIX e início do século XX, adotaram a arquitetura neogótica. O Neogótico (ou Gothic Revival) foi um estilo arquitetônico muito popular na Grã-Bretanha, berço do Anglicanismo, e se espalhou por outras regiões onde a igreja se estabeleceu, como o Brasil.
A Capela de São João foi um dos poucos edifícios remanescentes da antiga Cia. Agrícola Rio Tibiriçá. Gália-SP foi fundada em 1924 e tem uma relação histórica com a presença de imigrantes e o investimento estrangeiro dos ingleses.
A Igreja foi construída em um contexto de forte influência da Cia. Inglesa de Navegação e Comércio, que teve um papel relevante no desenvolvimento da região, especialmente no que se refere ao cultivo de café e à infraestrutura de transporte. A igreja foi erguida para atender à comunidade britânica local, composta por imigrantes, comerciantes e trabalhadores que chegaram à região, além de brasileiros que viviam em Gália, na época.
Existem relatos de que este templo em meados dos anos de 1930 seria uma das poucas igrejas dedicadas à tradição anglicana em uma região onde predominavam igrejas católicas. Seu estilo arquitetônico reflete influências europeias, com elementos góticos e características típicas de igrejas construídas para as comunidades protestantes. Seria assim, um ponto de reunião e culto para os ingleses e seus descendentes.
O local permanece como patrimônio histórico, faz parte da memória da cidade e do papel que as comunidades imigrantes desempenharam no desenvolvimento de Gália. A igreja representa não apenas a religiosidade dos imigrantes ingleses, mas também um pedaço da história da formação cultural e econômica dessa região paulista no início do século XX.
A Igreja da Cia. Inglesa hoje e o risco de desabamento
Conhecida como Fazenda dos Ingleses, maior que muitas cidades, ela deixou um relevante e belo patrimônio histórico, que se tornou um ponto quase que turístico, não planejado e cuidado, que atraí as atenções de muitas pessoas.
Construção remanescente da lendária Cia. Inglesa e Fazenda São João, a igreja continua sendo importante para comunidade atual. Embora abandonada há décadas, atualmente é ponto procurado por turistas, ciclistas, amantes de fotografia e casais da região que buscam por um cenário bucólico para ensaios fotográficos de noivado.
Por fora, o prédio chama atenção, mas basta entrar no templo para perceber que as condições são precárias e que tudo pode desabar. Há vigas escorando o telhado. Os vitrais estão todos quebrados, as paredes, pichadas. Hoje não é mais possível adentrar no templo abandonado. Na fachada com portas lacradas há um aviso: “Perigo. Não Entre. Risco de desabamento” afixado pela administração municipal de Gália.
Recentemente integrantes do grupo Piramba foi de bike até a Igreja da Companhia Inglesa e o que foi visto é preocupante. Um patrimônio histórico, cultural e arquitetônico à espera de seu fim trágico anunciado. Parece que esse triste vaticínio está cada vez mais perto. Se permanecer o abandono, o desabamento de sua frágil estrutura virá em pouco tempo e infelizmente não temos notícia de que algo está sendo feito para evitá-lo. A degradação de um patrimônio histórico é lamentável, mas a sua perda, é irreparável, por isso, urge que as autoridades competentes tomem alguma medida para a preservação e, possivelmente, a sua restauração.
Não dá pra se conformar com este fim, porque o lugar guarda uma história tão rica e a igreja traços arquitetônicos tão belos, cujo valor é impossível de se estimar financeiramente. Não há nada que pague a preservação do passado, da história, da cultura, do valor artístico de sua arquitetura, além de ser um lugar que fez parte da vida de milhares de moradores que passaram pela da Fazenda São João, conhecida como a Fazenda dos Ingleses. Os áureos tempos se foram. Hoje ela se tornou um abrigo para pássaros e morcegos, mas, mesmo assim, atrai muitos visitantes, o que demonstra o potencial que lugar tem para atrair um turismo histórico-cultural.
Como é possível verificar nas fotos, a fachada da igreja está com uma enorme rachadura de ponta a ponta, e por dentro, o teto está cheio de aberturas e escorado por estacas de forma precária. As paredes próximas ao altar também apresentam grandes rachaduras, a escada interna de madeira está em frangalhos, e todos os belos e coloridos vitrais da igreja estão quebrados.
Se sonharmos um pouco, ela poderia voltar a ser uma linda igreja, onde poderiam ser celebradas cerimônias religiosas para a comunidade da região, ou, então, uma espécie de museu para resgatar a rica memória da Companhia Inglesa e da Fazenda São João. Ou será que teremos que nos conformar em assistir passivamente a sua progressiva deterioração até a definitiva perda deste inestimável patrimônio de nessa história?
O tombamento e a desapropriação do terreno da Igreja da Cia. Inglesa
A Prefeitura Municipal de Gália, por meio da equipe técnica da área de Engenharia e Arquitetura, realizou um trabalho para a análise das delimitações do entorno da igreja da antiga fazenda da Cia. Inglesa. Estiveram à frente dessa ação as servidoras Daniele Cruz Gonçalves e Daniella Moia.
Essa foi uma etapa importante para o processo de tombamento de patrimônio. O local é de grande relevância por seu valor histórico, cultural e turístico. O tombamento é uma forma de garantir que tal estrutura não se comprometa ainda mais, perdendo suas características originais.
Uma comissão técnica estabelecida para auxiliar no trabalho de tombamento do prédio da antiga igreja contou a participação do sociólogo Marcelinho Uzai, a arquiteta Thaise Tamelini e a historiadora, ex-moradora da Fazenda, Conceição Pinheiro Tamelini.
O vereador na época Francisco Yoshida Junior apresentou um projeto na Câmara de Gália que se transformou em Lei e que dispõe sobre a preservação do patrimônio natural e cultural do município. Tal legislação recomenda que, futuramente, a Igreja da Cia. Inglesa seja, enfim, restaurada.
A Prefeitura Municipal de Gália-SP se manifestou em rede social sobre o assunto:
“A respeito do Tombamento, como já foi divulgado em nossas redes sociais já criamos a lei que tombou esta Igreja como patrimônio histórico e cultural do município, o próximo passo foi fazer a desapropriação para tornar a Igreja do município e recentemente recebemos a imissão de posse, possibilitando que fizéssemos algo para assegurar a integridade das pessoas que por ali passam. Porém como é de se saber o município é pequeno e dispõe de poucos recursos; A prefeitura precisa angariar emendas na esfera estadual e federal para iniciarmos um processo de restauração (que não vai ficar barato). Esclarecemos ainda que em breve estaremos dando início a este longo processo, mas estamos abertos a receber todo e qualquer tipo de doação para auxiliar nisto, a momento estamos a passos lentos, mas não estamos parados e tão logo teremos o nosso e o vosso sonho realizado.”
Em entrevista, o ex-prefeito de Gália Renato Inácio Gonçalves, afirmou que o tombamento da Igreja da Fazenda São João do Tibiriçá foi realizado no final de 2020. Disse ainda, que por esta razão, ninguém mais poderá derrubar ou modificar o imóvel. Agora falta o mais difícil, a recuperação da igreja seja com verba seja privada, federal ou estadual. O problema é que geralmente os políticos não se preocupam muito em destinar recursos para a preservação da história e cultura, porque não é o que mais gera voto, infelizmente.
Esta peculiar e bela igreja preenche todos os requisitos para que o imóvel seja tombado como patrimônio histórico e arquitetônico, mas isso não garante a sua restauração, apenas proíbe que a edificação seja demolida ou descaracterizada. As autoridades locais já envidaram esforços para concretizar o seu tombamento, mas o investimento para a sua restauração não está em consonância com o orçamento do município de Gália.
Vamos aguardar e verificar se serão adotadas medidas para a proteção e restauração desse patrimônio histórico incrível de nossa região ou se permanecerá a contagem regressiva para o seu desabamento sem que nenhuma outra providência seja tomada.
Infelizmente, neste caso, o tempo está jogando contra as pessoas e os grupos preocupados com a preservação. Resta rezar para que as estruturas hoje em frangalhos da Igreja possam suportar a pressão do tempo e das intempéries, e, deste modo, aguardarem o tempo necessário para que haja a destinação dos recursos para que a Igreja possa ser recuperada e voltar a receber visitas com segurança.
Publicação do Tombamento Provisório
Diário Oficial da União
Publicado em: 03/09/2020 | Edição: 170 | Seção: 3 | Página: 233
Órgão: Prefeituras/Estado de São Paulo/Prefeitura Municipal de Gália
TOMBAMENTO PROVISÓRIO Nº 1/2020
O Secretário Municipal de Cultura e Turismo do Município de Gália/SP, no uso de suas atribuições legais e em cumprimento ao artigo 4º, § 6º da lei Municipal 2.533/2020, N O T I F I C A aos proprietários dos imóveis objetos das Matrículas Imo-biliárias 17.380 e 17.381, ambas do CRI de Garça, imóvel este denominado FAZENDA SÃO JOÃO DO TIBIRIÇÁ, que constam como proprietários as pessoas de ESTHER ENGELBERG, portadora do RG de nº 1.813.933-SSP-SP e do CPF de nº 046.749.168-28, advogada, casada no regime da comunhão de bens antes da vigência da lei 6.515/77 com JOSEF ENGELBERG, portador do RG de nº 1.154.438-SSP/SP e do CPF de nº 006.072.748-91, arquiteto, ambos brasileiros e residentes e domiciliados em São Paulo Capital; CLÓVIS BEZNOS, portador do RG de nº 2.332.535-SSP/SP e do CPF de nº 002.467.788-49, casado no regime da comunhão parcial de bens na vigência da Lei 6.515/77 com VERA LUCIA BEZNOS, portadora do RG de nº 2.993.046-SSP/SP e do CPF de nº 023.488.108-91, amos brasileiros, advogados e residentes e domiciliados em São Paulo/SP; e, NELSON BEZNOS, portador do RG de nº 2.006.375-SSP/SP e do CPF de nº 107.121.608-25, brasileiro, separado judicialmente, economista e com do-micílio na cidade de São Paulo/SP, para que tomem conhecimento de que o Município de Gália/SP, levará a TOMBAMENTO O PRÉDIO E ADJACÊNCIAS da IGREJA exis-tente na propriedade denominada Fazenda São João do Tibiriçá, localizada dentro do limite e jurisdição do Município de Gália, onde está edificada uma Igreja conhecida como “Igreja dos Ingleses” e que se encontra em mau estado de conservação, porém, pela sua história e beleza, despertou na população a vontade de preservar referida construção, cujo Processo de Tombamento nº 01/2020 e documentos que o integram, está localizado junto a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo localizada no Paço Municipal, está disponível para consulta, para que possa ser impugnado, formalmente, no prazo de 15 dias, que, decorrido, sem manifestação, será tido como aceito pelos proprietários. A ausência de manifestação não representará obstrução ao pleno anda-mento desse procedimento de tombamento.
Gália, 26 de agosto de 2020.
EDENILSON JOSÉ NOGUEIRA
Secretário Municipal de Cultura e Turismo
Conclusão:
Já se passaram anos do tombamento provisório da Igreja da antiga Cia. Inglesa e também da desapropriação do seu terreno. Sem dúvida, foi um passo importante e necessário. Porém, infelizmente a realidade do abandono e o risco de desabamento permanecem o mesmo de sempre dos últimos anos. É uma luta inglória contra o relógio e quanto mais o tempo passa, mais se agrava a situação. O maior problema é a falta de perspectiva de que no futuro esse patrimônio histórico tão relevante possa ser finalmente restaurado ou, pelo menos, assegurar a preservação nas condições em que hoje se encontra.
Torcemos muito para que a restauração da igreja vire uma realidade e não fique na promessa. Esse processo é lento e custoso, mas precisa ser levado adiante. Além de a Igrejas ser muito bonita e com sua arquitetura diferenciada, ela incorpora um patrimônio histórico e cultural importantíssimo que justifica todas as decisões e ações para sua restauração. O assunto desperta interesse não apenas para quem viveu na Fazenda São João do Tibiriçá e seus familiares, mas de muitas outras pessoas que chegaram a conhecer a Igreja ou a sua história. Não somente pessoas da região de Garça ou Gália, mas também pessoas que demostraram interesse no tombamento desse valioso patrimônio.
Há um interesse em comum, e por isso, seria interessante que o poder público, a sociedade civil e a iniciativa privada pudessem se unir por essa nobre causa em benefício de toda a região que compreende não só Gália, mas Garça, Marília, bem como todo o Centro Oeste Paulista. Talvez seja possível acelerar a preservação desse lindo patrimônio histórico, impregnado de tanta história, para que seja grande atrativo turístico, já reconhecido pela população. Merece, com muita razão, toda a atenção e esforços conjuntos para que a almejada restauração da igreja da Cia. Inglesa torne-se finalmente uma realidade. Se isso ocorrer, irá alavancar a economia desta região do Estado de São Paulo e ainda preservará um importante patrimônio histórico-cultural.
Quanto maior é a demora em restaurar o imóvel, maior é o risco de deterioração de sua estrutura. O estado de conservação é tão ruim que dá a impressão de que o seu desmoronamento é iminente. Assim, é preciso ver se a estrutura da Igreja irá suportar até que restauração seja realizada. O tombamento é uma notícia a se comemorar, mas ainda assim insuficiente para mudar a triste realidade de abandono. Agora é necessário que sejam dados os próximos passos para a sua restauração.
Há 10 anos, quando se passava de bicicleta pela Igreja, não havia visitantes. Hoje salta aos olhos que a Igreja tem sido mais frequentada, principalmente nos finais de semanas. Além de ser muito visitada por ciclistas, muita gente vai de carro também. Um dia desses, membros do Piramba encontraram uma van de turismo repleta de gente e mais um casal de noivos tirando fotos com fotógrafo profissional, entre outros carros.
Possivelmente, um dia a Igreja voltará a ter os propósitos para os quais ela foi construída, ter uma celebração missa, casamentos ou batizados. Não faltariam interessados em ali participar de uma cerimônia religiosa em um local tão encantador.
Faz-se necessário que entes federativos com orçamento mais robusto abracem a ideia. O recurso teria que vir do Governo Federal, Estadual de São Paulo ou mesmo de emendas de deputados seja federal ou estadual ou até mesmo de empresas inglesas presentes no país. Mas para isso ocorrer, é preciso divulgar o problema e denunciar o abandono. Somente com muita mobilização, pressão, conscientização do valor do patrimônio histórico-cultural e sensibilização das autoridades é que pode haver a destinação dos recursos necessários para a restauração da antiga Igreja da Fazenda São João.
Quando foi colocada luz ao abandono da Igreja da Cia. Inglesa e a denúncia de sua situação, o seu tombamento se tornou realidade. Mas cabe também à Prefeitura de Gália envidar os esforços necessários. Uma cooperação com a Prefeitura de Garça seria uma possibilidade, porque ambas as cidades poderiam se beneficiar com a iniciativa. A Igreja Católica também poderia contribuir com a missão como também setores da sociedade civil. É de se cogitar fazer até mesmo uma solicitação para entidades de preservação da história inglesa, como a embaixada ou o consulado em São Paulo, uma vez que seria de interesse dos próprios ingleses preservar suas memórias, cultura e história. A preservação do patrimônio histórico interessa também aos descendentes dos ingleses que viveram essa experiência de décadas no interior do Estado de São Paulo, do outro lado do Atlântico, distante de suas terras natais. É uma história interessantíssima, que tem na Igreja o seu símbolo mais vivo atualmente e que remete diretamente a um período e local que não podemos deixar cair no esquecimento, o que acontecerá inevitavelmente, em caso de seu desabamento.
Não importa a origem do recurso, porque o importante é que ele venha e seja bem aplicado. De qualquer forma, é preciso ser realista. Não há solução simples para este caso, o tempo joga contra, e este é inexorável, não perdoa nada e nem ninguém. É preciso convencer a sociedade civil organizada da necessidade de se investir na restauração do templo, antes que seja tarde demais ou que torne a tarefa tão mais custosa que acabe por ser inviabilizada economicamente. Uma restauração se faz urgente.
Sobre o autor: Rudi Ribeiro Arena, servidor público federal do INSS, bacharel em direito pela PUC-Campinas é um dos fundadores do grupo de ciclistas Piramba de Garça-SP.
Fontes:
GOMES, Alessandro. Sete seções, uma saudade... a história da Companhia Agrícola Rio Tibiriçá – a Londrina que não deu certo. 1997. 80 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Comunicação Social – Jornalismo) – Universidade Estadual Paulista – Júlio de Mesquita Filho, Câmpus de Bauru, Bauru, 1997.
PONTES, Maria Zélia Sellani; BARNEZI, Rosemary Gattás. Doces lembranças de outrora: povoamento do Vale das Antas, 1845-1950: Gália e Fernão Dias. Bauru-SP: Joarte, 2001.
https://sampi.net.br/bauru/noticias/2236719/regional/2016/11/igreja-e-o-que-sobrou-do-apogeu-ingles
https://pirambamtb.com/2021/06/20/enfim-a-igreja-da-companha-inglesa-foi-tombada/
https://galia.sp.gov.br/site/conteudo/informacoes-turisticas
https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/tombamento-provisorio-n-1/2020-275674380
https://pirambamtb.com/2022/04/05/veja-como-esta-a-igreja-da-cia-inglesa-hoje-totalmente-abandonada/
https://pirambamtb.com/2023/02/23/a-desapropriacao-e-tombamento-da-igreja-da-cia-inglesa-em-galia-sp/
https://pirambamtb.com/2016/11/24/um-patrimonio-historico-em-ruina-ate-quando-esperar/
https://www.facebook.com/radioclubewebgarca/videos/945161579605910/
https://wikimapia.org/31047568/pt/Antiga-Cia-Inglesa-em-G%C3%A1lia-Fazenda-S%C3%A3o-Joao-do-Tibiri%C3%A7%C3%A1
https://conteudo.solutudo.com.br/galia/entenda-como-o-declinio-do-cafe-levou-a-igreja-sao-joao-do-tibirica-de-galia-ao-abandono/
https://www.youtube.com/watch?v=9DJKXrCJq6w
https://www.facebook.com/PortaldeNoticiasdeGarca/posts/fazenda-de-g%C3%A1lia-sp-propriedade-que-pertenceu-a-ingleses-no-s%C3%A9culo-passado-est%C3%A1-/1077509952322288/
Vídeo sobre a Cia. Inglesa:
Um documentário sobre a Companhia Inglesa com riqueza de imagens, detalhes e informações. Vale a pena conferir!
Vídeos da Igreja registrados pelo Piramba
Imagens áreas da Igreja da Cia. Inglesa
A situação da Igreja hoje