Terça, 15 de Junho de 2021
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Geral RESGATANDO HISTÓRIAS

João Chaves: uma história permeada pela política

João Miguel Chaves é um dos personagens do Documentário “Memória Viva: o resgate da história garcense”, um dos contemplados nos editais da Lei Federal (nº 14.017), conhecida como Lei Aldir Blanc. A idealização é da Secretaria de Cultura de Garça, e a realização do ProAc Municípios, Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa, Ministério do Turismo e apoio da Prefeitura de Garça.

12/04/2021 08h58 Atualizada há 2 meses
Por: Francisco Alves Neto Fonte: Da redação
João Chaves: uma história permeada pela política

Há 93 anos, com apenas quatro anos de idade, João Miguel Chaves aportava na Sentinela do Planalto, vindo direto de sua terra natal: Presidente Alves. Nas novas terras, que ele tomaria por sua, foi construindo sua história com a história da cidade que ainda não era emancipada politicamente, quando aqui chegou. Sentados à mesa de sua casa, num lugar já ocupado por Jânio Quadros, ouvimos um pouco dessa caminhada que foi permeada pela política.

Em Garça, João Miguel Chaves, nascido em 12 de maio de 1923, ficou até os 13 anos, quando foi para São Paulo trabalhar numa Casa Bancária, retornando anos mais tarde para atuar no Banco Cruzeiro do Sul. E nesse retorno, saindo do banco, juntou–se a Nelson Saens e Dirceu Lopes Garrido, abrindo uma distribuidora. Época de ganhar muito dinheiro.

“Nós montados o comércio e ganhamos muito dinheiro. Um ano depois veio a fiscalização, mas eu e o Nelson estávamos tranquilos. O Dirceu era o responsável pela contabilidade e achávamos que estava tudo certo. Não estava e tivemos que vender tudo para resolver a situação”, disse ele.

Na caminhada acabou indo ao encontro da política, ou por ela foi alcançado.

Atuou com o pai do jornalista Antônio Augusto, com quem diz ter apreendido muito, como também com “doutor Nogueira” (Antônio Augusto de Andrade Nogueira - primeiro Prefeito de Garça), de quem era amigo.

“Política era jogo de xadrez. Quando entrei eu recebi o convite (convocação) no Bar Odeon. Estava lá quando chegaram Manolo e Doutor Rafael (Manoel Joaquim Fernandes e Rafael Paes de Barros – ambos foram prefeitos em Garça), e me convocaram para entrar”, lembrou ‘Seu’ Chaves.

Os argumentos de que não entendia de política, de que era getulista, além do serviço no escritório de despachante, não foram o bastante para ‘escapar da convocação’. O queriam entre os edis garcenses e assim, em 1955, ele e ‘Toninho’ (não explicado se Antônio Constantino Neto ou Antônio Cruz) foram eleitos. Já o amigo Miguel (?) ficou na suplência.

“O pai do Tonhô era vereador e muito me ensinou. Eu não era disciplinado, era rebelde, muito franco”, comentou o entrevistado.

Bacharel em Direito, João Miguel Chaves teve participação importante no desenvolvimento de Garça e, paralelo a sua atuação política, esteve à frente, por 70 anos como despachante no “Escritório Chaves” (Escritório Garça).

“Dr Rafael fez de uma vila uma cidade”

Da galeria de prefeitos ‘Seu’ Chaves ressalta as qualidades de alguns chefes do executivo garcense. Sobressaíram, nessa conversa, Rafael Paes de Barros e Júlio Marcondes de Moura.

“Doutor Rafael fez de uma vila uma cidade. Trouxe esgoto, luz, aquelas lâmpadas vermelhas. Já o Julinho era um cidadão humano, inteligente, honesto. Ele era um líder, uma dádiva divina. Era muito desprendido”, relembrou.

De acordo com o entrevistado, Marília era para ser Garça. Nos quatro anos de Governo de Rafael Paes de Barros, Garça se sobressaiu sobre a cidade vizinha.

“Ele tinha uma visão tremenda. Tínhamos jardineira para Cafelândia, Ourinhos e todos vinham pegar aqui em Garça. Tínhamos o avião da Real. Éramos melhor que Marília e tínhamos tudo para ser maior”, sentenciou.

Sem saudosismo, mas sem esconder o bairrismo adquirido, ela fala de uma Garça que muitos não conheceram. 

As ruas largas do Bairro Labienópolis, em contraponto com as ruas estreitas do Ferrarópolis, denunciavam as condições financeiras de seus desbravadores e, mais que a ocupação de terras garcenses, a maneira como eram ocupadas. 

“Garça tinha movimento, a riqueza estava aqui. Tinha fábrica de cerveja de Juiz de Fora (acho que Bavária). Tinha a Fábrica de Óleo Revel, bem antes da do Manolo.”, falou ele. Mas não pode falar em empresas, em indústrias, em progresso em Garça, sem lembrar o período áureo do Frigus (Frigoríficos Unidos S.A).

“O Rodrigues de Barros (José Eduardo Rodrigues de Barros - Sr. Zeca Barros) que trouxe o Frigus para Garça. Depois venderam para o Ribas (família de Herculano Ribas)”, falou Chaves.

Assim o Frigorífico que começou com o nome de Frigorifico Barol em 1965, passou a ser o Frigoríficos Unidos S.A. – FRIGUS, em meados de 1971, quando trocou de donos. Tornou-se um dos maiores exportadores de carnes, chegando a empregar em torno de 1.000 funcionários e com a produção máxima de 1.265 cabeças abatidas em um só dia. E no viés da caminhada João Miguel Chaves lembra também dos períodos de estagnação, da emblemática ‘não vinda’ da Coca-Cola para a cidade. 

“Se Rafael pegasse mais um ano isso aqui seria outra coisa”, falou mostrando o quanto acreditava no político.

Chaves lembrou o período em que Garça teve, nos cenários econômico e político, o domínio de um grupo formado por Manoel Joaquim Fernandes “Manolo”, o irmão Pedro Valentim Fernandes e Jaime Nogueira Miranda. Um período que muitos garcenses denominaram de “Manolândia”. 

“Os fazendeiros moravam em São Paulo, não tinham apego na cidade. Passavam férias, alguns períodos. Com 700 contos compraram a Fazenda Igurê. Tivemos ainda a migração da roça para a cidade que acabou derrubando a população rural. Antigos produtores de café também passaram dificuldades”, colocou Chaves relembrando um período que, segundo ele, Garça perdeu muito para Marília. 

Para ele, foi um período em que não mantiveram o ritmo de desenvolvimento, permitindo que a cidade ficasse “atrasada” em relação a Marília. Também da galeria de prefeitos, Chaves lembrou Durval de Souza, em cujo mandato, segundo o mesmo, a cidade “cresceu vegetativamente”. 

Hoje a Sentinela do Planalto, de acordo com ele, é promissora e a expectativa é de vê-la numa posição importante à nível nacional. O crescimento na área da tecnologia, a vinda da PPA na década de 80 trouxeram uma diversificação e reacendeu as expectativas de uma projeção mundial.

Uma história de amor

Em uma Garça tradicional, unida, com uma juventude bonita, quando as quermesses e os passeios na Praça eram pontos de footing, o jovem Chaves, morador da zona rural, conheceu o amor. Foi numa fotografia exposta por ‘Afonso Esber’ que ele conheceu e se apaixonou por aquela que seria sua companheira de vida.

“Conheci minha mulher por fotografia. Tinha um retrato dela no Afonso Esber (estabelecimento que ficava na Rua Barão do Rio Branco). A fotografia estava exposta. Fiquei com ela na cabeça. Queria saber quem era”, disse ele. Mesmo retornando para casa, a moça bonita lhe ‘roubou’ os pensamentos e se fez necessário saber quem era, chegando inclusive a inquirir João Peixoto Medina (chefe da Estação) sobre a bela moça.

“Eu achei ela muito bonita, aliás até hoje ainda acho. Um dia, numa quermesse, ela estava junto com a Terezinha (?). A Terezinha estava interessada em mim e acabou se tornando nossa madrinha de casamento”, relembrou ele.

Eles se casaram no dia 20 de fevereiro de 1949. João Miguel Chaves e Maria Madalena Manchini Chaves comemoraram neste ano, 72 anos de casados – Bodas de Aveia.

E da juventude na cidade, além das quermesses, dos passeios na praça, ele se lembra dos clubes como Garça Tênis Clube, José do Patrocínio, Grêmio Teatral Leopoldo Froes. Locais que frequentou ainda jovem e clubes que ele, mesmo se dizendo pobre, foi bem recebido. Ele e amigos como José Maria e Mário Célio Vieira.

Finalizando o encontro, depois de trazer à tona casos e causos, João Miguel Chaves afirma que é feliz. “Eu sou feliz. Não tenho nada e tenho tudo”.

Política: amor e ódio?

Na trajetória política os sentimentos se revezaram entre amor, mágoa, ódio, amizade. Entre saber e fazer. Entre querer e poder.

Chaves foi parte do que ele chama de ‘Políticos da Velha Guarda’, tendo sido, depois de acertos e desacertos, Presidente da Câmara por quatro legislaturas (1960/1965/1970/1971). Teve entre amigos, correligionários e adversários pessoas como Antoninho Satiro, João Tarora, Pedro Afonso de Oliveira que, segundo ‘Seu’ Chaves foi um “vereador fabuloso”, Lúcio Oliveira Lima, Julinho (Júlio Marcondes de Moura).

“Fui presidente quatro vezes e, numa das vezes disse que só aceitaria se o Maurício (José Maurício Borges de Oliveira) fizesse parte da Mesa. Fui feliz como presidente da Câmara. Feliz pelo acesso que acabei tendo em São Paulo e porque eu gostava do que fazia”, simplifica João Miguel Chaves.

Membro do Partido Democrático Cristão, do qual foi presidente e delegado, cuja filiação era em São Paulo, Chaves também foi testemunha do desentendimento entre duas grandes figuras políticas em Garça: Manolo e Doutor Rafael. 

E da Velha Guarda de políticos lembrou-se de João Carlos Nouguês, o sexto prefeito municipal a partir de 1929, nomeado em 1932. 

“Ele quase ficou pobre ajudando Garça e nunca foi homenageado”, observou Seu Chaves.

E voltando a galeria de prefeitos falou sobre Júlio Marcondes de Moura, enalteceu suas qualidades de líder, sua inteligência e sua honestidade, lembrando o motivo que o levou a se afastar do amigo. 

“Me afastei por causa de um ........ que ajudei a projetar. Me afastei pela sua deslealdade (a do que foi projetado)”, falou ele.

E na comparação entre a Política da Velha Guarda e hoje, Chaves avalia em âmbito nacional.

“Hoje na Política falta brasilidade e hombridade. Política está uma porcaria no Brasil inteiro. Tenho saudades do tempo que brigavam por ideias políticas e não por picuinhas política”, lamentou ele.

E nas brigas por ideias ou ideais, Chaves acabou tendo atrito com o interventor Jaime Nogueira Miranda e se desencantando ainda mais com a renúncia de Jânio Quadros.

“Tive atrito com Jaime Miranda quando foi interventor. Eu defendia o Julinho e tentaram pegar ele, através de mim. Não gostei. Depois a renúncia do Jânio me desencantou. A maioria da turma do meu tempo ficou rica. Eu não, mas jamais denunciei alguém”, falou ele deixando subentendido alguns “meandros da política”.

Assim, o homem que almoçou em sua casa com Jânio Quadros, que por ele foi convidado a ser diretor de trânsito, que se sentiu lisonjeado e emocionado com a homenagem feita pela Associação Comercial e Industrial de Garça – ACIG, em 23 de novembro de 2020, afirma que não voltaria a atuar politicamente.

“Os homens me desiludiram. Mesmo que voltasse não queria. Os bons não entram na política. Tem que ser pilantra. O Presidente da República (Jair Messias Bolsonaro) teve meu voto e hoje eu tenho nojo. Fica lá defendendo pilantra”, colocou Chaves.

Ainda assim o entrevistado diz que, no balanço geral, não ficou ódio. Ficaram apenas mágoas de algumas histórias que não foram bem contadas.

 

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