Olá, amigos do Portal Garça em Foco!
Acredito que já notaram que tenho fracionado as histórias que publico em pequenas partes, e de viagens diferentes. Porém, desta vez senti a necessidade de postar a sequência da última viagem publicada, pois acredito que valerá a pena cada detalhe vivido e contado. Esta sequência deverá contar com quatro partes.
Então, vamos a sequência à história.
México, de norte ao sul
Como comentado na matéria anterior, choveu muito durante toda a noite, no nosso último dia de Estados Unidos e por quase todo México. Apesar do avançado estágio do câncer que acometia o Paulo, ele não reclamava de nada. Saímos dos Estados Unidos pela cidade texana de Bronwsville. Essa fronteira contava com duas pontes curvas e separadas, sendo que cada uma delas tinha uma mão de direção. O novo país ao qual acabamos de entrar, é o 14.º maior do mundo. Foi impactante deixar os padrões americanos e “mergulhar” na realidade mexicana, um mundo completamente distinto, um do outro. Devido às fortes chuvas, já ao terminarmos a ponte fronteiriça e adentrarmos a cidade de “Heroica Matamoros”, nos deparamos com áreas alagadas, sacos de lixo boiando por todas as ruas e avenidas e um trânsito caótico.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/V92F2HajCchrvbth9
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/XrmuQtr6geooys3k6
Paramos novamente em uma borracharia para verificação da qualidade dos pneus que tínhamos.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/pM4FdNRNMLLy8Cyq9
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Vídeo: https://photos.app.goo.gl/wqwErEPDriaGHZPg9
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/mdnBreU792GSd5L46
A informação era que o posto aduaneiro estaria a 46kms mais à frente. Alguns quilômetros antes de chegarmos aquele local, quase ao terminar uma curva, assustado, notei que um carro que nos ultrapassava veio rápido em nossa direção, desgovernado. Em que pese essa moto com sidecar não oferecer agilidade, joguei para o acostamento o mais forte e rápido que pude, o carro seguia num zig-zag frenético e cada vez chegando mais perto. Juro, naquele momento deixei de acreditar na teoria de que dois corpos não ocupam o mesmo espaço. Não sei como não houve colisão. Eu tentava entender o que estava acontecendo, se era alguém que havia perdido o controle da direção, que talvez tivesse derrapado na pista molhada, ou mesmo que o motorista estivesse alcoolizado. Quando finalmente nos ultrapassou, vi dois jovens de cabelos compridos à gargalhadas, indo embora. Somente no posto de gasolina à frente, é que pudemos entender o porquê daquilo. Aquela região de fronteira está entre as mais violentas e perigosas do mundo, com grupos de guerrilha, sendo conhecida pelo tráfico de drogas, especialmente cocaína, e também pelo tráfico de armas, que abastecem o crime organizado no México. Além disso, é a terra dos “coyotes”, pessoas contratadas para atravessar imigrantes ilegalmente para os Estados Unidos, mas com considerável histórico de golpes e até mortes, após serem abandonados naquela região desértica. Isso explicava as feições sempre fechadas e assustadas dos locais. Outro possível motivo que ponderamos, era o fato de que nossa moto tinha placa americana, expondo o sentimento anti-americanista. Quando chegamos ao local que seria a Aduana, relatamos o ocorrido ao policial mexicano, que respondeu que aquela região era mesmo complicada, com grupos de guerrilha. Depois nos informou não ser ali que deveríamos fazer a documentação e que precisaríamos retornar à Heroica Matamoros, logo na fronteira. Lembram-se das duas pontes que davam acesso à fronteira entre os países? Então. A Aduana de cada país era ali, cada qual em uma nas daquelas pontes curvas. Mas como fazer para acertar a documentação, então? Teríamos que sair do México por uma das pontes, sem termos entrado legalmente no México, e ainda entrarmos nos Estados Unidos, sem também termos saído de forma legal. Além disso, teríamos que retornar para àquela cidade com altos índices e histórico de violência. Foi aí que os policiais mexicanos sugeriram que, devido o motivo nobre da nossa viagem, poderíamos seguir em frente que não teríamos problemas na passagem pelo país. Na verdade, sabíamos que enfrentaríamos complicações, mas também por conta do atentado que havíamos sofrido a pouco, optamos por “pagar para ver” e seguir em frente.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/YXG78CDnWie8bc2m7
Mas a situação pela qual passamos, tendo nosso veículo fechado, deixou marcas e insegurança e, a partir daí a pilotagem se tornou muito tensa, pois não havia como prever se passaríamos ou não por outra agressão como aquela. Mudei minha forma de conduzir em qualquer ultrapassagem, passando a diminuir nossa velocidade abruptamente assim que outro veículo estivesse emparelhado ao nosso lado, evitando assim, possíveis surpresas. Mesmo assim, as estradas mexicanas não colaboravam em nada, pois os acostamentos tinham áreas insuficientes, onde mal cabia um carro, e também a ausência de guardrails, nenhuma proteção de contenção, mesmo com barrancos bastante altos. A cada piscar de olhos, eu nos via “voando” e caindo numa vala daquelas, evidentemente com graves consequências. Some-se a isso, um asfalto molhado, que levou o motor a apresentar falhas. Não conseguimos detectar exatamente de onde vinham, mas fomos acertando a forma de pilotar e de levar aos poucos a moto a sua velocidade normal.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/XUSRP9nGpUUFwNcJ7
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/f8ges8ngS4eQkRAp7
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/6RsvjzAqSLcLks5R7
Frequentemente parávamos em algum mercadinho nas pequenas cidades que atravessávamos, para comprar algumas cervejas Corona para o Paulo, o que demonstrava estar curtindo demais a viagem. Nesta mesma vibe, ele sempre cutucava a minha perna, e eu com medo de que ele não estivesse bem, olhava assustado. Mas era só para me dizer através de mímica, que ele estava com o sorriso de “orelha a orelha”.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/D6UXvMFxy1Xa5mci9
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Em um posto à beira da estrada, conseguimos consertar em partes o problema da partida elétrica, o que ajudou demais.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/Q5aYk98fCVDgyfrr9
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As rodovias pedagiadas eram muito caras e ainda assim, mal cuidadas, com frequentes panelas (buracos) por toda rodagem. Cruzamos comboios do exército mexicano, fortemente armados durante todo o tempo, demonstrando o clima tenso da região.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/W7zNQjtMBobSbqQHA
Pernoitamos em Tampico, e resolvemos comer uma pizza cujo ingrediente principal era a famosa pimenta Jalapeño, iguaria local. Agora, na região litorânea central do país, devido ao período chuvoso, infelizmente não pudemos aproveitar as paradisíacas praias da Costa Esmeralda.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/GwKh6FoN9dX5P69u9
A partir de então, escolhemos trocar o lado do Atlântico (leste) para iniciar a descida pelo Pacífico (oeste). Escolhemos deixar o México pela cidade de Tapachula de Córdova y Ordóñez. Quando estávamos a cerca de 30 km da alfandega, avistamos uma estrutura guichês e com cobertura da estrada. Fomos orientados a parar por um homem, que “chegou firme”, nos mostrando seu crachá com um brasão oficial e perguntando onde estava o adesivo na moto que demonstrava que havíamos feito o seguro obrigatório contra terceiros. Não o tínhamos. E sequer a documentação de entrada no país. Resumindo o que se passou nas próximas seis horas e meia: tentamos argumentar, mas ele nos orientou a seguir até a aduana na fronteira e designou um auxiliar para nos acompanhar, pasmem, na garupa da nossa moto.
Vídeo. Reparem no crachá: https://photos.app.goo.gl/PLSKSE4V4wE8wxGUA
Este, pediu que parássemos num trevo, um pouco antes da aduana, em uma via secundária, até a chegada do “agente” que nos havia parado e assim, seguimos até a fronteira de taxi. O Paulo aguardou na moto, situação da qual não gostei nem um pouco, e me deixando preocupado durante toda a minha ausência. Mas logo voltei para busca-lo.
Vídeo: https://photos.app.goo.gl/5e1LmjFtLZKwxFX87
Após conversarem com uma funcionaria aduaneira do México, disseram-me que seriam 50 dólares para sairmos do país sem problemas. Resolvemos aceitar e, de fato, passamos pelo lado mexicano da aduana empurrando a moto e sem sermos parados. Eu já estava estranhando a situação, e vim a entender então que eles não eram agentes oficiais, mas sim despachantes aduaneiros autônomos. Enfim: bem ou mal, saímos do México. Agora a “briga” era outra, e foi mesmo bem dura: entrarmos na Guatemala.
Vídeo. Este que aparece ao meu lado é quem nos mandou parar antes da Aduana. Esse vídeo foi gravado praticamente encima da ponte que separa os países: https://photos.app.goo.gl/ucaDyzdky8ATQkRw6
Atravessamos o pequeno rio que separa os dois países, estacione a moto e segui para o guichê, onde a atendente, como esperado, não autorizou a nossa entrada. Consegui conversar com um oficial superior, e este também negou a entrada. O terceiro oficial, de patente mais alta, já foi mais taxativo, e me disse para retornarmos imediatamente ao lado mexicano para regularizar nossa saída. Imaginem a minha situação: preocupado com a documentação, com a segurança e bem-estar do Paulo e ainda resolvendo uma situação bem desfavorável. Regressei os 400 metros de distância a pé, até o México, onde tentei argumentar sem nenhum êxito sobre nosso problema. Pelo contrário, o oficial mexicano se dirigiu de maneira ríspida e veemente, dizendo que eu deveria trazer a moto e o Paulo imediatamente de volta ao México. Senti que a coisa se complicava, não só em termos de papelada, mas também em tempo e dinheiro. Imaginem cair nas mãos de funcionários aduaneiros mexicanos, estando em uma posição inferior. Quem está acostumado a viajar sabe que é praticamente impossível entrar ou sair em qualquer país sem estar com toda a documentação em ordem. Só me restava uma única opção, e tentei então minha última cartada: pedi para falar com o chefe geral da alfandega guatemalteca. Os despachantes, de quem eu sentia alguma raiva até então, mostraram serviço novamente, pois ajudaram a me colocar em frente a quem realmente “mandava” no lugar. Fui autorizado a subir ao segundo andar, onde ficava a sala do chefe, o Sr. José. No início, aquele homem franzino, de cabelo e bigodes pintados, também se recusou, dizendo que era impossível entrar na Guatemala naquelas condições. Com humildade e demonstrando respeito ao seu país, atitudes sempre necessárias quando nos trâmites de fronteiras, contei-lhe um pouco mais sobre os motivos da nossa causa, e gentilmente pedi-lhe que me acompanhasse para conhecer o Paulo, que era “descapacitado” (deficiente físico) e também portador de sérios problemas de saúde e, por isso não pôde descer da moto para estar ali, conosco. Senti que uma luz se ascendeu, ao notar ele havia se sensibilizado, se interessando e querendo saber um pouco mais de detalhes da nossa viagem. Aquele havia sido um ótimo sinal. Conversa vai, conversa vem, conversa mais um pouco dali, conversa mais um pouco daqui, até que... BINGO!!! Escutei dele as tão aguardadas e doces palavras “Bienvenidos à Guatemala”!