Se você já atentou para aquele dito popular que diz “de grão em grão a galinha enche o papo”, significa que em algum momento as coisas caminharam devagar para você. E se alguma vez já se pegou pensando que “uma grande jornada começa com um único passo” é bem provável que o desânimo já tenha rondado sua vida. Mas desânimo com fé te resigna a pensar que “tudo tem um tempo sobre esta Terra” e se “nada acontece antes da hora de Deus...”
Mas independente da tua fé ou da galinha que sem pressa vai coletando seu almoço, a verdade inquestionável é que tudo tem um tempo sim, mas você precisa dar o primeiro passo, então caminhe e espere, mas não desanime nessa vagarosa e quase sempre frustrante caminhada.
Dizem os mais sábios que não devemos ser uma ilha, isolados, inacessíveis e tentar vencer sozinhos todos os obstáculos desta vida. Eu concordo, pois se assim fosse teríamos brotado do solo, no meio do nada, sem mãe e cuidados. Não somos e nem podemos ser sozinhos, mas...
Angariar apoio de outros para construir aquilo que o nosso coração idealizou é pedir para ouvir muitos nãos. “Nãos” disfarçados na maioria das vezes, educados, com aquela reticência. E quem lê meus textos sabe como eu amo reticências. Reticência é dar esperança, sonhar com uma continuidade, atiçar a curiosidade, ou apenas iludir com vãs promessas.
E entre as reticências da vida, você verá o tempo correndo entre a pressa do “não tenho tempo...”, o bocejo de “não tenho disposição...”, o lamento de “não tenho dinheiro...”. Ou a dissimulada bajulação – ou falsa modéstia – de “me lembra, porque sua cabeça é melhor que a minha, sou muito esquecido...”
Vou contar uma história que me motivou e que sei vai motivar muita gente.
As monções são fenômenos climáticos que acontecem principalmente no sul asiático, caracterizado por secas extremas e chuvas torrenciais, um período que oscila entre o aguardado e o temido, pois as chuvas devastam, mas elas também trazem a vida tão ansiada nos períodos secos. A ilha de Majuli na Índia fica bem no meio do rio Brahmaputra e costumava ser um oásis da vida selvagem, mas em períodos de chuva, boa parte do solo acaba sendo levado e junto com ele, a vida. Como consequência dessas chuvas, nos últimos 100 anos a ilha perdeu metade do seu território e sem árvores, – que ora são levadas pelas águas, ora derrubada pelas mãos dos homens – a erosão se intensificou e o local antes verde e vivo, transformou-se em um inóspito banco de areia.
Jadav Payeng nasceu em Majuli, mas ainda criança, sua família foi forçada a se mudar por conta de uma dessas inundações. Na adolescência ele retornou, e foi triste ver que o tempo havia transformado o local em um imenso cemitério seco, onde restos de animais jaziam presos na areia. Aquilo tudo o emocionou, uma verdadeira carnificina, ele pensou desolado. Só restando chorar sobre os animais mortos.
Decidido por fazer alguma coisa, procurou ajuda no governo, e dentre as inúmeras e coerentes justificativas, ouviu que aquele lugar era uma zona morta. Ainda decidido de que precisava fazer alguma coisa, buscou pelos anciãos da aldeia, que apesar de pesarosos com a situação, chegaram à mesma conclusão dos governantes. O local estava morto!
Talvez eles estivessem certos, talvez não houvesse nada a ser feito mesmo, talvez o local já estivesse morto...
Mas, ele não desistiu. Algo dentro dele estava decidido a não ouvir as negativas. Procurou novamente os anciãos e conseguiu deles 20 mudas de bambus, e de sacolas nas mãos, onde pendiam alguns tímidos galhos, ele rumou para o deserto a se perder de vista.
Ele começou com as mudas de bambus, que foi plantando próximo da margem e nos bancos de areia, fortalecendo o solo e evitando mais erosões, depois trouxe árvores nativas da região. Regou, adubou, cavou com as próprias mãos, plantou e transplantou. Trouxe formigas vermelhas para ajudar a limpar o solo dos restos de animais mortos transformando-os em adubo, e ao longo de 37 anos, incansável e sozinho ele fez nascer a floresta Molai, nome de uma mascote de sua infância. Caberiam dentro desta floresta, simplesmente, 800 campos de futebol!
Tudo lindo, tudo tão perfeito e deu tudo tão certo, não é? Será?
Bom, todos nós sabemos que não é tão simples assim... Todo bem quando idealizado encontra entraves. Quando o local ganhou vida, inevitavelmente atraiu a vida. Tigres visitaram o local e sem saber que aquele era um local sagrado, mataram quase cem animais domésticos das imediações. E então os rinocerontes também vieram... Os cervos... E inevitavelmente os caçadores. Esses últimos, diferentemente dos tigres, sabiam que o local era sagrado, mas não se importaram. Jadav interveio, se interpôs entre os animais e evitou a matança.
Em 2008 uma manada de elefantes se alojou por lá e se “um elefante incomoda muita gente”, imagine cem! Eles destruíram uma aldeia vizinha, despertando a ira dos moradores que ameaçaram destruir a floresta e matar os animais. Jadav interveio novamente e ofereceu sua vida em troca dos animais, e seu gesto nobre desarmou completamente a intenção dos moradores. Foi a partir daí que sua história se tornou conhecida e ele foi apelidado como “homem floresta”.
Os elefantes se foram... mas voltam todos os anos ficando de três a quatro meses por lá.
A história de vida de Jadav e seu amor pela natureza virou filme e documentário, atraindo a atenção e inspirando outros. Esta história é de Jadav, mas seria injusto parar nele... Uma reticência para incluir todos os “homens florestas” espalhados pelo mundo, os anônimos e abençoados homens e mulheres que encontram na natureza o incentivo para seguir nesta Terra.
Quando estiver desanimado com as coisas que parecem não progredir em sua vida, nas pessoas que negam o apoio necessário, na rotina que mina sua esperança, lembre-se dessa história! Lembre-se do homem que de árvore em árvore construiu uma floresta!
Vanderli do Carmo Rodrigues