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Uma aventura de trem para conhecer o Pacaembu

Como o próprio título sugere, nesta coluna Tico Cassola relembra a saga que o colunista e dois amigos encararam numa viagem de trem para conhecer o lendário Estádio Municipal “Paulo Machado de Carvalho”

02/07/2021 19h01 Atualizada há 4 semanas
Por: Francisco Alves Neto Fonte: Da redação
Uma aventura de trem para conhecer o Pacaembu

Esta semana todos os esportistas, amantes do futebol, foram surpreendidos com a demolição do tobogã do Estádio Municipal “Paulo Machado de Carvalho”, em São Paulo. É o progresso que chega e prepara estas surpresas. O lendário “Pacaembu”, agora será administrado pela iniciativa privada. A concessionária Allegra Pacaembu ganhou o direito de exploração por 35 anos.

No lugar do tobogã, inaugurado no ano de 1.970, será construído um edifício multifuncional, com um moderno centro de convenções, que receberá show e grandes eventos. A entrada principal e a arquibancada oval serão preservadas, tudo para manter a originalidade, desde a inauguração em 27 de abril de 1.940. Uma vida nova para o Pacaembu, que um dia já foi considerado o maior estádio do Brasil.

TREM DA PAULISTA

Nos idos dos anos 70, realizei uma façanha para assistir um jogo do Corinthians no Pacaembu, numa inesquecível viagem de trem. Juntamente com mais dois amigos: Zequinha e o Buião, este falecido, resolvemos embarcar nesta aventura. Planejamos com uma certa antecedência, e fomos juntando a grana para as despesas. Em comum acordo escolhemos ver o “Timão” ao vivo, e também o show da fiel torcida. O jogo foi num sábado, às 16 horas: Corinthians x Paulista de Jundiaí. O curioso é que nenhum dos três conhecia São Paulo. Fomos com a cara e a coragem.

O trem da Paulista partiu de Garça na sexta feira, por volta das 22:00 horas. O Buião chegou na estação com a bandeira do Corinthians e com um mapa desenhado pelo Túlio Calegaro, mostrando o trajeto para chegar no campo. Com a grana curta, compramos passagem de segunda, banco da madeira. O trem chegou lotado de passageiros. Até Bauru fomos em pé. Lá desceu bastante gente, pois havia um entroncamento com a estrada de ferro Sorocabana e Noroeste do Brasil. Com isto conseguimos somente um banco, para duas pessoas.

Resultado: fomos em revezamento, dois sentados e um em pé. A cada uma hora, um levantava e o outro sentava. O vagão lotado. O trem parava nas estações, nada de alguém descer, só entrava. Era gente em pé no corredor e até nos “engates”, entre um vagão e outro. Volta e meia o Buião, ficava em pé, e balançava a bandeira do Corinthians, era mais gritos, do que vaias. Poucos dormindo, a viagem prosseguindo.

Em Itirapina teve um problema de baldeação. O trem ficou parado umas duas horas. Atrasou tudo. Chegamos em São Paulo eram 10 horas da manhã. Descemos na bela Estação da Luz, todos cansados da noite mal dormida, e ansiosos do que viria pela frente. Depois de um “pingado” (café com leite no copo americano e um pão com manteiga), partirmos a pé ao Pacaembu, segundo o Túlio, num percurso de uns cinco quilômetros.

E lá fomos nós entre ruas, avenidas e prédios, era tudo novidade.  Até que encontramos um grupo de corintianos, aí foi fácil chegar. Nos aproximamos das bilheterias, e compramos ingressos pro tobogã, até porque era o mais barato. Assim que entramos no estádio, a primeira medida foi subir todos os degraus e ficar bem lá no alto. Os três estáticos por alguns minutos, vendo a monstruosidade de todo o campo. A torcida foi chegando, logo o campo ficou lotado, com muitas bandeiras (na época era permitido).

Ao apito do juizão Almir Laguna, começou o jogo, mas não vou comentar muito não. O placar final:  Corinthians 2 x 3 Paulista de Jundiaí, e o duro que foi de virada. De tudo, guardo a lembrança de um lance. O ponta esquerda do Corinthians chamava Toninho Metralha. Digamos, era mais voluntarioso do que habilidoso. Assim que o Corinthians tomou a virada, teve uma jogada para empatar, próximo dos 45 minutos finais.

O Rivelino dominou a bola e fez um lançamento de prima para o Toninho Metralha. Ao tentar dominar a bola, deu uma trombada com o lateral direito do Paulista. Ambos caíram no chão. O Toninho mais ágil, levantou e com três toques na bola chegou à linha de fundo. Resolveu cruzar de “três dedos” para o Geraldão, que estava livre na marca do pênalti. Só que bisonhamente erra e dá um bicudo na bola, que ao invés de ir na área, vem parar perto do tobogã.  O Zequinha, sentado ao lado do Buião, comentou na hora: “Acho que ele viu o Tico aqui no tobogã e cruzou para ele marcar o gol”.

Depois desta jogada a torcida corintiana se levantou e foi indo embora de “cabeça inchada”. Nós também começamos a preparar a saída, que sempre é meio tumultuada depois de uma derrota. Estávamos esperando, quando aproxima de nós um senhor e o filho de uns 15 anos. Num rápido bate papo, perguntamos como fazia para chegar na estação da Luz. Ele perguntou onde morávamos. Respondemos: em Garça. Na hora ele emendou: “É a terra do goleiro Waldir Perez, time do qual torço, o meu filho é corintiano. Eu levo vocês até lá perto”. Montamos numa perua Veraneio/Chevrolet e rapidinho ele nos deixou na praça ao lado da estação.

Compramos os bilhetes, retorno garantido. Era só esperar o trem noturno com destino ao anterior, que partia às 20 horas. Na parte de fora da estação, próximo a um bar, era vendido aquele famoso churrasco grego. Juntamos os trocados, deu   18 cruzeiros. O preço de três sanduiches e uma tubaína era 20. O Buião falou “No Bar do Mogami em Garça, o Tiãozinho, faz por 15, quebra esta pra nós, que estamos sem almoço e vamos viajar pro interior”.

O churrasqueiro olhando pra nós aceitou a oferta. Foi nossa primeira e única refeição naquele sábado. Por sinal, estava deliciosa. Depois foi só esperar o trem e embarcar. Uma viagem bem mais tranquila, poucos passageiros. Chegamos em Garça, no amanhecer de domingo. De um lado triste, pela derrota corintiana. De outro, feliz por ter conhecido o lendário Pacaembu, o mais charmoso estádio paulistano.

Infelizmente nada foi registrado, nenhuma foto de recordação. Naqueles tempos era difícil ter uma máquina de fotografia. Mas em nossa memória está registrado para sempre.

 

                         

                                                      Wanderley Tico Cassolla

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