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“De Honda Pop 100, pela “Rodovia Fantasma”” — por Edgard Cotait
Da chegada a Lábrea ao reencontro com a “Rodovia Fantasma”, uma viagem que celebra aventura, memória e a autenticidade amazônica.
17/11/2025 17h07
Por: Redação Fonte: Edgard Cotait

No dia seguinte deixamos Humaitá para trás e já no final da tarde, chegamos à cidade de Lábrea, o ponto final da rodovia BR-230, a Transamazônica. Esta rodovia federal tem 4.320 km de extensão, cruzando sete estados brasileiros, indo de Cabedelo (PB) até a pequena, mas peculiar cidade de Lábrea (AM). Esta via é famosa por ser um projeto ambicioso e polêmico, com grande parte do seu trajeto estando ainda em condições precárias e com pontes de madeira.
















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Celebramos com entusiasmo a nossa chegada à Labrea, pois este sempre é um momento especial para todos os apaixonados por aventuras. Depois de enfrentar o calor úmido e intenso desde as primeiras horas da manhã, fomos em busca de uma casa de sucos para nos refrescar e aproveitar as delícias das frutas regionais da Amazônia. Como não poderia deixar de ser, o “grande campeão” foi o suco de cupuaçu, ainda mais saboroso ali, servido em seu estado natural e sem conservantes. Estava simplesmente perfeito! Foi um verdadeiro privilégio saborear aquela refrescante delícia enquanto admirávamos o esplendor do Rio Purus, que seguia seu curso manso e majestoso. À nossa frente, um movimento frenético de motos e pedestres que chegavam ou partiam do porto de Lábrea se misturava ao vai-e-vem constante das “gaiolas”, como são conhecidas as típicas embarcações amazônicas. Afinal, o Rio Purus é um dos grandes afluentes que compõem a imensa e fascinante bacia hidrográfica do Rio Amazonas.






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Na manhã seguinte, partimos de Lábrea em direção ao entroncamento das BRs 230 e 319 (a Manaus-Porto Velho), vencendo trechos de estrada em más condições de conservação ao longo de quase 200 quilômetros. Como fazíamos o percurso em uma moto de 100cc, a travessia consumiu praticamente toda a manhã. Ao chegarmos ao Rio Mucuim, aguardamos por alguns minutos até embarcar em uma balsa disputada. Após a travessia, retomamos a viagem e, já sob o forte calor, paramos para descansar à sombra de uma árvore à beira da estrada. Foi então que fomos surpreendidos pela gentileza do Felipe, morador da região e vendedor de vestuários, que estacionou ao nosso lado e nos ofereceu uma água deliciosamente gelada, o refresco perfeito para hidratar o corpo e renovar as energias. Ele ainda nos forneceu o suficiente para reabastecer nossas mochilas camelback. Antes de seguir caminho, o Felipe nos alertou para não permanecermos ali por muito tempo, devido ao risco de sermos surpreendidos por onças que circulam pela área. Não por acaso, essa região do Amazonas é conhecida como o “berço de onças”, tamanha a quantidade desses magníficos felinos que ali habitam. Nossa despedida momentânea da Transamazônica não poderia ter sido mais autêntica: um almoço de açaí com farinha, preparado desde a seleção das sementes pelas mãos habilidosas da Dona Lúcia, moradora de uma comunidade às margens do Rio Ipexúna. Mulher de poucas palavras, mas de presença acolhedora, ela nos recebeu com aquela simplicidade generosa tão característica dos moradores da região. O açaí, fruto emblemático das palmeiras amazônicas, ocupa um lugar importante na alimentação dos povos do Norte, para muitos, faz as vezes do feijão, tamanha sua importância nutricional e cultural. Além de tudo, o açaí é um verdadeiro motor da economia do Norte: impulsiona desde a colheita, ainda majoritariamente extrativista, até o beneficiamento das sementes e a comercialização nas cidades, movimentando inúmeras famílias e comunidades ao longo de toda a cadeia produtiva. Tradicionalmente, é servido com farinha de tapioca, combinação que alimenta corpos e histórias há gerações. E aqui, permitam-me compartilhar uma dica preciosa: afiem bem a dentadura, porque esse tipo de farinha exige força extra e uma boa dose de determinação... rs




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BR319, A RODOVIA FANTASMA Seguimos por mais 10 quilômetros até alcançarmos o mítico entroncamento da Transamazônica com a BR-319, a rodovia Manaus–Porto Velho, hoje também conhecida como “Rodovia Fantasma”. Sem dúvida, essas estradas figuram entre as mais desejadas pelos apaixonados por aventura. O Anderson, tomado pela simbologia do momento, recolheu uma pá de terra para guardar para sempre, algo para mostrar aos netos. Para mim, aquele foi um dia especialmente marcante. O retorno à “319” mexeu profundamente comigo, pois sempre nutri grande empatia pelas regiões quentes e de floresta. Rever aquela placa desgastada, a mesma que vi anteriormente, me encheu de emoção e trouxe de volta lembranças da já longínqua primeira vez em que estive ali. Naquela ocasião, eu e meus três amigos estávamos usando quatro Hondas XR250 Tornado.


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Chegamos ao Igarapé Realidade, onde almoçamos e aproveitamos para fazer os preparativos finais nas motos, e também para passarmos a noite por ali. Nossa refeição foi em um pequeno restaurante próximo, à beira da “319”. Durante a conversa com a proprietária, mencionei que havia estado no local pela primeira vez em 2005. Comentei que dessa vez tudo estava diferente: naquela época, o Igarapé Realidade não passava de um pequeno agrupamento com cinco ou seis casas e um barzinho-mercadinho bastante simples. Recordei também da grande antena parabólica que conectava o telefone público, o antigo orelhão. Ela ficava quase na vertical, apontada a cerca de 90° para o céu, e fazia sentido, pois assim precisava ser para captar o sinal do satélite Amazon Sat, geoestacionado sobre a Amazônia.

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Hoje, tudo mudou. O vilarejo conta com acesso à internet, posto de gasolina (caro, mas existente), oficinas mecânicas, farmácia e outros serviços que antes pareciam impensáveis chegar ali. A pedido da dona, mostrei algumas fotos de 2005. Ela se surpreendeu ao reconhecê-las: o rapaz que aparecia em frente ao mercadinho era seu primo. Contou-me, emocionada, que o avô — antigo dono do estabelecimento — havia falecido há apenas dois meses. Pediu que eu lhe enviasse as fotos pelo WhatsApp. Seus olhos se encheram de lágrimas… As fotos a seguir são de 2005.









Até a próxima!

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“Dias inteiros de calmaria, noites de ardentia, dedos no leme e olhos no horizonte, descobri a alegria de transformar distâncias em tempo… A transformar o medo em respeito, o respeito em confiança. Descobri como é bom chegar quando se tem paciência. E para se chegar, onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão. É preciso, antes de mais nada, querer.” Amyr Khan Klink