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Morre o lendário caçador e criador de leões da Fazenda Kirongozi

Morte de Jorge Alves de Lima marca o fim de uma história de aventuras, desafios e uma paixão pela fauna selvagem.

13/05/2024 às 08h16 Atualizada em 14/05/2024 às 07h55
Por: Francisco Alves Neto Fonte: da redação
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Jorge Lima e um dos tigres que criava em sua propriedade.
Jorge Lima e um dos tigres que criava em sua propriedade.

Faleceu no sábado, dia 04 de maio na Capital o pecuarista Jorge Alves de Lima, aos 98 anos de idade. Conhecido como Lima Filho, deixou um legado singular como caçador na época dos safáris na África e proprietário da Fazenda Kirongozi, um santuário onde criava leões e tigres, algo que o distinguia como um dos pioneiros nessa atividade na região.

Seu falecimento ocorreu na Capital, e sua cremação foi seguida pela decisão de manter suas cinzas em sua propriedade, em um espaço que replica uma barraca que ele usava em suas expedições pela África. A notícia do seu falecimento, marca o fim de uma era para a comunidade local e para todos aqueles que conheceram sua vida marcada por aventuras, desafios e uma paixão profunda pela fauna selvagem.

Sua jornada começou na década de 40, quando se formou em Ciências Políticas nos Estados Unidos, um feito incomum para a época. Contudo, ao invés de seguir uma carreira convencional, Lima Filho decidiu partir para a África em busca de um sonho que acalentava desde a infância. Essa decisão foi desafiadora, especialmente porque seu pai, inicialmente apoiador de seus estudos nos EUA, foi contra essa mudança de rumo, temendo os perigos e dificuldades do continente africano.

Apesar das adversidades, Lima Filho permaneceu firme em sua escolha e viveu na África Equatorial Francesa por duas décadas. Nesse período, ele mergulhou na vida selvagem e na indústria de safáris, deixando para trás o conforto e enfrentando desafios como morar em uma choupana de palha entre os nativos.  Sua paixão pela caça, despertada desde a infância durante caçadas com seu avô na Fazenda Santa Laura em Garça, transformou-se em uma carreira de caçador profissional, tornandose um dos pioneiros da indústria de safáris em Moçambique. Sua empresa de safáris, a Kirongozi, operava em diversas regiões africanas, oferecendo experiências únicas aos seus clientes, incluindo personalidades renomadas como o rei Juan Carlos 1º e o magnata grego Stavros Niarchos. Os safáris oferecidos por Lima Filho eram experiências únicas, combinando a emoção da caça com o respeito pela natureza e pelos animais.

“Naquele tempo a África era muito perigosa: muita doença, as tribos eram selvagens. Ele [pai] parou de me mandar dinheiro, mas eu sobrevivia com a venda de pele e marfim”, relembra o Kirongozi. O apelido lhe foi dado em Moçambique e, na língua Kiswahili, significa “o grande caçador”. Surgiu durante as filmagens do documentário homônimo dirigido por Geraldo Oliveira e “bancado” pela empresa de safári de Lima. Como o diretor não dispunha do valor para o Safári, propôs uma parceria, aceita imediatamente por Lima.

Durante sua vida na África, Lima Filho viveu intensamente suas expedições de caça, enfrentando os “Big Five” africanos: leões, búfalos, elefantes, rinocerontes e leopardos. Suas aventuras eram marcadas por histórias incríveis e também por desafios e perigos, como o episódio em que teve sua perna quebrada e precisou percorrer 900 quilômetros a pé em busca de ajuda. Apesar de sua vida ter sido marcada por atividades que muitos considerariam controversas, Lima Filho sempre defendeu sua paixão pelos animais e sua preservação. Sua história é um testemunho de uma vida repleta de aventuras, transformações e um profundo respeito pela fauna selvagem.

Durante seus anos na África, Lima Filho desenvolveu uma profunda conexão com a natureza e os animais selvagens, ao mesmo tempo em que enfrentava desafios e perigos, como o ataque de guerrilheiros em seu acampamento e as mudanças políticas que afetavam a região. Sua paixão pela caça era equilibrada por um forte senso de preservação ambiental, algo notável em uma época em que a consciência ecológica não era tão difundida.

Na época, a caça era permitida na África e Alves de Lima seguia as orientações de ambientalistas durante os safáris. Mas o negócio acabou em uma grande tragédia. “Em 1969, invadiram meu acampamento central, em Angola, mataram meus empregados. Foi na época em que Angola teve uma guerra doméstica [ainda era a Guerra da Independência contra Portugal, mas já existiam dois grupos rebeldes disputando o poder. Foi o pessoal do Jonas Savimbi [guerrilheiro angolano e líder da Unita] que invadiu meu acampamento, matou meus funcionários e destruiu tudo”, relembrava com certo desgosto. Ele tinha deixado o país 15 dias antes do massacre, mas é surpreendente a resposta ante a pergunta de que esta decisão o salvou.

“Que nada. Eu devia estar lá para ter morrido na África, pois eu nunca me adaptei a esta vida que chamam de civilizada”, lamentava Lima. Por desgosto, se desfez das agências de safári em Tanganika (hoje parte do território incorporado a Tanzânia e outra, menor, à República Democrática do Congo) e Moçambique. “Financeiramente fiquei a zero, não tinha como voltar, pois o terrorismo estava implantado. Essa região se chamava ‘Terras do Fim do Mundo’, era riquíssima em fauna. Hoje, não há mais nada”, lamenta.

De volta ao Brasil, ainda se aventurou pelo Pantanal, mas se comoveu com a docilidade das onças e outros animais. “Por mais contraditório que seja, todo caçador é um grande amante da vida selvagem, ele não mata de maneira indiscriminada”, ponderava. Ele apresentava números da redução da fauna exótica africana. “Havia aproximadamente um milhão no século passado. Hoje não passa de 20 mil. Foram destruindo tudo, os leões ficaram sem comida e atacavam gados com tuberculose, cachorros com raiva, enfim, tudo descuido do homem. É uma pena”.

O caçador matava a saudades da vida selvagem com os animais que criava na fazenda cujo nome, obviamente, é Kirongozi. “É uma necessidade. Eu me sinto em casa”, confessava. Esse novo capítulo em sua vida refletiu seu profundo amor pelos animais e seu compromisso com a preservação das espécies. “Ouvir aquele urro é como o rock para os jovens e Beethoven pra mim. Eu me sinto vivo”, revelou em entrevista ao UOL. Jorge Alves de Lima Filho tinha autorização do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) para criar os felinos em cativeiro.Além de suas atividades como criador de gado e protetor dos animais, Lima Filho também expressava preocupações sociais e políticas. Ele lamentava a corrupção no Brasil e no mundo, destacando a importância da integridade e da responsabilidade em todos os setores da sociedade.

A vida de Jorge Alves de Lima Filho foi um testemunho da complexidade humana, das relações entre o homem e a natureza, e das transformações que podem ocorrer ao longo de uma vida repleta de experiências marcantes e significativas.

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