Rio é um curso de água doce, mais ou menos torrencial, que corre de uma parte mais elevada para uma mais baixa e que deságua em outro rio, no mar ou em um lago. Definir rio é basicamente isso, e muda muito pouco de um dicionário a outro, mas muito pouco diz também sobre a importância dessa palavra tão pequena.
Vivemos em meio à água, mas quase que em totalidade, as águas que nos rodeiam estão nos oceanos, sendo assim, são impróprias para as necessidades e o consumo humano. Diante disso, todo rio é sagrado, bem valioso, e para que a vida prolifere e que não haja briga, em cada região do planeta existe um rio de extrema importância. Algo em torno de vinte rios são considerados imprescindíveis para as civilizações que os rodeiam, tendo como exemplos o Amazonas aqui no Brasil, o Nilo na África ou o Ganges na Índia.
O Ganges é o rio mais venerado do planeta, base espiritual da Índia. Às suas margens se desenvolveu a civilização indiana; ele provê o sustento, pois que nas épocas das monções, seu volume de água irriga grandes extensões de terra favorecendo a agricultura. Mas, para os indianos, ele é muito mais que um rio: Ele é um deus, um templo, um cemitério, um local para lavar roupa suja, curar males, fazer oferendas, brincar, meditar, tomar banho, saciar a sede... Suas águas consideradas sagradas escondem muito mais que a fé de um povo crente e místico.
De mais venerado a mais poluído, ele nasce no Himalaia, puro e cristalino, mas durante o seu percurso de fé e peregrinação vai mudando de cor, passando pelas nuances do cinza, até um rosa muito suspeito...
Ele está morrendo... E como não poderia ser diferente, está levando com ele toda a vida. Na verdade, para resumir e ser bem pessimista, sua principal utilidade nos dias atuais é dar guarida a morte, pois que ele esconde a sujeira de séculos de cadáveres, oferendas e cinzas, sem contar os esgotos de casas, indústrias e hospitais, lançados em suas águas diariamente.
Para os indianos ele é a própria deusa que desceu à Terra e nas suas águas passou a habitar, intermediando entre os mundos dos vivos e dos mortos; quem for levado por suas águas terá o destino garantido até a purificação, interrompendo assim os ciclos de reencarnações, atingindo o ambicionado nirvana. Fácil assim! Por esse motivo, os mortos são queimados em piras às margens e suas cinzas espalhadas sobre as águas. Crianças e grávidas, por serem considerados puros, são isentos do fogo, e sendo embalados e amarrados a grandes pedras, eles afundam... Por algum tempo; logo estão dando o ar da graça na superfície. E como os puros não têm formas, as vacas, consideradas animais sagrados e consequentemente puros também, acabam tendo o mesmo destino dos bebês, então dá para imaginar a quantidade de cadáveres se decompondo em suas águas. Sem contar os leprosos, as milhares de famílias que não têm condições de pagar a cremação... E joga o defunto no rio!
E ainda há os mortos picados por cobras, uma serpente típica da região; esses não podem ser cremados, pois a picada nem sempre mata, e muitas vezes o morto volta à vida depois de alguns dias, então o suposto morto é colocado em uma jangada e levado correnteza abaixo! E se você, assim como eu, pensou nos motivos de não levar esse pobre comatoso a um hospital, lembre-se que quase metade da população vive abaixo da linha da pobreza.
Cerca de dois milhões de indianos se banham e bebem das suas águas diariamente, um costume antigo que traz muito mais que pureza espiritual, um costume que pode literalmente fazer morar entre os deuses.
E como não poderia ser diferente, a visão às margens do rio é triste... Cadáveres em decomposição, exibindo humilhantes posições dos seus corpos inchados, centenas de quilômetros longe de casa, servindo de banquetes para toda sorte de animais... E pasmem! Inclusive animais humanos! Na minha fraca concepção, um desrespeito para com o ente amado que poderia estar longe de olhares e bocas famintas. Mas, como eu disse, a concepção de quem não crê – ou crê em algo diferente – pode ser muito fraca.
E antes que eu seja traída pelas minhas palavras e passe a imagem de oposição ao Hinduísmo, quero dizer que não! O hinduísmo é a terceira maior religião em número de adeptos no mundo, eles acreditam na não violência, sendo seus seguidores quase que em totalidade vegetarianos, por crerem que podem reencarnar entre animais caso tenham débitos para com eles. Uma crença que para muito “sábio” pode parecer ridícula, mas que foi a primeira grande manifestação em prol dos animais conhecida pela nossa humanidade.
Mas, estranhamente, contradizendo essa não violência, o rio morre... E com ele centenas de espécies de peixes e anfíbios; outrora, nas águas sagradas viveu o Golfinho do Ganges, um dos mamíferos mais raros do mundo, o último descendente do mais antigo grupo de golfinhos do planeta, que viveu nos mares há milhares de anos. Golfinhos de água-doce, ou botos como os conhecemos aqui no Brasil, vivem em rios e são animais em sérios riscos de extinção, pois os rios são limitados, existem as hidrelétricas, a caça predatória e a poluição. O espécime do Ganges em 2010 entrou para a lista de animais em extinção.
As crenças nascem das nossas necessidades, inspiradas pelo Alto, mas elas são interpretadas de acordo com o ambiente inserido, mudam com o passar tempo, e não existe religião melhor ou pior; o que existe em qualquer uma delas é a ânsia na busca por algo que torne nossa estadia nesse planeta um pouco melhor, mesmo que nesse processo, se transforme um rio que dá a vida, em um rio que leva e traz a morte...
Vanderli do Carmo Rodrigues