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Cuidado com o fermento dos fariseus: a hipocrisia
Veja artigo escrito pelo padre Anderson Messina Perini, Pároco da Paróquia São Pedro Apóstolo de Garça
23/01/2023 09h52 Atualizada há 3 anos
Por: Francisco Alves Neto Fonte: da redação

No Evangelho de Mateus (16,5-12), Jesus chama atenção dos discípulos para tomar cuidado com o fermento dos fariseus. Os apóstolos tão acostumados com o legalismo ultraconservador farisaico, achavam que Jesus estava reportando a falta de pão. Na verdade, o fermento alertado por Jesus é um aviso bem atual. O fermento fariseu que corrompe as instituições religiosas é a hipocrisia. A palavra hipócrita vem do grego que significa máscara. Estas máscaras eram usadas por atores no teatro grego para atuação de personagens. Assim, o fermento que corrompe a religião é aquele que se disfarça de religioso, mas na verdade buscam outros interesses. Jesus alerta seus discípulos para não se corromperem, não se aparentar como religiosos, mas que vivam de fato o Evangelho. Nesse sentido, façamos uma análise crítica a este vírus, a este fermento ainda presente em nossa religiosidade.

Chama-nos a atenção nesses dias em que vivemos e ressoamos ainda o movimento violento e golpista de 8 de janeiro de 2023 em Brasília, um vídeo no Youtube de Eduardo Bueno, historiador e apresentador de programa na History Chanel sobre a História do Brasil. Ele fazia um paralelo histórico com um movimento pouco conhecido nas páginas da história brasileira: Aliança Integralista do Brasil (AIB). Esse movimento político surgido nos anos 1930 durante a Era Vargas defendia um jargão bem conhecido para nós hoje diante dos recentes fatos: Deus, Pátria e Família. Jargão que tem ouvido de muitas pessoas conservadoras desde nossa infância que, apesar de ressoar algo religioso, de religioso e cristão nada tem: é fermento fariseu.

É importante ressaltar que a AIB é um partido nazifascista, liderada por Plínio Salgado, de extrema direita, que fazia oposição a extrema esquerda da ANL (Aliança Nacional Liberal), liderada por Luiz Carlos Prestes com ajuda de Olga Benário. De início, os integralistas eram simpatizantes de Getúlio Vargas, sobretudo, com o golpe de 1937 que instaurou a Ditadura do Estado Novo contra a farsa da ameaça comunista no Brasil. E, quando esta ditadura suprimiu os partidos políticos, inclusive a AIB, de forma nenhuma agradou esse movimento. 

Aos 11 de maio de 1938, tentaram realizar uma intentona integralista com apoio de boa parte dos militares que pertenciam ao movimento. Tratava-se de um atentado violento contra o Palácio de Guanabara, residência presidencial na época, durante a madrugada, onde com apoio dos militares tentaram assassinar Getúlio Vargas e sua família. Liderado por Getúlio, foram cinco horas de resistência, armados apenas com revolver sem chegar nenhuma ajuda. Quando a ajuda chegou, com militares que apoiavam o regime de Vargas, o movimento foi dissipado. Aqueles que participaram do ataque foram fuzilados no mesmo dia no palácio. Plinio Salgado foi exilado.

É interessante destacar, na íntegra, o discurso de Vargas naquela ocasião: “Existia, até pouco, um credo político que disfarçava os seus apetites de sinistro predomínio com as invocações mais caras e arraigadas em nossas consciências: Deus, Pátria e Família. Mas a impostura foi desmascarada. Em nome de Deus, que ordena o amor e o perdão aos próprios inimigos, ninguém pode assaltar e trucidar; a pátria exige a união de todos os brasileiros, empenhados em trabalhar pelo seu engrandecimento; e a família é incompatível com a violação de lares adormecidos, maculados pela violência e a brutalidade de assassínios”.

Vale salientar que a análise crítica é feita com referência aos fatos, não a partidos ou pessoas. Por isso, não se deve compreender discurso favorável ou contrário a Gétulio Vargas ou a movimentos e pessoas atuais. Não existe pessoas e ideologias perfeitas, sobretudo, na política, onde a trama vai além e aquém de nossos esforços. No contexto atual, é preciso defender a democracia e o voto do Povo Brasileiro. É neste ponto que estabelecemos um paralelo à crítica de Vargas. O jargão integralista, que se encontra disfarçado nos discursos ideológicos atuais, tem suas raízes nos regimes mais violentos da história contemporânea e não tem nada de cristão, mas invadiu o catolicismo primeiramente disfarçado no movimento “Tradição, Família e Propriedade” (TFP) e depois nos Arautos do Evangelho. Atualmente é um vírus ultraconservador que tem contagiado todas as igrejas cristãs. Diga-se de passagem, inclusive aos cristãos, isto não tem nada a ver com cristianismo, isso é nazismo. 

E os fatos de 8 de janeiro atestam essa premissa. Pois quem coloca “Deus acima de tudo”, que nos ensina a misericórdia, a concórdia, o perdão e a paz, não faz atos de vandalismo e violência. O Deus de Jesus Cristo perdoou até aqueles que o crucificaram e perseguiram. Jesus não condenou nem o Império Romano, que era um regime desumano, nem movimentou um levante armado. Ele apenas foi ao encontro dos pobres, doentes e marginalizados os curando e dando esperança de um Reino muito maior. Quem defende a pátria respeita os símbolos desta, sobretudo, os palácios da República, estes vandalizados sem nenhuma resistência da defesa da mesma. O verdadeiro patriota defende a união dos brasileiros e não sua divisão criando uma cultura do ódio e da mentira, ainda mais, com os poderes instituídos e com a constituição, a máxima Carta Lei de nosso país. E quem defende a família não faz movimentos de insurreição, mas luta por justiça social, melhores salários, educação, saúde, que tanto nosso povo precisa para o sustento de nossas famílias.

Concluímos dizendo aos cristãos as palavras de Cristo no Evangelho: Cuidado com o fermento dos fariseus que é a hipocrisia. E o fermento deste jargão tão belo não é de Cristo, mas do nazifascismo integralista. E aos patriotas que defendem o Brasil, defendem a Constituição, a República, a Democracia promovendo o engrandecimento de nosso país lutando por verdadeiros valores em defesa da vida e dos direitos humanos.

 

Pe. Anderson Messina Perini

Pároco da Paróquia São Pedro Apóstolo de Garça