Colunas COLUNA
“Pés descalços, pés no chão...” — por Vanderli do Carmo Rodrigues
Da infância simples e descalça às escolhas conscientes de hoje, uma trajetória de aprendizado, resistência e respeito aos passos que nos levam a novos caminhos.
06/08/2025 09h44 Atualizada há 5 meses
Por: Redação Fonte: Vanderli do Carmo Rodrigues
Sou a caçula de seis filhos e sempre me questiono como meu pai conseguiu criar a todos nós apenas com um salário de lavrador. Mas entendo que outrora não havia o apelo consumista dos dias de hoje. Não pedíamos nada e não tínhamos nada, a alimentação era o essencial, a vida simples e os brinquedos faziam parte do imaginário... 
Sapatos?  Esse era o maior luxo que tínhamos e quase sempre usávamos aqueles velhos e descartados que os parentes mais “afortunados” doavam. Mas não posso me queixar, pois minha infância foi bem melhor que a infância dos meus irmãos. Sendo a última da prole, eu já usufruía de algumas regalias, pois meu pai já contava com o salário de três filhos, e isso refletia na vida de todos. 
Com oito anos, todos os alunos da escola em que eu frequentava eram convidados a participar do desfile de sete de setembro e esse acabava sendo um evento esperado. Naquele ano seria especial, pois a escola faria um desfile à fantasia, todos os alunos iriam fantasiados de algum personagem da história, e eu encarnaria a rainha egípcia. A roupa era emprestada pela escola, mas os sapatos... Ah, sapatos... 
A própria escola se encarregara de vender sapatilhas, aquelas que ficam feito rocambole quando não estão nos pés; é apenas a sola, um tecido sintético e elástico nas bordas. A minha era dourada, para combinar com o traje exuberante da Cleópatra. Convenci minha mãezinha a me dar o dinheiro para comprar a sapatilha dos sonhos, e enquanto esperava na fila onde a inspetora anotaria meu pedido e daria baixa no pagamento, com a valiosa nota enroladinha na mão, eu me sentia feliz da vida! Pela primeira vez seria incluída em alguma coisa; eu não era diferente das crianças “ricas”, que ao meu redor aguardavam suas próprias encomendas. 
O esperado dia do desfile...  Encontrei minha roupa, mas cadê minhas sapatilhas? 
Depois de muito procurar fui questionar timidamente à inspetora, já tensa, esperando que ela folheasse aquele mesmo caderno onde eu a vira dar baixa no pagamento. Após uma espera que minha ansiedade fez parecer horas, pude ouvir os meus sonhos sendo desfeitos quando ela disse que não havia nada em meu nome...  E ainda tive que ouvir impacientemente dela que eu teria que tirar a meia calça e desfilar descalça...
Chorei sozinha e desamparada, pois naqueles tempos a escola não era um espaço livre onde os pais iam e vinham dando ordens e intimidando professores. Minha mãe me levou no primeiro dia de aula e depois disso eu estive por minha conta para o melhor ou para o pior, já que ela nunca mais pisou na escola. 
Em um canto eu chorava amedrontada ante a possibilidade de ter que desfilar descalça, pois sem a proteção das meias calças, o traje revelaria muito mais que minha pudica inocência permitiria. De repente em meio ao meu pavor, uma mão suave tocou meu braço e um rosto desconhecido me perguntou o motivo do choro. Expliquei entre soluços o meu infortúnio, e ela após ouvir atentamente, descalçou as próprias sandálias e me ajudou a calçar, ficando ela própria descalça...
 O que me lembro daquele dia? Daquela sandália dourada maior que meu pé, daquele rosto até então desconhecido, do alívio e da gratidão que senti. 
A inspetora em questão virou um marco na minha dor. Décadas depois, quando ela se tornou cliente do meu ateliê de costura, eu ainda olhava para ela e via as minhas sapatilhas douradas... 
Sapatos novos eram escolhidos por minha mãe que não possuía nenhum conceito de moda ou combinações de cores, e tinham que durar muito, muito tempo. Minha primeira bota foi aos 10 anos e ganhei depois de implorar por meses... Pensa em um sapato que machucava... De borracha preta, não cedia no pé e apertava todos meus dedinhos, mas tive que usar e reusar, pois quando o calor chegou eu cortei a parte alta e fiz dela um sapato. Usei até que as unhas do meu dedão fizeram um corte na borracha; corte que foi abrindo e quase foi de um lado a outro. Sempre que alguém olhava meus pés, eu tentava escondê-los atrás de alguma coisa. Pés para mim sempre foram motivo de vergonha e dor, e ainda trago as marcas de muitos sapatos ruins que usei ao longo da vida.
Meu primeiro tênis veio aos 15 anos, quando eu já podia pagar por eles... 
Compreensível que adulta eu tenha desenvolvido uma obsessão compulsiva por sapatos. Precisava comprar, precisava ter... Chegava a comprar o mesmo modelo em várias cores diferentes... E tinha que ser de couro, pois o couro é perfeito e não machuca, além de durar muito.
De um lado a outro do mundo, sapatos que custam valores exorbitantes protegendo alguns pés e sapatos feitos de garrafas pet protegendo outros. Os sapatos são uma necessidade inquestionável em nossas vidas, mas virou fetiche, símbolo de status e algumas pessoas fazem uma avaliação completa de você apenas olhando seus pés. E era assim que eu pensava, os pés tinham que estar impecáveis e em belos sapatos... 
Mas isso passou... 
Pés para mim hoje são apenas os mensageiros dos nossos passos, que nos levam onde nossos corações precisam estar, e posso afirmar que mesmo não tendo pés descalços, eu mantenho meus pés no chão...
As mudanças, mesmo que difíceis e dolorosas, são possíveis, afinal hoje eu não compro nada de couro, só uso sapatos de tecido, borracha ou couro sintético e isso foi mais difícil para mim do que parar de comer carne... O gosto da carne já me incomodava, mas os sapatos...  Esses me fascinavam...
Se você pensa que o couro dos animais deve servir para alguma coisa, afinal eles são mortos para o consumo, eles também não precisam ser mortos para o consumo, quem o disse que precisam? 
Eles não seriam mortos apenas para se usar o couro, então se existem sapatos de couro no mercado é porque em algum lugar existe alguém comendo um bife. E antes de virar sapato e tantos acessórios, aquela pele já revestiu e protegeu uma vida...
 
Vanderli do Carmo Rodrigues