Terça, 20 de Abril de 2021
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Geral MEMÓRIA

Antônio Augusto: uma vida contando histórias

Antônio Augusto Ávila Castro é um dos personagens do Documentário “Memória Viva: o resgate da história garcense”, um dos contemplados nos editais da Lei Federal (nº 14.017), conhecida como Lei Aldir Blanc. A idealização é da Secretaria de Cultura de Garça, e a realização do ProAc Municípios, Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa, Ministério do Turismo e apoio da Prefeitura Municipal de Garça.

29/03/2021 20h33
Por: Francisco Alves Neto Fonte: Da redação
Antônio Augusto Ávila Castro: personagem da história de Garça
Antônio Augusto Ávila Castro: personagem da história de Garça

Num tempo da informática, do fake-news e do mundo digitalizado, Antônio Augusto Ávila Castro embarga a voz ao falar sobre o fechamento do Jornal Comarca de Garça, ocorrido em fevereiro de 2018. Não se pode contar a história de Garça sem contar a do Jornal Comarca de Garça e, vice-versa, já que coube ao periódico contar muitas histórias da cidade. Os fatos ‘tropeçando’ nas letras e sendo perpetuados. Em suas páginas, muitas denunciando o passar dos anos, é possível fazer uma viagem no tempo, um resgate da caminhada feita.

Mas, numa memória viva, as horas de conversa com o sócio, proprietário, editor e redator do Jornal Comarca de Garça também revelaram muitas histórias.

Por mais de 63 anos o Tonho, como o jornalista é conhecido, trabalhou no periódico que antes, pertenceu a seu pai Augusto do Nascimento Castro.  Na época em que a triagem era semanal, cabia ao jovem, com pouco mais de 14 anos, datilografar os nomes dos assinantes e levar os jornais aos Correios.

“O jornal não era entregue nas casas. Os assinantes pegavam nos Correios, nas caixas postais. Eram 320 caixas. Doutor Labieno da Costa Machado era um dos grandes colaboradores e tinha a Caixa Postal número um”, falou ele, lembrando um dos fundadores de Garça.

À medida que Garça crescia era preciso ter mais tempo e espaço para contar os fatos. Em 1955 a triagem do Jornal Comarca de Garça passou a ser bissemanal, circulando às quintas e domingos e, assim, ficou até 1959.

A partir de então o periódico chegava até o leitor às terças, quintas e domingos até que, em 1994, passou a circular diariamente.

E em meio a essa evolução, o jovem Antônio Augusto, em 1956, com apenas 15 anos passou a ser o redator do jornal, posição que ocupou até o fechamento do mesmo. Em 1963, faleceu Augusto Nascimento Castro e, em 1970, Tonho assumiu, em sua totalidade, a tarefa de contar histórias. Nem todas com final feliz. Uma tarefa, segundo ele, “meio ingrata”, mas ao mesmo tempo recompensadora.

Num processo de adaptação e crescimento, foi na Rua Coronel Joaquim Pizza, 320, que o jornal funcionou até 1977, quando mudou-se para um prédio próprio, também na Coronel Joaquim Pizza, só que no numeral 254, defronte à Selaria do Kruzick.

“Foi feita uma planta própria para o funcionamento do jornal. As mudanças iam acontecendo. Entre 1990 e 1991 introduzimos o computador Pentium, um investimento de 10 mil dólares. Passamos a operar com offset e depois, de 1994 a 2003 funcionamos na Rua Minas Gerais 135 quando então, fizemos, em 2003, a última mudança para a Praça Pedro de Toledo”, disse ele.

O Jornal que teve seu primeiro exemplar circulando no dia 13 de maio de 1935, editado em um formato tabloide e com circulação restrita e mensal, passou pela modernização de um sistema de informática na redação e na área de diagramação. Da máquina de escrever (nunca abandonada por Tonho) ao computador Pentium. Da composição manual das páginas, passando pelo linotipo, até a máquina que trouxe um colorido para as páginas.

Foi, segundo Antônio Augusto, um grande avanço para um contador de histórias, que deixou um vazio para os colaboradores e para o público. O rompimento de uma tradição familiar, que não será mais retratada nas páginas do jornal.

“O jornal é igual pão de padaria, todo dia se quer fresco, novo. Exige muito. Ficou um vazio e a memória da cidade não será escrita na internet”, falou Antônio Augusto sem conseguir conter a emoção.

Histórias eternizadas nas páginas do tradicional Jornal Comarca 

E no registro da história não foram poucos os fatos que ficaram marcados, além das páginas do jornal. Antônio Augusto relembrou a intervenção ocorrida na cidade que acabou marcando pelo ineditismo; a posse do prefeito em 1968 que, prevista para acontecer as duas horas da tarde, só se efetivou às 11 horas da noite.

“Não havia um entendimento entre os partidos e o Juiz de Direito, que era quem dava posse aos eleitos, foi embora. Depois de tempo, quando de fato houve o entendimento foram atrás do Juiz que estava em um parque de diversões, se divertindo na Roda Gigante. O parque funcionava onde hoje é o CPP (Centro do Professorado Paulista). O prefeito era o Pedro Valentim Fernandes e o presidente da Câmara era o Veríssimo Fernandes Barbeiro”, falou Antônio Augusto.

E se o jornal muito exige e nem todas as matérias são fáceis de fazer, a credibilidade conquistada fazia a diferença sobre os fatos narrados, principalmente nas campanhas eleitorais.

O Jornal, como disse Antônio Augusto, surgiu em 1935, em função da Política. Os partidos políticos tinham membros importantes e o jornal era uma ferramenta que havia para chegarem até o povo.

A criação do jornal foi dos sócios Edgard de Castro Marques e Francisco Pereira de Mello Júnior. Assim, de um objetivo político, o periódico ganhou relevância, conquistou espaços, tramitou em várias áreas, falou sobre muitas coisas e, sedimentou sua significância no cenário eleitoral, numa época em que não havia voto eletrônico, biometria.

Tempos que votos valiam enxadas, milheiros de tijolos, peneiras e promessas vãs.

“Tinha eleição que demorava até dois dias para sair o resultado. Contava-se voto a voto, era muito difícil, as planilhas eram complicadas. O número de eleitores era menor, mas o trabalho era maior. Haviam os escrutinadores que manuseavam as cédulas e faziam a contagem. Não tinha totalizador da Justiça Eleitoral e nós do Jornal, juntávamos força com a equipe que trabalhava na Rádio, fazíamos a contagem e era a imprensa que dava, na frente, o resultado. Quando se divulgava o resultado tido como oficial, nós já tínhamos dado. Muitas vezes o pessoal da Justiça Eleitoral, o juiz, vinha conferir os dados com a gente”, falou Tonho,lembrando pleitos nos quais a fragilidade do sistema eleitoral tinha como contraponto a idoneidade do Jornal.

Época de compra de votos, de cabresto, mas onde, o jornal, que tanto contribuía com a cidade, atendia as expectativas do público. 

Antônio Augusto chegou a lembrar de eleições em que, por um equívoco na contagem dos votos, divulgou-se um vencedor, mas o ganhador era outro. Eleições que o Jornal tinha liberdade e responsabilidade para confrontar a Justiça Eleitoral e para se desculpar.

“Houve uma confusão na hora de somar os votos colocados em planilha e nós divulgamos um candidato como vencedor.  Fiquei a pensar e depois fomos conferir e vimos que ele não tinha ganho, só que já havíamos divulgado, e o candidato já estava comemorando. Quando foi divulgado o resultado certo, o candidato que não tinha ganho veio até discutir com a gente”, falou Tonho.

“O jornal era ferramenta que tinha para chegar no povo. Em 1947/1948, quando meu pai assumiu, ele era da ala política. Isso era normal, o Jornal Folha de São Paulo e o Correio Paulistano também tinham raiz na política”, comentou. 

Elitista 

E o jornal, que por anos chegou a muitos lares, que trouxe histórias do pobre e do rico, era, no início, elitista. Segundo Antônio Augusto, o jornal tinha um nível cultural mais elevado, com a publicação de artigos de fundos feitos pelos colaboradores. No seleto grupo de colaboradores, além de Labieno da Costa Machado havia ainda os fundadores Edgard de Castro Marques (um espírita que liderou campanha para construção do Hospital dos Pobres) e Francisco Pereira de Melo Júnior.

O jornal se democratizou assim como a Cultura e se tornou um referencial para muitos, sempre procurando se aproximar do público.

Dr. Labieno da Costa Machado: educado, culto e inteligente 

Enquanto os contos relatam um desbravador impiedoso, dominador e cheio de mandos, Antônio Augusto vê em Labieno da Costa Machado um homem educado, culto, inteligente e visionário.

“Nossas famílias eram amigas, conheci o filho dele, o doutor William. O Labieno foi embora no início dos anos 40, mas manteve o patrimônio aqui. Era culto, morou no exterior, era uma pessoa erudita”, disse Tonho.

Com grande poder aquisitivo Labieno da Costa Machado trouxe um engenheiro francês para fazer o projeto de loteamento do Bairro Labienópolis. Por isso as ruas no bairro são mais largas. Não havia a preocupação em ter que aproveitar, ao máximo, todo o espaço.

“Em qualquer cidade, as ruas do ‘Labienópolis’ seriam avenidas”, falou Tonho, comentando ainda que ‘Doutor Labieno’ doou terras para o cemitério, para a Vila Vicentina (Lar dos Velhos), mostrando um perfil contrário ao de cangaceiro a ele creditado.

Os filhos Francisco Eumene Machado, Otávio da Costa Machado – que era o playboy da época -, deram nome a ruas do bairro, assim como o nome da primeira esposa de Labieno, Dona Faustina.

Já as ruas da “parte de cima”, loteadas por Carlos Ferrari, eram mais estreitas, uma vez que, com menor poder aquisitivo, era preciso um aproveitamento maior dos espaços.

E nesse cenário de personalidade políticas Antônio Augusto lembra de Maria de Barros, filha do Coronel Antônio de Barros, que se casou com professor Williams – outro nome significativo para Garça -. Nas terras doadas foram construídos o Ginásio Hilmar Machado, o estádio, a Santa Casa, o Lago Artificial, a Creche Maria Leonor.

“O local do lago era um taboal, um brejo que ninguém nem conseguia passar. Vieram também o Williams 1 e Williams 2”.

CASA DA ONÇA 

Um adereço, um bibelô, um objeto de decoração. Uma onça empalhada sobre o balcão da mercearia, na parte de baixo do prédio onde hoje funciona a Creche Maria Leonor, fez com que o local fosse referenciado como ‘Casa da Onça’. Na parte superior do sobrado morava o proprietário, Antônio Carvalho de Barros, o Coronel Barros, e, segundo relatos, antes de vir para a região de Garça, trabalhou para um tio que possuía uma casa comercial em Campinas também chamada “Casa da Onça”. Houve quem dissesse que tal adereço foi trazido de lá. Coronel Barros morreu em 1933. Ele e a esposa Maria Ornellas tiveram oito filhos, dentre ele a Maria Leonor, casada com Sebastião Salgueiro. Maria Leonor e o marido mudaram-se para Garça em 1935 e moraram na “Casa da Onça”, que foi construída em meados da década de 1920, transformando-se, posteriormente, em “Casa da Criança.

A Casa da Onça dava acesso a Vila Salgueiro que foi o primeiro loteamento de Garça, feito por Joaquim Salgueiro, genro do professor Williams, conforme lembrou Antônio Augusto.

Pedro Valentim Fernandes e Jaime Nogueira Miranda: dois excelentes gestores

Para Antônio Augusto, Pedro Valentim Fernandes (ou Pedrinho), figura entre os melhores chefes do executivo em Garça, principalmente em seu primeiro mandato, em 1964, que deveria terminar em 1968, mas foi prorrogado até janeiro de 1969, deixando-o, cinco anos no comando.

“Ele apresentou, no final do mandato, um plano trienal de obras. Teve a pavimentação de Vila Rebelo, Capela do Cemitério. Obras feitas, quase que exclusivamente com recursos municipais”, falou Tonho.

Pedrinho, casou-se com Antônia Caravatto Fernandes e, alguns anos após o falecimento de sua companheira, casou-se novamente com Maria Cecília Caporissi. Teve cinco filhos, dez netos, sendo um já falecido, e dois bisnetos.

Ele exerceu dois mandatos (1964- 1968 e 1973-1977) à frente do executivo garcense. Em 1970 a cidade foi surpreendida com a intervenção federal na prefeitura. Júlio Marcondes de Moura – Julinho – era afastado com base no Ato Institucional número 5, por ordem do presidente General Emílio Garrastazu Médici. No lugar de Julinho assumiu o cafeicultor Jaime Nogueira Miranda.  

Segundo Tonho, durante dois anos e meio de intervenção – de julho de 1970 a 1972 – Jaime Nogueira Miranda comandou a cidade e seu bom relacionamento com o alto escalão estadual facilitou a construção do CEI, do Ginásio de Esportes.

“Como chefe do Executivo conseguiu impulsionar a cidade”, lembrou Tonho. Jaime Nogueira Miranda trabalhou para Manoel Joaquim Fernandes, “Manolo”, (irmão de Pedrinho, Industrial, vereador, prefeito e deputado estadual entre os anos de 1956 a 1976). 

Em 1962 Jaime Miranda presidia a fundação da “Garcafé” e em 1969 assumiu a presidência do IBC – Instituto Brasileiro do Café - poderosa entidade federal. Em 1964, a Garcafé, com Jaime Nogueira Miranda à frente, liderou um importante projeto de renovação da cafeicultura brasileira.

 

 

 

        

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