Colunas Coluna
“Amigos de verdade estão sempre juntos, mesmo que em espírito – parte 1” — por Edgard Cotait
Uma viagem de coragem, amizade e propósito — cruzando fronteiras para realizar o último sonho de um guerreiro sobre duas rodas
18/07/2025 13h38 Atualizada há 9 meses
Por: Redação Fonte: Edgard Cotait

Por vezes, a vida nos apresenta a alguns desafios que por mais que pareça algo delicado, complicado, insano e arriscado de realizar, deixam a nossa alma com um doce sabor de dever cumprido. Tive a honra de viver uma experiência assim, que no meu entender, foi nobre, única e enriquecedora. 
Então, sente-se aí, pois eu tenho uma história muito bacana para te contar...

Em 2013, o amigo Paulo Rossi, o Poly, de Salvador/BA, que até então nos conhecíamos de muito tempo, mesmo que somente através do Facebook, me confidenciou que passaria por uma cirurgia por conta de um agressivo câncer linfático, na qual se fez necessária a amputação de sua perna direita logo acima do joelho, para tentar conter o avanço da doença. Na época, dei-lhe bastante apoio, mostrei casos de outros amigos que também tinham passado por amputação, tentando passar-lhe fé e confiança de que era possível viver sem um dos membros. E foi nessa ocasião que estreitamos nossa amizade e confiança mútua.
https://youtu.be/nBXgR-u_WLQ?si=yXuoH1j0SKFIr0uA

Após a cirurgia, e buscando um atendimento mais eficaz e adequado, ele iniciou um tratamento em Miami, EUA. Com idas frequentes e de longa duração, em que ficava hospedado na casa de um primo, resolveu comprar uma moto com sidecar (um carrinho acoplado à lateral da moto) e desta forma, poder pilotar sem a necessidade de apoiar os pés no chão. O modelo adquirido foi uma Ural Tourist, de 750cc e ano de fabricação 2013. Para quem não conhece, esta marca é feita na Rússia, cuja história é sensacional e remonta há várias décadas. Com a eminencia da segunda guerra mundial, em 1939, o sanguinário ditador russo Josheph Stalin pediu ao seu alto comando militar, a indicação de um veículo ágil, polivalente e que andasse em qualquer tipo de terreno, fosse neve, desertos, pedras, lama, pequenos rios, etc. A reposta apontou para a BMW R71, de fabricação alemã. Secretamente, cinco unidades foram adquiridas e contrabandeadas para a URSS, sendo três delas desmontadas e estudadas em minúcias. Em 1942, começaram a ser fabricadas exatamente como o modelo das alemãs, sendo que até hoje são produzidas com pouquíssimas alterações daquelas originais. 

No final de abril de 2017, o Paulo me disse que infelizmente seu quadro havia evoluído para metástase em múltiplos órgãos, causando complicações severas, especialmente nos pulmões. Uma situação nada animadora e bastante preocupante. Mas assim mesmo me fez um convite inusitado: de trazer aquela moto para o Brasil. Ele queria doá-la ao Instituto do Câncer de Salvador/BA, onde ele se tratava aqui no Brasil, devendo ficar exposta em definitivo no saguão de entrada, no estado em que chegou: suja, empoeirada, embarreada, mas com o digno objetivo de servir de exemplo e incentivo àqueles que se tratam dos vários tipos de enfermidades severas. Ele não se conformava com a perda do “brilho” pela vida que os doentes que eram acometidos por graves doenças invariavelmente apresentam quando são diagnosticados. Seu intuito era passar a mensagem de que todos deveriam viver com intensidade, desfrutando e aproveitando tudo o que lhes era possível, enquanto houvesse a chama da vida dentro de si. Eu havia acabado de chegar de viagem à Termas do Rio Hondo, na Argentina, onde fui guiar um grupo de motociclistas para assistir ao MotoGP, e por conta de compromissos pessoais e profissionais, nesta eu não poderia ir. Nas nossas longas conversas ao telefone, ele não me deixava dizer não, contava que só confiaria na minha experiência para esta que seria sua última viagem. Acabei sensibilizado pela nobreza da causa, envolvido pelo entusiasmo do meu amigo e por respeito ao ser humano, não tive como falar não. Perguntados se ele deveria ir ou não realizar este sonho, seus médicos foram taxativos: “Vá! Você não tem mais tempo a perder”. O recado era bastante claro. E duro! Me veio à cabeça uma dúvida, que se realmente ele estava com o seu juízo mental normal, ou se era um delírio de uma pessoa naquelas condições e estágio de enfermidade. Eu quis saber se a sua família o apoiava, e ele respondeu que totalmente. Pedi o número do telefone e liguei para sua mãe, pois eu queria me apresentar a ela e ai “checar a veracidade” do apoio familiar. Sem surpresas, encontrei uma Dona Cynthia bastante preocupada, mas entendendo o momento do filho, disse-me que a família o estava apoiando integralmente. Dentro das minhas possibilidades, prometi-lhe que no que dependesse de mim, eu iria cuidar do seu filho, e que o traria bem e de volta para seu lar. Ainda hoje conversamos periodicamente, e procuro tirar as suas curiosidades em detalhes, sobre a viagem em que o filho um dia sonhou e viveu...

É maravilhoso este mundo de duas rodas! Assim que dividi esta missão/aventura com meus amigos motociclistas mais próximos, nosso grupo de Whatsapp começou a “explodir” em apoio, através de uma infinidade de matérias sobre a Ural, vídeos de pilotagem, informações técnicas das mais variadas, sugestões de roteiros, o que me fez sentir um forte acalento, pois senti que não estaria sozinho. Com pouco tempo para planejamento, o Paulo e eu passamos as madrugadas pesquisando um roteiro base e discutindo sobre equipamentos, documentação, mapas de GPS, etc.

25/05/2017. Enfim, chegou o grande dia, o dia da partida. O Paulo veio num voo de Salvador para São Paulo, onde embarcaríamos num voo para Miami. Chegou cansado e bem debilitado em razão da sua doença. O recebi no aeroporto, ocasião em que nos conhecemos pessoalmente, e também lhe apresentei à minha família e ao amigo Cícero Lima, editor da Revista Duas Rodas. 
https://photos.app.goo.gl/hJVQv3FuniopHCxD6

No aeroporto, nos aguardava uma equipe do programa Fantástico, da rede Globo. Durante o meu depoimento, o repórter me perguntou se eu sentia medo, devido a grande responsabilidade a qual eu estava envolvido. Respondi-lhe que não, que eu não sentia medo. Não sei se buscando um tom mais dramático à reportagem, um pouco mais para frente o repórter insistiu em me fazer mesma pergunta, novamente. A minha resposta foi a mesma: não, eu não tinha medo pois eu me sentia preparado para qualquer circunstância que poderia acontecer, não só em relação aos cuidados médicos e pessoais que eu deveria ter com a situação delicada do meu companheiro, assim como pela parte técnica da viagem de moto. Logo seguimos para a ala de embarque. 
https://photos.app.goo.gl/D2Ywc9Fnn1bGNqMt5

Após uma noite bem desconfortável no avião, chegamos às cinco horas da manhã, ainda escuro no aeroporto de Miami, onde o amigo Robson, também brasileiro, nos aguardava para nos levar até a moto, que estava na casa do mecânico, um cubano mal-educado, de respostas ácidas e furtivas, daqueles que mal te olham na cara, e que não fez a manutenção adequada como havia sido combinado (e pago), incluindo a falta de partida elétrica. A moto tinha que ser acionada no pedal, que ficava em uma posição desfavorável, onde mal cabia a ponta do meu pé, e que frequentemente escorregava. Começamos a montar a bagagem com um certo clima de tensão no ar, mas a vontade de irmos logo para a estrada sobrepunha qualquer medo. O Paulo quis levar todos os equipamentos que já havia comprado para a moto, o que resultou num considerável peso extra, somado às nossas bagagens pessoais. Tarefa concluída, partimos para a aventura faltando poucos minutos para as sete da manhã e pedi ao Paulo que começasse pilotando até sairmos do trânsito de Miami. 
https://photos.app.goo.gl/TAQDet5CiNQk6s5H7

Logo depois, assumi o comando e aos poucos fui me adaptando às características de uma moto com sidecar, pois era a primeira vez que eu manejava este tipo de modelo. A noção de posicionamento na pista é outra, assim como os conceitos de pilotagem, em especial nas curvas, além da adaptação ao tamanho extra, na lateral. Embora esta também tenha um guidão, se assemelhando às motocicletas convencionais, as curvas são bastante distintas, pois não apresenta o efeito do Contra esterço. De fato, o peso do equipamento foi um problema desde o início, deixando-a com fortes tendências durante as frenagens, acelerações e também pela dificuldade em mantê-la estável em linha reta. Isto demandou um grande esforço físico especialmente nos ombros, braços e mãos, que invariavelmente fazia com que eu terminasse o dia “apoiado” em um anti-inflamatório. Os freios também não passavam segurança alguma, sendo o traseiro ineficaz, “borrachudo”, e o da roda dianteira travando com facilidade em qualquer situação. Além disso, o freio do sidecar não tinha praticamente nenhuma ação. Qualquer manobra de frenagem repercutia em uma tendência ao peso do sidecar empurrar a moto para frente e para o lado. Me adaptei à essas condições e passei a pilotar com maior distância dos veículos que seguiam a frente, especialmente nas frequentes áreas de trânsito mais carregado da América Central, assim como freando logo ao primeiro sinal de diminuição de velocidade dos demais veículos do fluxo. As autoestradas americanas são mesmo um capítulo à parte, assim como a educação dos motoristas. Por onde passávamos sempre se aproximavam curiosos, querendo saber um pouco do nosso projeto. Mesmo com a tensão natural dos últimos dias e um grande período dentro de dois aviões, somada a jornada puxada desse dia de estradas, meu companheiro demostrou uma fibra espetacular. Após 850 quilômetros nesse primeiro dia, chegamos já de noite em Tallahassee, ao norte da Flórida, onde dormimos.
https://photos.app.goo.gl/MQU2bkNQC35nkdFE8

Seguindo as informações que o Paulo tinha, na prática a autonomia da moto era muito menor do que o previsto, sendo apenas de 170kms por tanque, o que tornava obrigatória mais paradas para abastecimento. A velocidade cruzeiro também deveria ser respeitada em 90km/h, bem abaixo da qual prevemos. Logo que entramos no Estado do Alabama.
https://photos.app.goo.gl/TUZB5w4JCWVaCJnz6

Após uma curva, ouvimos o estouro do pneu traseiro. Desgovernada, a moto começou a dançar forte sobre a pista. Não restou alternativa que não fosse controlar como pude, e aguardando fervorosamente que ela perdesse velocidade, freando de forma alternada apenas quando ela estivesse reta no eixo da estrada e liberando o freio quando ela estivesse escorregando lateralmente, até que ela pudesse se estabilizar novamente. Por sorte não havia nenhum veículo por perto. Paramos no acostamento, e colocamos a “mão na massa”, aproveitando para instalar um pneu novo que tínhamos de estepe. 
https://photos.app.goo.gl/nFYiAAm4GeYQJdre9
https://photos.app.goo.gl/E3AUKp5kat1ixMZH9

Com este novo pneu, praticamente sumiram as tendências que a moto apresentava. As estradas do país são muito bem aparelhadas, modernas e o trânsito muito respeitoso e educado. 
https://photos.app.goo.gl/yJeBVUmywe6xDGzV6
https://photos.app.goo.gl/q6MqztREHo9cMUh26

Abastecendo a moto no Texas.
https://photos.app.goo.gl/MYFpMdegMJ9AjEUU6

Houston é cortada por uma autoestrada maravilhosa, e repleta de saídas para outras rodovias e de pontes de acesso. 
https://photos.app.goo.gl/sEkuXk8k9kyVrh2H9

Troca de pneu no Texas.

Após atravessarmos cinco estados americanos - Flórida, Alabama, Louisiana, Mississipi e Texas –, finalmente deixaríamos o país no dia seguinte. Pernoitamos em Raymondville, onde choveu pesado durante a noite e a manhã toda, no nosso último dia de Estados Unidos. Esta chuva persistiu até mais da metade do México. Como detalhe, é que logo no primeiro dia de viagem, a viseira do meu capacete se quebrou ao cair no chão, durante um abastecimento à beira da estrada. Esse capacete me foi presenteado pelo Paulo, e está comigo até hoje, como recordação daqueles saudosos dias de amizade e aventura.

No próximo capítulo, entraremos no México. Mas já adianto que foi a partir daí que as coisas ganharam contornos dramáticos.
Até lá!