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Nilson Bastos Bento: a voz do Rádio em Garça

Nilson Bastos Bento é um dos personagens do Documentário “Memória Viva: o resgate da história garcense”, um dos contemplados na Lei Federal Aldir Blanc. A idealização é da Prefeitura de Garça através da Secretaria Municipal de Cultura.

26/07/2021 às 19h15 Atualizada em 16/08/2021 às 15h37
Por: Francisco Alves Neto Fonte: Da redação
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Nilson Bastos é personagem da história de Garça
Nilson Bastos é personagem da história de Garça

Seguindo o cronograma de entrevistas para o Projeto Documentário Memória Viva: o resgate da história garcense, através das narrativas de sua comunidade”, fomos conversar com Nilson Bastos Bento. Mais que fazer parte da história, Nilson, em sua trajetória profissional, a contou. Fomos em busca da visão do radialista, e do homem que viveu muitas histórias e, de repente, fomos apresentados para uma Garça desconhecida.

 

Uma Garça que não passou pelo crivo de Labieno da Costa Machado nem de Carlos Ferrari. Fomos apresentados para uma Garça vibrante, com ativa movimentação na área cultural e nos esportes. Fomos apresentados a uma Garça cujos jovens estudantes encenaram o Auto da Compadecida e colecionaram boas colocações nas apresentações feitas em toda região.

 

Mas são histórias para serem contadas singularmente e é melhor irmos devagar. Durante a conversa não faltaram fatos inusitados, sobrou emoção e, por momentos, a voz embargou e as lágrimas insistiram em fazer o caminho da face. Lembranças. Boas lembranças.

“O rádio é um veículo extraordinário”, salientou Nilson que é garcense da gema e palmeirense.

A voz singular começou a ser impostada aos 11 anos, quando ele e o microfone selaram um laço. Se tornou locutor no Serviço de Alto Falantes “A Voz de Garça”, na antiga Estação Rodoviária.

Aos 15 anos foi convidado por Antônio Constantino Neto e Badú Barros para trabalhar na Rádio Clube de Garça. Com 16 anos, em 1963, foi levado por Moacir Teixeira Pitta e Wilson Mattos para a Rádio Clube de Marília, na época uma emissora referência no rádio interiorano.

Dois anos depois retornou à Rádio Clube de Garça, então de propriedade de Roberto Espíndola, para fazer história. Ficou 28 anos, depois deu uma parada por 10 anos (fazer novos projetos). Foi para Ribeirão Preto, deixou o rádio. Era o ano de 1989. Voltou em 2010 e foi trabalhar na Rádio Universitária.

Radialista, jornalista, Nilson Bastos Bento tem curiosidades para contar. Histórias da cidade que ele afirma amar.

“Sempre tive amor, paixão por Garça. Garça é uma cidade agradável, boa de morar. O café deu sustentação para a economia e as indústrias propiciaram o emprego na zona urbana”, diz o garcense, falando sobre economia e sobre a tradição/vocação da cidade no cultivo do café.

Ao se falar na vocação de Garça pelo cultivo do café, Nilson salienta que, nessa conta, tem que ser contabilizado os tipos de propriedade, o clima, a tradição, e as pessoas que se apaixonaram pelo café. E em nome dessa paixão, não foram poucos os que ‘contrariaram’ as ordens de dizimar. Nem todos tinham a visão do Governo Federal e apoiavam seu plano de renovação dos cafezais.

“Quem dizimou o café parou no tempo, não tiveram o mesmo desenvolvimento que Garça, como ê o caso de Pirajuí, Presidente Alves e outras”, diz ele.

No entanto Nilson ressalta a importância do polo industrial: “tem que agregar as indústrias, não pode parar”.

Parar realmente é proibido, e o entrevistado falou sobre uma época em que o ‘Censo demográfico da população rural, era feito no período das eleições.

Quando se contavam os votos, segundo ele, é que se tinha noção da população rural existente na Sentinela do Planalto. Uma população que ano a ano se perdeu em meio ao êxodo rural. 

Jornalista de várias editorias, Nilson não gostava da área policial    

Tanto tempo autuando na área, não foram poucas as notícias que, antes de serem divulgadas, precisaram ser ‘levantadas’. Era preciso estruturar os fatos, para depois contá-los. E foi assim, estruturando suas histórias, que Nilson tramitou entre as áreas da Política e da Polícia, mas esta não era de seu agrado.

“Política eu acompanho desde criança. Acompanhei Rafael Paes de Barros, Pedrinho (Pedro Valentim Fernandes), Manoel Joaquim Fernandes. Eles queriam dar contribuição para o município e acabavam sendo solicitados para se engajar”, fala ele, citando alguns dos nomes representativos da cidade.

Mas como falar em Política, em chefes do executivo garcense e não citar a intervenção sofrida por Júlio Marcondes de Moura, quando, então, o interventor era Jaime Nogueira Miranda?

 “O Julinho retornou, viu seu filho se eleger. Vieram o Panza (José Panza Neto), o Faneco (José Alcides Faneco), o Assis (Francisco de Assis Bosque). Todos deram sua contribuição. Foi ótimo? Não. Foi ruim? Não.”, fala ele respondendo aos seus próprios questionamentos.

Para Nilson cada um deu sua importante contribuição. Alguns foram mais arrojados, com visões mais futuristas, outros não conseguiram se eximir dos embates que, de acordo com o garcense, eram inevitáveis.

De acordo com ele, Rafael Paes de Barros teve uma atuação importante enquanto chefe do executivo, mas não deve ser esquecido Pedrinho que ajudou a desenvolver a cidade. E, no meio do bate-papo, Nilson Bastos Bento faz um aparte para discordar da nomenclatura “Lago Artificial”

“Acho que deveria ser Lago Municipal. Artificial não agrega valor. Temos o Bosque Municipal, o Estádio Municipal e o Lago Artificial. Foi uma doação de J.K Williams, que foi inclusive homenageado”, lembra ele.

Seguindo a lista dos prefeitos que passaram por Garça, Nilson Bastos Bento, volta a citar Bosque e Faneco. Prefeitos que se tornaram inesquecíveis pela importâncias das obras que realizaram e zelo que tiveram, principalmente pela questão financeira.

Candidatos que desfilaram em palanques em grandiosos comícios. Candidatos que tiveram seus discursos radiados.

“A gente cobria todos os candidatos (geralmente dois). Sem problemas”.

Mas a cidade que ele tanto ama também passou e passa pelas mazelas da violência. Ainda criança ele teve conhecimento de um assassinato, por questões amorosas, bem no centro da cidade, no meio da rua.

“Eu era criança. Ele era jogador famoso. Carlito (Carlos Alves de Souza), centroavante do Garça, foi assassinado no meio da rua. Depois tivemos o Arlindo, um soldado que foi abatido no bosque, também por questão amorosa.

 “Eu, já profissional de Rádio, não gostava da área policial. Até tinha acesso as entrevistas, mas ....”

Censura?

Existia, mas era bem mais branda.

“A censura que tinha era aquilo de você cruzar com a pessoa depois e ela não te cumprimentar na rua”, confessa ele. 

O Dia a Dia 

Foi na Rádio que Nilson alçou voos. “Comecei a implantar coisas. Construir o meu emprego. Comecei com 15 anos e com 16 fui para Marília, na Rádio Clube. Eles foram muito condescendentes comigo, me ajudaram. Eu não tinha experiência. Época do Roberto Spíndola”, falou.

Nilson lembra que, em época de eleição, os comícios eram irradiados, mas diariamente a Rádio tinha sua importância na área social e política da cidade.

As sessões camarárias também eram radiadas e traziam para os munícipes tudo o que acontecia ‘nos bastidores’.

“Irradiávamos as sessões, o problema era receber as transmissões. Era uma disputa na hora de acertar valores. Durante 12 anos fiz e acompanhei o desenvolver da cidade. Conheci Veríssimo, Boanerges, Mário Nunes, Jatir Mafud, Carlos Alceu. Conheci pessoas que eram, de fato, estudiosos do que faziam e muito colaboraram com a cidade”, relembrou Nilson Bastos Bento.

Frisando a importância do veículo de comunicação ele lembra que a Rádio divulgava as coisas da cidade e contribuía para seu desenvolvimento. O comércio tinha um veículo para divulgar seus produtos. A publicidade era importante para aproximar a população do comércio local.

“Nós criamos um jornal falado e, ao longo do tempo, noticiávamos tudo. O esporte amador, prestigiamos o futebol”, falou, lembrando de um rádio que tinha “Historinhas de Tia Regina” protagonizadas por Enedina Tavares Mayer.

As crianças ficavam ansiosas pelas histórias contadas. A magia permanecia.

Mas se ele ajudou a construir/contar a história através das ondas do Rádio, essas mesmas ondas também o construíram.

“Me ajudou a construir profissionalmente”, reconheceu. 

A magia do teatro permeou a história de Garça 

Nilson tem boas histórias para contar quando o assunto é cultura. Ele atuou na magia do teatro e com grupo de Garça foi para muitos outros palcos. Garça era referência e cidades como Sorocaba, São José do Rio Preto, Santos, Presidente Prudente, São Carlos, São Bernardo do Campo e Campinas conheceram a trupe garcense. A Sala Miguel Mônico viria muitos anos depois, mas a chama cultural já era acesa.

“Era o Grupo Estudantil de Teatro Amador. O GETA.Tinha a Lúcia Helena Alves, que era professora e que se transformou em diretora teatral. Era maravilhosa e nos ajudou muito. A Lúcia fez toda a diferença, aproximou a escola. A gente se apresentava em público, passamos a ser conhecidos.””, disse ele.

No ano de 1958 a Comissão Estadual de Teatro (CET) implantou o Plano Estadual de estímulo ao Teatro, estabelecido pelo Decreto 30.755, de 27 de janeiro. O decreto determinava as zonas para execução do Plano e, cada zona era encabeçada por uma cidade-sede, escolhida por sua importância como centro econômico e teatral. Garça figurou entre as cidades escolhidas juntamente com:  Santos, Campinas, São José dos Campos, Taubaté, Sorocaba, Botucatu, Bauru, Presidente Prudente, Lins, São Carlos, Araraquara, Piracicaba, São João da Boa Vista, Ribeirão Preto, Barretos, Santa Cruz do Rio Pardo e a capital paulista. Em meio a esses trâmites Garça acaba sediando uma federação, das 15 que foram formadas: Federação Garcense de Teatro Amador que tinha cinco grupos de teatro amador. Nilson tramitou por esses grupos.

“Em 1965 fizemos o Auto da Compadecida e apresentamos na inauguração do teatro em São Carlos. Ficamos em terceiro lugar. Também nos apresentamos em Presidente Prudente, para um bom público e conquistamos o segundo lugar no Estado de São Paulo. “Em São Bernardo do Campo conquistamos o 5o. Lugar”, relembrou Nilson, contando um pouco de sua trajetória no teatro, desnudando uma Garça nem tanto conhecida.

 Era Garça participando, ativamente, dos Festivais de Teatro Amador do Estado de São Paulo (FETAESP). Garça, Barretos e Araraquara possuíam bons grupos amadores e alguma tradição em apresentações teatrais, segundo informações da época.

Em 1965, o grupo garcense Grêmio Teatral Leopoldo Froes se apresentou como finalista do III FETAESP com Oração para uma negra, de Faulkner – Grêmio Teatral Leopoldo Fróes. Em 1966 foi a vez do GETA participar como finalista do IV FETAESP com o Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. No ano seguinte (1967) os dois grupos garcenses participaram como finalistas do V FETAESP. Santo Inquérito, de Dias Gomes, foi apresentado pelo Grupo Teatral Leopoldo Fróes e Nossa Cidade, de Thornton Wilder, pelo Grupo Estudantil de Teatro Amador (GETA).

Em 1968 o GETA volta como finalista do VI FETAESP com a peça Pedro pedreiro, de Renata Palotini. “Foi uma época maravilhosa. Com a Lucia Helena nós viajamos muito para   conhecer gente de teatro”, disse ele, citando nomes que também partilharam dessa história. Cida Patroni, Vera e Nancy Guanaes, Sônia Molina, Roberto Yamato, Clodoaldo, Ilde Galhase, Manoel Geraldo. “Hoje, apesar do belo teatro, não temos muito essa parte cultural. Fora da pandemia, falta um trabalho nesse sentido. Não quero criticar, mesmo porque a forma de viver era outra. Os professores de ginásio e colegial tinham um empenho grande”, comentou o entrevistado citando nomes dos mestres José Mauricio Borges, Paulo Pires, Ninico, Cida Piola, Mabel.

“Eram professores que se integravam. A Lúcia era um tanque, fazia as coisas acontecerem. Ela trazia profissionais de teatro para falar com a gente sobre teatro. Aqui era assim e não é mais”, lamentou.

 

Esporte e Fanfarra: duas outras pérolas garcenses

E se o teatro era uma marca registrada da cidade, o esporte amador também o era e, mais uma vez, Nilson Bastos Bento fala sobre a importância da Educação, dos mestres.

“Izaac Elias Fará era professor de Educação Física que formou grandes atletas. A formação não só na sala de aula, mas na vida”.

E de repente, ele deixa de falar do futebol, que acumulou grandes nomes na cidade e que, de acordo com Nilson, recebia investimentos, e passa a falar sobre o basquete, que também teve sua representatividade.

E como falar sobre basquete em Garça sem citar Laís Elena Aranha Silva? Impossível.

“Tínhamos representantes tanto no masculino como no feminino. A Laís chegou na Seleção Brasileira, mas ainda tínhamos a Terezinha Barganian, a Célia Casagrande, Sônia Casagrande, Sônia Oragian”, disse.

Laís Elena Aranha da Silva, nascida em Garça, iniciou a carreira como armadora no Corinthians e também defendeu a Seleção Brasileira, foi cinco vezes campeã Sul-Americana (1965, 1967, 1968, 1970 e 1974) e bicampeã dos Jogos Pan-Americanos (1967 e 1971), ao lado de outros nomes históricos como Heleninha, Norminha e Maria Helena Cardoso. Conquistou uma medalha de bronze no Mundial de 1971, realizado no Brasil, e um quinto lugar no Mundial de 1964, no Peru. Laís foi incentivada pelo pai João Batista Aranha da Silva (Joãozito), por Sérgio de Stéfani e Terezinha Barganian, que também conquistou um capítulo nessa história.

Ainda nos anos 40 Terezinha já integrava o time garcense. Disputou várias edições dos Regionais e dos Jogos Abertos do Interior, os principais eventos à época. Sempre defendendo Garça conquistou um recorde: tornou-se campeã dos Jogos Regionais da Alta Paulista por 11 vezes seguidas. O fato mereceu uma homenagem especial em 2011, no Teatro Municipal, quando acabou aplaudida em pé. Como treinadora, formou equipes que estiveram representando Garça em São Manuel (1990), Osvaldo Cruz (1991), Dracena (1992) e Lins (1993), durante a edição dos Jogos Regionais.

Lembranças que o Nilson traz.  Ele ainda cita um pouco da trajetória do Vôlei, mas acaba nos levando para o ano de 1957, quando a Fanfarra Mirim do Grupo Escolar se apresentou no centenário de São Carlos, nos Jogos Abertos do Interior. Época de Nelson Gabaldi e Mário Baraldi.

“Foi um fato muito marcante. A Fanfarra era linda. Eram mais de 60 garotos com idade entre 10 e 11 anos. Todos no trem, com baldeação em Itirapina. Hospedados em armazéns. Estava muito frio. Crianças de 4.º ano de Grupo, todos de branco. Foi um fato marcante”, lembrou Nilson, que em cada lembrança, trazia um pedaço de Garça, gostoso de conhecer.

As muitas lembranças, como é normal de ser, não seguiram ordem cronológica para serem verbalizadas. Vieram, num vai e vem que não nos permitiu sentir o passar das horas.

“A gente vivia as coisas, pegava as coisas. Hoje não se vive mais isso”, lamentou o entrevistado. 

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