
“O Jalapão é bruto!”. Essa frase que você certamente já ouviu em algum momento. E exatamente. É assim, mesmo.
Já há algum tempo vínhamos ouvindo algumas histórias sobre um paraíso que durante os anos 80´s, o mega-traficante colombiano Pablo Escobar manteve no Deserto do Jalapão, no Estado do Tocantins. Isso aguçou muito a nossa curiosidade em conhecer aquela região. Localizado no coração do Brasil, este deserto já era alvo antigo na nossa lista de desejos, pois é uma viagem com promessa certeira de dificuldades e aventuras. Essa região se situa em uma tríplice divisa dos estados do Tocantins, Goiás e Bahia. Montamos nosso planejamento para que fosse uma viagem rápida e de baixo custo. Eu e o amigo André Luiz Santos temos grande paixão por áreas pouco civilizadas, pelas regiões de sertão, dos lugares agrestes. O Deserto do Jalapão era então exatamente o que buscávamos. Nossas motos eram duas “parrudas” Yamahas XT660 Z Ténéré. Como vínhamos de uma seqüência de viagens internacionais, pudemos então, resgatar o prazer de viajar pelo nosso próprio país. Assim, partimos de São Paulo já num final de tarde, fazendo nossa primeira parada em Uberlândia/MG.
Foto: https://photos.app.goo.gl/YJRp6LqyiVmBK3vN8
Foto: https://photos.app.goo.gl/HmYNXh9UYKU5BofU9
Portávamos intercomunicadores acoplados aos capacetes, o que nos possibilitava não apenas aumentarmos a segurança e rendimento de estrada, como também estabelecermos conversas entre os pilotos, afastando situações de monotonia, ou ainda ouvir músicas, enquanto o asfalto passava rápido por debaixo de nós. Findado mais um dia, pernoitamos na pujante cidade de Luís Eduardo Magalhães/BA, um poço de tecnologia e já próximo do almejado destino. Graças à excelente autonomia, e aliada a um pacote técnico eficiente, nossas motos oferece-nos desempenho e supremacia frente ao tráfego, permitindo-nos um excelente rendimento de estrada nos trechos de deslocamento. Surpreende o desenvolvimento e a boa qualidade de vida das regiões pelo qual passamos, até então. Excetuando-se a área mais crítica visitada, o do polígono da seca, já bem ao norte do Estado da Bahia e entrada no Estado do Tocantins, definitivamente aquela antiga imagem de altos índices de pobreza que tinha o Nordeste deve ser descartada. Esse fato se mostrava ainda mais, não somente pela sensível piora na qualidade do asfalto já desde a divisa Bahia/Tocantins, como também com suas pequenas cidades e vilarejos, que refletiam a rudeza do local. Como contraponto aos fatores econômicos mencionados, é diferenciada a maneira hospitaleira, franca e aberta com a qual as pessoas te recebem, mesmo que por vezes desprovidas de recursos materiais ou financeiros. O Deserto do Jalapão tem a dimensão de 34 mil km², e seu nome vem da planta jalapa, um ótimo purgante natural utilizado pelas comunidades quilombolas. É uma das poucas paisagens nacionais que se mantém praticamente intacta frente à pressão da civilização moderna, sendo que sua densidade demográfica, com cerca de 0,8 hab/km², é considerada baixíssima. Mesmo com tanta aridez, essa região conta com uma imensa quantidade de rios e riachos de água transparente e potável. Mas por baixo da vegetação rasteira, o solo é constituído de muita areia, a mesma areia que forma as estradas, trazendo dificuldades de deslocamento à grande parte do Jalapão.
Chegamos à Dianópolis/TO logo pela manhã, adquirimos provisões básicas, como água potável e alimentos não perecíveis. Partimos então, rumo à Ponte Alta do Tocantins. Na pequenina Rio da Conceição o asfalto termina e a diversão começa.
Foto: https://photos.app.goo.gl/kpCayujZwGFQy9xH8
Apesar de notícias que recebemos de nossos familiares dando conta de uma forte onda de frio no centro-sul, passamos estes dias sob céu azul e calor intenso. Por todo Jalapão predominam retas longas, com aclives e declives suaves, a perder de vista em meio a um visual árido e de árvores ralas, baixas e retorcidas, características das áreas de cerrado. O piso varia entre pedras, piçarra, e com longos bancos de areião que já iam nos apresentando seu “cartão de visitas”. É preciso atenção com algumas canaletas formadas por erosão que constantemente aparecem quando menos se espera, especialmente nos topos das subidas, e cuja extensão pode cruzar a pista de fora a fora.
Foto: https://photos.app.goo.gl/kKFd3AC4qNnfW3Er6
Foto: https://photos.app.goo.gl/YwfUe1meyQ3SVUwc7
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/b4wiaxS8jb9HvjMYA
E assim aparece a primeira atração, uma queda d'água maravilhosa, a Cachoeira da Fumaça. Suas atraentes águas transmitem uma convidativa sensação de frescor, frente ao calor insuportável. Isso aguça o desejo para um banho gostoso. Mas, calma! Estamos no Jalapão, e aqui nem sempre as coisas são tão simples como possam parecer. A ponte que cruza o rio já estava em péssimas condições devido ao abandono. Some-se ainda também ter sido alvo de vândalos, que a atearam fogo. Sua travessia oferece riscos reais, exigindo habilidade e paciência, pois em alguns pontos restavam apenas as estreitas longarinas centrais, mas sem as travessas, formando vãos com até 5 metros de comprimento. Detalhe: por baixo corria um rio caudaloso, que deságua ali mesmo, em uma cascata alta e “nervosa”. Estávamos tensos, pois qualquer erro significaria a queda de uma moto diretamente em uma correnteza forte, volumosa e profunda. Ou em pior hipótese, a de um piloto. Na ponte, achamos um dos pranchões de madeira que estava solto. O arrastamos e o colocamos ao lado de uma das longarinas, de forma a que eu fosse atrás equilibrando e empurrando a moto (desligada), enquanto meu companheiro iria no pranchão ao lado, manejando o guidão, e dirigindo-a. Porém, a cada passo dado, o pranchão cedia um pouco mais, envergando, e chegamos ao centro do pranchão com o André já na ponta dos pés. Quase derrubamos uma das motos de tanto rir daquela situação, que havia se tornado hilária.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/Pnmedn1gvpyLnMmZ6
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/oHeWdwgZ9eg1uENy5
Foto: https://photos.app.goo.gl/dRSjiEgm3UFAYUgD6
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/ehVdxeTB89uMMUfv7
Atravessamos a segunda moto e, enfim, pudemos nos deliciar nas águas mornas do Tocantins. Ficamos cerca de três horas naquele lugar, nos refrescando e aproveitando o momento. Nosso almoço foi improvisado: salame, pão e água, saboreados à sombra generosa de uma enorme árvore bem a beira do rio. Para quem vive o seu dia a dia oprimido em uma grande cidade, mas disposto a viver situações como esta, não há nada melhor do que poder se desconectar da rotina maçante, se permitir e valorizar a importância da simplicidade. Motos prontas novamente, era hora de continuar.
Foto: https://photos.app.goo.gl/cxdDBxFqEDFNoRNFA
Foto: https://photos.app.goo.gl/3ATtrXpBCQ3SQfap8
Foto: https://photos.app.goo.gl/CB1e91w6SuZAZ9tS6
Foto: https://photos.app.goo.gl/rBr4zZ3Uum6C1jaq8
Foto: https://photos.app.goo.gl/2q2bwautwYYpZAhB6
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/pmzYTwggVDzBGWt28
Foto: https://photos.app.goo.gl/4HvKWzc7E5en5cBj6
Na entrada da Pedra Furada, a areia estava muito alta e acabei caindo, com a moto ficando por cima da minha perna. Tentei levantá-la para me soltar, mas não consegui devido ao peso do conjunto moto/bagagem. Rapidamente o André chegou e resolvemos a situação.
Foto: https://photos.app.goo.gl/9p699xTknLAVRrmd7
Foto: https://photos.app.goo.gl/EN67PPbJVMzEx5EH6
No dia seguinte, partimos de Ponte Alta do Tocantins, com destino à Mateiros. Ainda próximo a cidade, visitamos a cachoeira da Suçuarana, formada nos paredões de uma vala.
Foto: https://photos.app.goo.gl/qPqxC1YDqcwwhuGB8
O calor, impiedoso, batia forte! De Ponte Alta do Tocantins até Mateiros são 161km, e é lá que se situam os trechos com maiores dificuldades, em termos de areia fofa. Some-se a esta distância, mais 70km de ida e volta à cachoeira da Velha e à praia do Rio Novo. E é justamente naquele caminho que ficava nosso principal objetivo: o paraíso que o narcotraficante colombiano Pablo Escobar manteve secretamente por anos, em solo brasileiro. Logo na entrada da Fazenda Santa Marta, há um enorme galpão onde antigamente funcionava o laboratório de processamento de drogas, sendo que esta foi a principal refinaria de cocaína do conhecido traficante, morto em 1992. Há inclusive, uma pista com piso de concreto para pousos de aviões, visando o escoamento de drogas já processadas. Durante a operação de desmonte feita pela Polícia Federal brasileira, foram encontradas mais de sete toneladas da droga pura, pronta para ser comercializada. Pablo Escobar era amplamente conhecido como um dos maiores, se não o maior, traficantes de drogas do mundo. Hoje, este local serve a outro fim: é a sede do Parque Estadual do Jalapão. Os passeios são gratuitos, necessitando-se apenas assinar um livro de visitas. Mais alguns quilômetros, ao chegar à cachoeira da Velha, e veio a sensação de que valeu a pena todo e qualquer esforço para se chegar até aqui.
Foto: https://photos.app.goo.gl/L9tc2Fuh2YAKGB8r9
Foto: https://photos.app.goo.gl/7ngRWAUkhX6YALXw7
Após algum tempo observando esta beleza natural, seguindo um pouco mais a frente, chegamos a praia do Rio Novo. Resumindo este local em poucas palavras: Deslumbrante! Magnífico! Exuberante! Logo ao chegar já me lembrou os rios isolados, daqueles que passam nos documentários de TV, com pássaros em grande atividade, céu profundamente azul, calor, águas mornas, areia branquinha, e paz, muita paz... Ficamos quatro horas naquele local, sem que aparecesse outra pessoa. Particularmente, foi um dos momentos onde senti mais aflorada a sensação pessoal de felicidade. De muitos lugares pelo o qual já viajei, este é especial, um dos lugares mais maravilhosos na qual já estive.
Foto: https://photos.app.goo.gl/BouhEsqyZnK5Zvnh8
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/yfbqMeJZ6hxA9Btk8
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/dM1UfCkVF3ymZKq57
Foto: https://photos.app.goo.gl/FB5Mbi46c5hwnfGv9
Porém, assim como as águas do rio seguem seu caminho, também tínhamos mais estradas a percorrer. Voltamos à sede da fazenda, e pedimos água gelada ao administrador do Parque para repormos nossos estoques, o qual providenciou imediatamente e de bom coração. Sempre com um sorriso aberto no rosto, Guilherme nos disse que freqüentemente auxiliava aos turistas, seja com água, alimentação ou mesmo com pernoite, caso fosse necessário.
Foto: https://photos.app.goo.gl/Qh2eDEh84dSM8Po89
Foto: https://photos.app.goo.gl/Q4GvcPbDrXCxnPsA9
Foto: https://photos.app.goo.gl/8o6w46aBNXkRNBzx8
“O Jalapão é bruto!”. Cada quilômetro é uma vitória e sabíamos que teríamos de percorrer uma boa parte do trajeto de noite. Ao longe, “te acompanham” as formações rochosas típicas desta região, que esculpidas pelo tempo, deixaram-nas com formato de mesa. Os bancos de areião foram se apresentando cada vez mais longos e profundos. O medo de danos ao sistema de embreagem é constante, mas você vai se adaptando, de maneira a poupar o equipamento ao máximo e sempre que possível. Passar pelas areias do Jalapão tornou-se uma mescla entre pilotar, pedalar, que é continuar sentado na moto, mas sem colocar muito peso, pois isso só a fazia afundar mais na areia, e empurrando a moto pesada, num cansativo e repetitivo processo de pilotagem. O Deserto do Jalapão é um local em que a natureza te força a ser forte. Ás vezes até mais forte do que você realmente é. Mas não resta outra opção. Bastante inóspito, te coloca à prova todo o tempo, seja no esforço físico, resistência a temperaturas altas e por vezes, falta de água. Particularmente, prefiro não arriscar muito na velocidade nos areiões mais “grossos”, pois podem acontecer lesões de maior gravidade à integridade do piloto. Frente a tantas dificuldades, algumas quedas devem ser encaradas com naturalidade, sendo que na maioria das vezes ocorrem em local “macio”, e, portanto, sem maiores consequências. Nosso placar de quedas terminou em empate: 3 a 3.
Foto: https://photos.app.goo.gl/Wm8UxmvQGQnVDKyt8
Foto: https://photos.app.goo.gl/BbgraAEEKYd5DQ1v5
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/APnTJwKks2sdvL679
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/SjrfWfAPLPj1APA99
Foto: https://photos.app.goo.gl/P6mc1jcREgeqQMyv8
Foto: https://photos.app.goo.gl/kFZCyGsEZCEwzUJFA
Foto: https://photos.app.goo.gl/mmVfHGSo5JDxYuon8
Foto: https://photos.app.goo.gl/Hb4Grf2n2RAvo7ZHA
Foto: https://photos.app.goo.gl/La26bmcAe5PuC7VP9
Foto: https://photos.app.goo.gl/zwvr2hwKdA8bkJK99
O sol sê pôs lentamente, até que finalmente a noite chegou. Estávamos tranqüilos, pois ainda em Ponte Alta do Tocantins já havíamos reservado uma pousada em Mateiros. Além disso, aquela região não assusta em termos de segurança, em que pese a possibilidade das companhias de “gatinhos” nem sempre bem-vindos. O céu, maravilhoso, estava “coalhado” de estrelas e constelações. Especialmente quando identificamos as “Três Marias”, remetemos nossos sentimentos ao dia em que acampamos na imensidão branca do Salar de Uyuni, na Bolívia. Mesmo com todo sofrimento e desconforto, aquele também havia sido um momento inesquecível, tal qual a este que estava acontecendo.
Foto: https://photos.app.goo.gl/x28utNEhMEYPsaej9
Foto: https://photos.app.goo.gl/JxKYhj84iJMR9JRAA
Foto: https://photos.app.goo.gl/QozaMwkeXF3CGxbL8
De repente, bem a nossa frente e numa velocidade absurda, um risco esverdeado cortou o céu, iluminando-o. Era uma “estrela cadente”. Na verdade, o resultado do atrito entre corpos sólidos vindos do espaço com a atmosfera terrestre. Os chamados meteoritos. Resolvemos parar em cima de uma ponte e ficamos contemplando o lugar, os sons, os aromas, a penumbra, por quase uma hora. A lua apontava com delicadeza os contornos do relevo ao nosso redor. Chegamos a Mateiros por volta das 23:00hs.
No dia seguinte, fomos conhecer a comunidade do Mumbuca. Distante 35 quilômetros do centro de Mateiros, foi nesse lugar, formado por uma maioria de descendentes de escravos, que surgiu o popular artesanato em capim dourado, uma arte que conquistou até mesmo fama internacional. Este capim cresce nas veredas de abril a junho e é colhido em agosto e setembro, sendo uma espécie endêmica a esta região. Ali, fomos recebidos por uma senhora, que nos fez uma cantoria de boas vindas.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/Sxy727k6BhaSi1pA6
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/nozicHiMj9zNJw2f9
Foto: https://photos.app.goo.gl/TFNPjQzmuo3yJzWV9
Foto: https://photos.app.goo.gl/amzJNxSKZgVRJh3CA
Foto: https://photos.app.goo.gl/K2qsQTeHRopEtpgTA
Seguimos para a cachoeira da Formiga, que sem dúvidas é a mais bela de todas. Que lugar perfeito, meu Deus! Com águas límpidas, transparentes e refrescantes, permitem lindas fotos e filmagens submersas. Ali, foram mais três horas sem que nenhum outro visitante chegasse.
Vìdeo: https://photos.app.goo.gl/ZtygUWj6w1VaNVAU7
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/3ccMsgqkC3zmC5zu5
Foto: https://photos.app.goo.gl/Jbwsh4rswy6bKqbF6
O Fervedouro é outra atração imperdível. A proprietária contou-nos que quando foi descoberto àquele local, e por ainda ser algo desconhecido, as primeiras pessoas que se arriscaram entrar na água o faziam com cordas amarradas à cintura.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/hxjKqEd2nhH9JMuSA
Foto: https://photos.app.goo.gl/CZpPZgqc8AiXTnts8
Foto: https://photos.app.goo.gl/ujWQRNRSVHkonehE7
Iniciamos o retorno pela parte norte do Jalapão procurando interagir ao máximo com o povo do local, pois isso sempre traz uma excelente oportunidade de se conhecer as histórias dos cotidianos regionais. Uma delas, era que alguns fazendeiros que tinham seu gado atacado por onças, pagavam algum dinheiro a caçadores que trouxessem a cabeça fresca de um destes animais, como prova da caça. Coisas de um Brasil rural.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/9EvmArVorMuEjL2W7
Foto: https://photos.app.goo.gl/bU5tvRnGVdBmMtVF7
Antes de chegarmos às nossas casas, resolvemos passar um dia no balneário de Caldas Novas/GO para dar um refresco merecido aos nossos sofridos corpos.
Mas como sempre, já planejávamos novas aventuras...
><><
Um dia aprendi que os sonhos existem para tornarem-se realidade.
E, desde aquele dia, já não durmo para descansar.
Simplesmente durmo para sonhar.
Foto: https://photos.app.goo.gl/1RJEZEbJdWh9pk7v6
Foto: https://photos.app.goo.gl/nLzSwAPWtEf9CvRC6