A Liturgia da Palavra deste 19º Domingo Comum nos convida a refletir sobre a importância da fé e da vigilância. No mundo violento em que vivemos, muitas vezes ficamos preocupados e temos a tentação de nos deixar levar pelo desânimo. A Palavra de Deus nos anima: “Não tenhais medo” (Lc 12,32). A fidelidade de Deus no passado é garantia de sua presença no presente.
Na Primeira Leitura (Sb 18,6-9), o livro da sabedoria nos conta a experiência de Israel, que gostava recordar a presença amorosa e libertadora de Deus no passado, para mostrar que era possível superar as dificuldades presentes. A leitura recorda a experiência do êxodo, da “noite” da libertação. Noite trágica de luto e extermínio para os egípcios que, tendo repelido a palavra de Deus transmitida por Moisés, viram perecer seus primogênitos. Enquanto foi noite de alegria e liberdade para os hebreus, que, tendo crido nas promessas divinas, foram poupados e iniciaram a marcha libertadora para o deserto onde Deus os aguardava para estabelecer Aliança com eles. Rever o passado encoraja a comunidade a não parar, a olhar para frente, a ter esperança no futuro. Só a fidelidade aos caminhos de Deus gera vida e libertação.
A Segunda Leitura (Hb 11,1-2.8-19), a carta aos Hebreus nos narra a experiência de Abraão e Sara, modelos de fé para os crentes de todas as épocas. Um exemplo de fé no passado, para a Comunidade continuar firme, apesar das dificuldades do presente. Atentos aos apelos de Deus, conseguiram descobrir os bens futuros nas limitações e na caducidade da vida presente. Pela fé, obedece a Deus, deixa a pátria e parte para o desconhecido. Pela fé, acreditam poder ter um filho, apesar da idade avançada. Pela fé, aceita a ordem divina de sacrificar Isaac, Abraão crê contra toda evidência, que Deus fosse capaz de ressuscitar os mortos e realizar sua promessa de inumerável descendência. Pela fé, caminhou pela vida como peregrino, sem desanimar, de olhos postos na pátria definitiva. As dificuldades continuam ainda hoje, no mundo, na pátria, nas famílias e nas comunidades. São momentos em que devemos continuar acreditando, como fizeram Abraão e Sara, sem desanimar. Uma luz sempre se acende, diante de quem tem fé e esperança.
No Evangelho (Lc 12,32-48), temos a Experiência dos Apóstolos. O texto continua o “caminho de Jerusalém”. Os apóstolos estavam com medo, eram poucos e fracos, num mundo hostil. O mal parece poderoso e se sentem sem condições de se opor. Jesus lhes garante: O Reino de Deus virá com certeza, porque não é obra do homem, mas é um dom do Pai. “Não tenhais medo, pequenino rebanho,
pois foi do agrado do Pai dar a vós o Reino” (v.32). E os convida a uma Vigilância permanente (na “noite”) “Vós também ficai preparados! Porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que menos o esperardes” (v.40).
Jesus exemplifica essa verdade com três parábolas. A primeira, as dos Servos que esperam o Senhor voltar do casamento: “Felizes os empregados que o senhor encontrar acordados quando chegar. Em verdade eu vos digo: Ele mesmo vai cingir-se, fazê-los sentar-se à mesa e, passando, os servirá” (v.37). A segunda parábola sobre o Ladrão que chega de surpresa. Pois a Vinda mais importante do Senhor é no fim da nossa vida, mas há outras vindas que acontecem de repente, como a dos ladrões e que não nos podem pegar de surpresa. E por fim, a do Administrador fiel, que é aquele que cuida do bem de todos os que estão em casa. E conclui, respondendo à pergunta de Pedro: Quem deve vigiar? Jesus afirma que todos, mas, sobretudo, os Animadores da Comunidade cristã, que devem permanecer fiéis às suas tarefas de animação e de serviço.
O Evangelho apresenta uma catequese sobre a vigilância. Propõe aos discípulos de todas as épocas uma atitude de espera serena e atenta do Senhor, que vem ao nosso encontro para nos libertar e para nos inserir numa dinâmica de comunhão com Deus. O verdadeiro discípulo é aquele que está sempre preparado para acolher os dons de Deus, para responder aos seus apelos e para se empenhar na construção do “Reino”.
A Vigilância é uma atitude bíblica, desde a noite da Libertação do Egito, quando o anjo exterminador visitou as casas dos egípcios, enquanto os israelitas de pé, cajado na mão, celebravam Deus pela refeição pascal, prontos para seguir seu único Senhor, que os conduziria através do Mar Vermelho até o deserto.
A Vigilância é também a atitude do cristão, que espera a volta do seu Senhor, que encontrando seus servos a vigiar, os fará sentar à mesa e os servirá. A Comunidade cristã é pequena e frágil. Por isso, os cristãos devem viver em permanente vigilância dando primazia aos valores do Reino e aguardar a chegada do Senhor. Não sabemos quando o Senhor virá. É segredo de Deus. Mas como Abraão e povo hebreu, como cristãos devemos aguardar com fé e esperança sem saber o quando e o como cumprirão as promessas divinas.
Pe. Anderson Messina Perini
Administrador Paroquial da Paróquia Jesus Bom Pastor de Santo André