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Geral MEMÓRIA VIVA

Carlos Ferrari Neto: a continuidade de uma história marcada pelo empreendedorismo

Carlos Ferrari é um dos personagens do Documentário “Memória Viva: o resgate da história garcense”, um dos contemplados nos editais da Lei Federal (nº 14.017), conhecida como Lei Aldir Blanc. A idealização é da Secretaria de Cultura de Garça, e a realização do ProAc Municípios, Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa, Ministério do Turismo e apoio da Prefeitura de Garça.

06/07/2021 20h15 Atualizada há 1 semana
Por: Francisco Alves Neto Fonte: Da redação
Carlos Ferrari: personagem da história de Garça
Carlos Ferrari: personagem da história de Garça

 Conversar com Carlos Ferrari Neto, ouvir um pouco de sua história foi mais que fazer uma viagem no tempo. Foi trazer à tona o espírito empreendedor de um dos fundadores de Garça. Após o bate papo, saiu de cena (da mente) a figura de um desbravador arrojado, de alguém que veio para derrubar mato e fazer trincheiras. Ficou a certeza de um empreendedor. Carlos Ferrari Neto figura entre aqueles que precisam ser ouvidos por quem se aventura a contar um pouco da história de Garça. Por isso ele é um dos entrevistados para o desenvolvimento do projeto “Documentário Memória Viva”, que tem por objetivo fazer um resgate da história garcense, através das narrativas da comunidade.

"Meu avô tinha um único filho homem que era meu pai. Eles vieram para Garça em 1918”, assim começa a história de um homem que chegou para mudar os rumos da cidade, embora nem ele soubesse o quanto seria importante nas novas terras.

“Meu pai tinha 16 anos e desbravou com meu avô a fazenda sede, onde hoje puseram o nome Frei Aurélio (Bairro)”, diz o entrevistado, se mostrando inconformado, ou melhor, sem entender, o porquê da referência em terras distantes do reduto do Frei. A fazenda de 100 alqueires pegava da estrada de ferro e ia até a Comute, na direção da hoje, Escola Samira.

 “Da usina de lixo, até o matadouro era tudo dele. Depois a área do matadouro ficou para a Prefeitura”, colocou o entrevistado. E as terras acolheram com destreza os 100 mil pés de café que nelas foram plantados.

“Meu avô tinha um sítio vizinho, onde é hoje o Loteamento Monte Verde, e mais dois, um pouco mais abaixo. O sitio ficou para mim e hoje está sendo loteado – Loteamento Três Marias -. Os dois mais abaixo continuam meus”.

Aos poucos, num gostoso bate papo, vamos conhecendo uma outra história de Carlos Ferrari e seus familiares. Uma história que não consta nas linhas oficiais, mas que para elas colaborou.

“Meu pai casou e ganhou esse sitio. Nasci lá. Eu e a Lúcia nascemos lá. Meu avô veio morar na cidade, onde foi a casa da ‘Dona Raia’. Meu pai ficou na fazenda”. Carlos Ferrari morreu aos 68 anos, quando Carlos Ferrari Neto tinha 13 anos. Mudanças à vista. “Mudamos para a casa onde ele morava, onde ficamos até 1950. Depois mudamos vizinho do Roque Arone”.

Época em que, segundo Carlos Ferrari Neto, haviam apenas três casas por quarteirão. A casa foi vendida pelo irmão, e as irmãs Lúcia e Lídia ficaram nas terras, hoje denominadas “Frei Aurélio”.

Vale dizer que, nascido em Brescia na Itália em 6 de janeiro de 1875, filho de Pedro Ferrari e Regina Molardi Ferrari, o registro de um dos fundadores de Garça traz o nome de CARLO FERRARI, e não Carlos, como todos dizem.

Uma história iniciada em 1890

Num bate papo os assuntos vão e vem. O passado e o presente se misturam e o cronológico perde sentido. Mas é preciso fazer um resgate da vinda de Carlos Ferrari para Garça. Uma trajetória que começou em 1890 quando o desbravador veio da Itália, aos 15 anos de idade e aportou em São Paulo.

“A crise na Europa, que afetou todos os países que plantavam uvas, provocou isso. Em 1870 veio essa praga e não tinha produtos para acabar com ela. Com o tempo precisaram mudar. No Brasil era época de liberdade dos negros. 13 de maio. Libertaram errado. Aquilo foi uma estupidez. Da noite para o dia libertaram, sem jeito deles sobreviverem. Se tivessem dado um pedaço de terra, seriam proprietários. Saíram às ruas (os negros). As famílias iam andando e foram formando os bairros. Negros e italianos se encontrando”, diz Carlos Ferrari, fazendo um aparte na história de Garça para falar sobre a história do Brasil, da escravidão em terras canarinhas. Falou sobre a pseudoliberdade dos escravos, de uma forma simples, coesa e tristemente real. Voltou à história garcense, quando ainda era a história apenas de seu avô.

A família de Carlos Ferrari chega, em terras brasileiras, em meio a esse cenário. Vieram ele, o pai e quatro irmãos.

“Meu avô, nascido em 1875, veio com 15 anos para São Paulo e depois trabalhou acompanhando pessoal que vinha para fazendas de café em Ribeirão Preto, onde meu pai nasceu em 1902”, contou ele.

A saga de Carlos Ferrari continuaria de uma fazenda a outra até chegar em Álvaro de Carvalho, onde formou cafezais na fazenda do senhor Sampaio Vidal (Bento de Abreu Sampaio Vidal) – fazendas Urupês e Santa Maria -. Época em que os contratos (nada escrito) se resumiam em “pegar um tanto de café para plantar e, em meio a lavoura, se podia produzir arroz, milho ou outras culturas para uso próprio.”

“Entregavam lavoura com quatro anos para proprietário e parte do que produziam era do formador. Meu avô plantou arroz, bem numa época em que faltou no mercado brasileiro. Ele ganhou muito dinheiro. 100 contos de réis “, disse Carlos Ferrari Neto.

Era o espírito empreendedor que ‘falava’ mais alto. O mesmo espírito que depois de um entrosamento com a família Garcês o trouxe para Garça. Doutor Garcês era presidente da Cia Paulista da Estrada de Ferro, que tinha projeto de vir para Garça. Não por acaso Doutor Garcês tinha terras na região. Terras doadas pelo governo.

“Meu avô falou com essas pessoas, com esses caras sem que o Bento Abreu soubesse. Ele (Bento Abreu) chegou a falar com o secretário Estadual, para que não viesse estrada de ferro, e quando soube da estrada e do meu avô ficou uma arara. O doutor Garcês vendeu 100 alqueires para meu avô e ele começou a formar sua terra. Em 1920 começou a pegar gente de fora para plantar café. Chegou a 100 mil pés”, contou Ferrari Neto. A história de Garça, enquanto cidade, já tinha seus primeiros apontamentos, embora ninguém imaginasse.

1924

Em 1924 Carlos Ferrari, começou a abrir o loteamento, as primeiras ruas. O filho (pai do nosso entrevistado) também participava da bravata. Pegou uma turma e, no machado, foi abrindo ruas.

E com as divisões feitas pelo avô, foi se abrindo a cidade. “Quem comprava as terras aqui, vinha por meio de propaganda. Os Vizzotto vieram em 1927, abriram o Posto de Gasolina. O Labieno veio em 1916 e meu avô em 1918. Meu avô vendeu barato. Ele morreu em 1943, com a cidade já formada”, lembrou Ferrari Neto.

De acordo com ele, o sucesso do avô também se deveu a maneira, às vezes não tão séria, com a qual Labieno da Costa Machado conduzia seus negócios.

“Ele vendia a propriedade, não dava recibos e cobrava de novo. Não dava escrituras”, diz ele entre risos, completando que “meu avô entrou com outra política, chamava as pessoas e dava escritura”.

Assim, com outro jeito de negociar, Carlos Ferrari conquistou cada vez mais espaço.

“Meu avô vendeu barbaridade. Ele vendia barato e com tempo para que pudessem pagar. Ganhou muito dinheiro. Formaram cinema. Posto Vizzotto. Ele foi comprando fazendas em outros locais, até no Paraná”, relembra o neto do desbravador/empreendedor.

Mas não dá para passar pela história de Garça ou daqueles que dela fizeram parte, sem ter vivenciado a história da Igreja Matriz. Histórias que se misturam, se separam e se completam. Carlos diz que em 1935 os tijolos vinham das fazendas, enquanto o altar, em mármore Carrara, veio da Itália. Mas a terra, onde a igreja estava, era de Carlos Ferrari.

“Meu pai passou a escritura para a Diocese em 1953. Passou a escritura do quarteirão inteiro. Meu pai assinou tudo”, falou ele. E apesar das formalidades serem limitadas, os negócios fechados “ao fio do bigode” traziam menos prejuízos.

Quando Carlos Ferrari morreu, segundo seu neto, haviam cerca de 60 escrituras atrasadas. Número ínfimo diante do tanto de terras que foram por ele comercializadas.

A força da Educação

E nessa trajetória em que o pai do entrevistado, aos 20 anos, ajudou a cortar árvores e a formar a cidade, o mesmo, questionado se ajudou na história de Garça, não disse que sim, não disse que não. Apenas lembrou os percalços sofridos, inclusive para estudar.

Enquanto o avô e o pai aprenderam sozinhos, Carlos Ferrari Neto chegou aos bancos escolares por exigência da mãe. Lembra que, diferente do ‘analfabetismo’ do pioneiro, todos os seus netos frequentaram uma faculdade.

“Se não fosse minha mãe, não teria estudado. Ela exigiu. Foi uma fortaleza”.

Ela era Maria Travençolo Ferrari que trabalhava na Fazenda Cachoeira, onde a família foi colona. Os pais se casaram em 1928, junto com o administrador da fazenda (Bertoluci), na cidade de Gália.

“Hoje está mamata na Educação, Eu e a Lúcia, pra estudar, saíamos da fazenda, passávamos o buracão (sempre presente na história de nossos entrevistados) e íamos para uma escola ao lado dos Correios. Não tinha ginásio e fomos a primeira turma a formar-se o ginásio aberto pelo Padre Antônio. Eu, o João Vizzotto. Todos nos saímos bem”. 

Da escola ao lado dos Correios lembra-se que uma das professoras era esposa de Sebastião Pimentel.

Do colegial para Campinas. Ele e João Vizzotto. Ele se formou no Colégio Diocesano, em Campinas. João Vizzotto em Farmácia, em Araraquara. Em 1950 passou no vestibular de Medicina e no Rio de Janeiro ficou por um ano e meio, mas “não se ajeitou”. Sofria a influência de um professor do Diocesano que lhe pôs na cabeça não fazer Agronomia. Se rendeu a vocação, largou Medicina e foi para Piracicaba, onde cursou Agronomia.

O período era crítico. Jânio Quadros havia cortado muitos empregos e ele ficou com o pai até que, em 1957, entrou na primeira Casa de Agricultura de Lupércio. Foi o primeiro agrônomo. Em 1960 passou no concurso, mas a vaga de Garça o chefe estava “segurando” para outro candidato (Armando Santos).

“Vim para Junqueirópolis, meti os peitos e nesse interim consegui vir para Garça em agosto de 1960”, disse ele, comentando ainda que, em setembro de 1960 se casou e em 1962 comprou um sítio. (Na foto abaixo, Carlos Ferrari e esposa Maria Salete Medina Ferrari)

 

 

Os ideais do avô: parte de sua vida

Se a pergunta sobre ter ou não ajudado na história de Garça ficou sem resposta, ele não titubeia em dizer que os ideais do avô fazem parte de sua vida.

“Não sei, acho que a influência que ele deu foi de ser sempre um empreendedor. Queria ser mais como ele. Deu oportunidade para famílias inteiras e, se assim não fosse, estariam carpindo café. Severino Barbosa, por exemplo, formou dois médicos”, lembra ele, falando do jeito solicito do avô que não se privava de estender a mão aqueles que estavam a sua volta.

Carlos Ferrari venceu as dificuldades e atuou na formação de seu patrimônio em contraponto ao empreendimento de pelo menos dois outros grandes proprietários, todos típicos representantes das oligarquias rurais paulistas e ligados a partidos políticos.

Segundo o Livro de Garça, “Durante 24 anos, de 1918 a 1942, se tornava proprietário, “realizava doações a igrejas e obras pias”, prestava “serviços à pobreza, levando uma palavra de consolo e de esperança aos necessitados”, “demonstrava-se incompatível com a publicidade e agradecimentos”, “soube amar a cidade de Garça...””

Carlos Ferrari Neto comenta que os pais, quando se casaram, vieram para Garça, e não tinham muitos recursos (dinheiro). “Fizeram um rancho e começaram do nada. Coisas básicas compravam em Pirajuí e Corredeira, pois aqui não tinha venda. Meu pai ia a cavalo comprar”, disse ele, mostrando que nem tudo eram flores e louros. As dificuldades não escolhiam a quem afetar.

E, nos ideais do avô, ou na sua linha empreendedora, Carlos Ferrari Neto escreveu seu capitulo na história de Garça, mas este tem sua independência e deve ser contado em separado. 

 

E hoje ...

Aos 90 anos, completados no dia 15 de abril, o descendente de um dos fundadores de Garça diz ter muito orgulho da cidade, mas, mesmo achando-a boa, acredita que está grande demais.

“Acho que já está grande demais, até eu estou fazendo loteamento”, fala em meio a risos e lembrando lances do passado garcense. Lembrou a época em que se viajava muito de trem pela Cia Paulista. Foi numa dessas viagens que conheceu a esposa. “Eu passarinhei. Era filha do chefe da estação. Os amigos foram casando e eu também me casei”.

Casou-se com Maria Salete com quem teve quatro filhos – um homem e três meninas – três Marias-. Mas ele, mesmo sendo ‘quem é’ foi apenas um jovem morador da zona rural de Garça. “Eu vinha da fazenda para estudar”. Nunca teve problemas em ser neto de Carlos Ferrari. Conviveu ou com Álvaro Vizzotto, com os filhos de Salviano Pereira de Andrade, com Mariano.

“O pai do Mariano foi capanga do Labieno. O Mariano era um amor de pessoa”, vai falando Carlos Ferrari, citando nomes que fizeram parte de sua caminhada. Nomes como José Vizzotto – pai de João Vizzotto. Albano Vizzotto – pai de Paulo e Luís. Josias.  

 

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