Quem pensa comprar calçados hoje, não precisa quebrar a cabeça para decidir onde encontrar o modelo, o tamanho e a cor da preferência. São várias as lojas em Garça que oferecem uma infinidade produtos, com preços muito variados. Mas nem sempre foi assim. No passado, devido à falta de opções, a maioria das pessoas optava por adquirir aquisição um calçado feito sob encomenda, de maneira artesanal.
O que pode ser estranho e até inimaginável nos dias atuais, não passava de atitude corriqueira 50 ou 60 anos atrás. Naquela época se recorria a figura do sapateiro. O ofício, que é uma das profissões mais antigas do mundo, mas com o passar dos anos, tornou-se cada vez mais raro encontrar alguém que se dedique a ele. Em meio a esse cenário, surge a figura de garcense Miguel Camilo, um sapateiro que por mais 70 anos dedicou-se a manter viva a tradição do trabalho manual na confecção e conserto de sapatos. Aos 85 anos de idade, Miguel se tornou um ícone de sua profissão e é reconhecido por muitos como um verdadeiro mestre na arte da sapataria. Nesta matéria, vamos conhecer um pouco mais sobre a vida e a carreira desse sapateiro que se tornou um símbolo de resistência em um mundo cada vez mais automatizado.
ONDE ATUOU
“Comecei trabalhando no Antônio Conessa, que tinha uma sapataria vizinha onde hoje é o Bar e Restaurante Odeon. Depois, abri uma sapataria por minha conta , em Vila Araceli. Lá fiquei entre quatro e cinco anos”, contou Camilo, que depois trabalhou com Pedro Kruzick e Francisco Bertolucci; abriu outra sapataria; mais tarde foi trabalhar com Gino Midena; depois, abriu uma nova sapataria em rua atrás da Igreja Matriz de São Pedro.
De lá, comprou uma sapataria na Rua Coronel Joaquim Piza, “do sr. Pedro”; em seguida, comprou um espaço na Barão do Rio Branco 51, onde permaneceu por mais de três décadas. Antes de ser obrigado a se aposentar, atendia num espaço ao lado da loja do filho (Camilo Rações) na rua Minas Gerais. Segundo ele, só parou porque um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e uma fratura no ombro o impediram de continuar exercendo o ofício que tanto ama.
Miguel Camilo disse que quando ingressou na profissão cerca de 72 anos atrás, o sapateiro era obrigado a aprender de tudo. “Inclusive ele fazia o corte de sapatos, sandálias. Não era que nem hoje, que tudo é feito em maquinários modernos”, comentou. Segundo ele, quando se pergunta a profissão e alguém diz que é sapateiro, pode acreditar que o sujeito só sabe montar o sapato, outro só sabe o acabamento, outro, lixar. “Antigamente o sapateiro era obrigado a conhecer e desenvolver todo o processo de produção de um sapato”.
Tanto isso é verdade, que a profissão quase está extinta. E, acreditem, Garça chegou a ter, num só tempo, 23 sapatarias, com até cinco oficiais. Hoje Garça, infelizmente, está reduzida três ou quatro representantes.
“MESTRES”
Sem desmerecer qualquer dos profissionais citados ou não citados, Camilo destacou alguns “mestres” no ofício de sapateiro. “Em parte de consertos, sempre achei que o mestre era Mário Tech. Ele era uma perfeição. Em parte de conserto e fabricação, cito dois nomes de Garça que eu admiro até hoje – infelizmente os dois são falecidos – Gino Midena e cortador, Virgínio Signoretti”.
Uma informação importante: nomes como os que destacou Miguel Camilo ganharam fama no passado, com repercussão da qualidade de seu serviço até na Capital. “Isso aconteceu comigo. Nas vezes que ia a São Paulo – e vou até hoje -, naquela época, ao ir às grandes fábricas de calçados, o pessoal perguntava se éramos de Garça e com quem trabalhávamos. Ao respondermos que foi com Gino Midena, diziam: então você já está registrado, se quiser ficar em SP. Mas se falássemos outros nomes, tinha de fazer teste, e dificilmente ia ser aprovado, porque as fábricas trabalhavam somente com artigos de primeira qualidade”, contou, salientando que Gino Midena era o sapateiro mais famoso do Estado de São Paulo.
SUMIÇO
No passado, em todas as cidades haviam muitas sapatarias, caso de Gália, Álvaro de Carvalho, Lupércio, Alvinlândia, Santa Terezinha, Júlio Mesquita. Hoje elas não existem mais nessas cidades. Em Garça, uma rua homenageia – Garabet Chekerdemian. Mas na opinião de Miguel Camilo, toda homenagem deve ocorrer em vida. Ele já recebeu troféu de “Mérito Profissional”, do Rotary Clube Garça Azul; Troféu Fraternidade, do Clube da Terceira Idade, entre outros. “É mais importante receber uma homenagem em vida”.
Sobre as dificuldades de se aprender o ofício – confecção e consertos de calçados, Camilo admite que nos dias de hoje é difícil um moço aprender a profissão para ser um sapateiro completo. De tudo, o mais difícil é fabricar. Mas são poucos os sapateiros que ainda fabricam ou que ensinam o ofício. E, praticamente, não existe gente interessada em aprender. “Se for fazer um artigo fino, a dificuldade é a mesma para qualquer modelo que se pretenda fazer”.
Miguel Camilo disse ainda que hoje existem muitos modelos de sapatos, mas antigamente o sapato de homem ou a botina era quase sempre o mesmo modelo, e de mulher também não tinha tantas diferenças. “Só que antigamente, a qualidade era muito maior. Na época levava 90 dias para curtir um coro, hoje em três dias o coro está curtido”.
E outro detalhe importante: no passado, em Garça, a maioria das sapatarias davam garantia de 12 meses para uma botina, porque ela durava muito mesmo. Hoje já não é mais assim. Em parte, devido à baixa qualidade do material. “Hoje tem todo tipo de sapato, mas, infelizmente, a maioria é sintético, um material que não segura a cola direito, não podendo nós garantir o serviço em 100%. Atualmente se busca mais produzir quantidade e não mais a qualidade do produto”, afirmou o garcense.
Apesar dos tempos de modernidade, existe ainda quem recorra aos sapateiros para um conserto aqui, uma engraxadinha ali. Demanda de serviço. “Caiu muito o movimento. Para conserto de meia-sola, praticamente não compensa mais trazer, já que é possível se comprar um par de sapatos novos por até R$ 20,00 ou R$ 25,00. Pouco antes de encerrar atividade, anda apareciam cerca de 20 pares por dia, mas eram consertos corriqueiros – uma colagem, um pontinho, engraxar”. E ainda: “Nem engraxate existe mais na cidade”, concluiu. (Colaboração: Paulo Scutari).
MIGUEL CAMILO E OS FILHOS: “Meu pai com a profissão de sapateiro criou seus cinco filhos. Sempre muito trabalhador e muito honesto, nos ensinou a ser pessoas do bem e sempre honrar com nossas obrigações e preservar o nosso nome. Nos ensinou a ter o temor a Deus, e ser felizes com o que o dinheiro não compra, principalmente a família unido. Obrigado pai”.