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José Lourenço: um empreendedor que faz parte da história de Garça

José Lourenço é um dos personagens do Documentário “Memória Viva: o resgate da história garcense”, um dos contemplados nos editais da Lei Federal (nº 14.017), conhecida como Lei Aldir Blanc. A idealização é da Secretaria de Cultura de Garça, e a realização do ProAc Municípios, Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa, Ministério do Turismo e apoio da Prefeitura de Garça.

17/05/2021 13h59 Atualizada há 2 meses
Por: Francisco Alves Neto Fonte: Da redação
José Lourenço: um empreendedor que faz parte da história de Garça

 O dedo de prosa se estendeu e, quando os minutos foram conferidos no relógio, viu-se que as horas haviam passado mais rápido que o desejado. Boa prosa, com revelações que trouxeram risos e espantos, mas nem todas podem ser recontadas. Num cenário marcado pela calmaria e pela presença de Emus, ouvimos o empresário José Lourenço. Impossível falar sobre indústria em Garça sem com ele dialogar. José Lourenço é um dos personagens escolhidos para ajudar-nos a contar a história de Garça. Ele é um dos personagens do Projeto Memória Viva.

Garcense, nascido na Sentinela do Planalto em 07 de novembro de 1939, José Lourenço é, de fato, um empreendedor. Sua ousadia, seu empreendedorismo, seu ‘tino’ comercial foram (e são) fundamentais para dar um novo rumo no setor industrial garcense. Na terra do café e dos cafeicultores o Engenheiro Industrial- voltado à área da Mecânica – construiu o seu espaço e mudou o cenário industrial garcense.

“Eu me formei em 1963. Em 1959 a Volkswagen veio para o Brasil. A questão da Mecânica era recente no Brasil, que até então vivia somente de café. Foi uma formação difícil, só tinha a FEI, Mackenzie e ITA”, comentou ele, ao lembrar os primeiros passos de sua formação.

Segundo o empresário, a formação não foi muito boa, não haviam professores capacitados. Alguns tinham vindo da guerra e muitos falavam alemão, o que dificultava o entendimento.

Ainda assim, com todas as dificuldades, ele finalizou a formação, numa época em que o polo industrial de Garça era limitado. Numa época em que a concorrência com a cafeicultura não era bem-vinda.

José Lourenço diz que “não tinha expressão, mas tinha pensamento industrial” e, por isso, não o queriam.

 “Aqui tinha o Pastifício Paulista, a Fábrica de Balas Ogawa, a Deusa. Tinha também uma fábrica de sapatos voltada para crianças. Eu, vindo e tendo a mentalidade industrial não foi bom. Não me queriam aqui. Era uma concorrência, pois a Indústria paga mais que a cafeicultura. Iam perder mão de obra. Me tornei professor e lecionei na Escola Técnica Lauro Gomes, em São Bernardo do Campo, onde fiquei até ser demitido. Briguei com o diretor e fui demitido. Me enquadraram em falta grave. Os alunos fizeram greve para eu voltar. Dei aula meio ano”, disse ele, lembrando-se de algumas turbulências vividas.

Mas o meio acadêmico não era o espaço para o garcense, que por cinco anos ficou em colégio interno, crescer. Como frisou, antes de entrar para a faculdade, já pensava em empreender. O empreendedorismo sempre foi sua meta. 

Grampos Darma: o começo de tudo  

Já de volta à terra natal, o espírito empreendedor aflorava em todas as atividades. Começou com a empresa Grampos Darma. Ele e Dorides (Dorides Furlaneto, morto no dia da entrevista), compraram uma máquina em Jaú.

“Dorides era representante comercial. Compramos uma máquina e fizemos a fabriqueta que depois foi para as mãos de Belline (Luiz Carlos Belline)”, comentou.

Mas tem tudo foi (ou é) flores. José Lourenço afirma ter sido objeto de felonias e estas o deixaram praticamente sem nada.

“A minha empresa sobrevive há 50 anos e vive da necessidade de comer. Eu não tinha nada. Fui objeto de felonias. Os amigos tomaram o que eu tinha a ponto de não ter dinheiro para o café”, comentou sem demonstrar mágoa ou outros sentimentos como raiva ou desejo de vingança. Contou os fatos, apenas os citando como uma passagem da vida.

Nessa época, segundo o empresário, ele passava em frente aos bares e não tinha dinheiro para o café. Os amigos saiam quando ele chegava. Foi também a época em que recebeu um convite de uma multinacional de São Paulo.

E a cada tombo, a necessidade de um recomeço, um reencontro e uma superação. Começou a fazer uma peça para um senhor de Londrina. Uma encomenda de 5 mil peças mensais. Peças que ele adaptou, refez, aprimorou. Peças pelas quais cobrou o equivalente a 15 reais, enquanto o cliente pagava até 195 reais.

Ainda assim não foi fácil entrar no mercado. Fabricava peças em plástico enquanto os concorrentes faziam em alumínio. Tinha que haver o convencimento de que a praticidade e a eficiência não se perdiam com a mudança da matéria de confecção. Eram os pulverizadores para postos de gasolina. 

De Portugal para Garça: a saga da Família Lourenço 

O empresário garcense é descendente de português. O pai, Bernardino Lourenço, nasceu em 06 de junho de 1890 em Miranda do Corvo. A mãe, Maria da Missão, também nasceu em província portuguesa. Sem dinheiro, sem cultura, sem expectativas, migraram para o Brasil em busca de novas oportunidades. Na peregrinação, trabalhando com caminhão, acabaram em Garça em 1922.

“Eles poderiam ter migrado para outro país, mas em Portugal tinham condições baixíssimas. Sem nenhuma formação, só sabiam plantar batatas, por isso não tinham como ir para outro país. Ele foi trabalhar no porto, depois em bondes. Tornou-se sócio do meu tio. Era muito econômico e acabou comprando seu primeiro sítio. Minha mãe era muito humilde. Meu pai foi um gênio, era muito bom, se não falasse de dinheiro. Para meu pai e minha mãe, emprego, trabalho, era carpir café”, falou José Lourenço.

Em 1946 o pai comprou a propriedade que hoje está restrita a 1/12 avos do que era. O Sitio São Lourenço, onde nasceu o entrevistado, num território que ia até a base do tratamento de esgoto do Serviço Autônomo de Águas e Esgoto (SAAE).

José Lourenço foi o primeiro filho do casal, mas o empresário, que foi um adolescente fanfarrão (segundo suas palavras) não despertava a confiança dos pais e das mães que procuravam por um genro.

“As mães não me queriam por genro, eu era um adolescente fanfarrão (risos), e meus pais não confiavam em mim, achavam que eu ia jogar tudo o que tinham conseguido fora. Trouxeram uma pessoa de Portugal para cuidar dos negócios. Meu pai era bom, desde que não falasse em dinheiro”

Seu Bernardino e dona Maria da Missão, certamente, desconheciam a veia empreendedora do filho. 

Café: uma alavanca ou um entrave para o desenvolvimento da cidade 

Formado engenheiro José Lourenço se viu, num primeiro momento, sem saber para onde ir. Garça vivia do café e não havia espaço, ou contexto, para um engenheiro.

“Garça vivia do café. Dava dinheiro. Na faculdade um professor disse que Garça era cidade de pessoas ricas. Até que era verdade. Aqui o café corre nas veias”, disse ele.

No entanto José Lourenço não titubeia em dizer que “a desgraça de Garça foi o café”. Os grãos. A cultura cafeeira não permitiu que outras empresas se instalassem no município.

“Os americanos mantinham a cafeicultura. Os baixos salários continham o movimento social. Há 15 anos se falasse para um fazendeiro ‘torra e vende’, ele brigava com você. Hoje tem uns 10 vendendo”, colocou o empresário relatando a influência da cafeicultura na economia garcense. Parece, de fato, que não havia espaço para ele. Mas ele o construiu. Hoje, com a mudança do cenário, Garça vive da indústria, principalmente com a instalação da PPA. 

“O carro chefe é sempre o que vende mais” 

Em 1976 José Lourenço inaugurou a Mac Loren Máquinas Para Agricultura LTDA, mais um empreendedorismo na Sentinela do Planalto. A empresa foi uma das primeiras indústrias metalúrgicas da região.

Do tradicional produto (e único), o pulverizador de ar P01, hoje são mais de 100 produtos em todo o Brasil. E, em meio a tanta diversidade José Lourenço não aponta nenhum produto como ‘carro chefe da empresa’. Para ele, o carro chefe é sempre o que vende mais, o que pode mudar de acordo com o momento.

Se a Mac Loren é uma referência na indústria em Garça, José Lourenço é referência de empreendedorismo e fez parte da história de outras empresas na cidade.

“Montei a fábrica de grampos e quando a PPA começou fiz serviço para a empresa”, comentou, lembrando que, no mundo dos negócios, nem sempre as coisas acontecem como queremos.

Começou a fazer ferramentas para a PPA: 30 peças mensais. Ficou sem oito de seus 15 funcionários. Mais uma vez teve que recomeçar.

José Lourenço usa um ditado popular para explicitar a relação de amizade no meio. Algo como “o negócio é ferrar mesmo os amigos, visto que os inimigos não te deixam chegar perto”. Pronuncia o ditado em meio a risos, na certeza de que seu espaço foi conquistado. 

Fábrica de torneiras: um mimo para a esposa

Embora galã e galanteador, José Lourenço se rendeu ao amor e casou-se com a fonoaudióloga Olga Kazue Takazak Lourenço. Segundo ele, a melhor profissional de toda região.

Formada pela Escola Paulista de Medicina, e mesmo figurando entre as melhores, José Lourenço afirma que a esposa enfrentava as dificuldades de uma cidade pequena, cuja população tinha poucos recursos.

“Em Garça, quem tinha dinheiro ia para São Paulo se tratar, não pagavam uma profissional aqui. Os que ela atendia tinham baixo poder aquisitivo. Um dia ela chegou chorando e dizendo que estava cansada, pois Deus não paga conta, e as pessoas por ela atendidas só diziam ‘Deus lhe pague’. Foi quando montei a fábrica de torneiras para ela”, relembrou o empresário.

 Garça: uma cidade promissora? Depende ...

Voltando à época em que trabalhou em São Paulo, num de seus muitos recomeços, José Lourenço afirmou que achava a cidade um “inferno”, com muito barulho e poluição, algo muito diferente de Garça. Aqui, disse ele, se prima pela qualidade de vida. Ao ser questionado se Garça é uma cidade promissora não titubeia em dizer que depende. Depende das pessoas para desenvolver produtos.

“Eu amo a FAEF. Ela está ligada a atividade agrícola, que é o que temos aqui: água, solo, sol. Temos também a FATEC, na área da informática”.

Mas o homem empreendedor, mesmo tendo sido político universitário, diretor de centro acadêmico, atuado na União Estadual Estudantil e na CIESP (que vê como um clube de amigos), não se aventurou na política.

“Tive vontade”, disse ele, citando o filme “Bem-Vindo a Marly-Gomont”, para explicar sua ‘desistência’.

O filme Bem-Vindo à Marly-Gomont é baseado em fatos reais e conta a história de Seyolo Zantoko, que após se formar em Medicina na França, resolve trazer sua esposa e os dois filhos do Zaire (sua terra natal), e se muda com eles para uma pequena cidade do interior do país chamada Marly-Gomont, onde ele será o médico da localidade. O grande conflito narrativo do filme se apoia no fato de que Seyolo e família se mudam para uma cidade que nunca viu negros antes. Então, as situações as quais a família vive envolvem a superação de muitos obstáculos – todos relacionados ao preconceito e à intolerância. A história fala muito sobre resiliência, força interior e sobre perseverança.

Ao contar os tropeços e os avanços tidos em sua caminhada, José Lourenço relatou várias desventuras, mas não citou o nomes daqueles que, por acaso, seriam considerados inimigos.

O homem, que chega as oito décadas sem sentir saudades já que, segundo ele, a vida é um fluir constante, fala sobre ética e moral e diz não desejar mal a ninguém.

“Ética para mim está ligado ao travesseiro. Não desejo o mal a ninguém. O que foi feito foi, é normal e nem tudo o que é moral é ético. Ética não é crime e tem os aspectos a serem considerados”, finaliza ele.

Na foto, José Lourenço e as filhas Lara Augusta, já formada em Direito e estudante de cinema; a administradora de empresas Irena que hoje comanda a Mac Loren; e a esposa Olga (falecida) 

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